Política

Por que um partido revolucionário participa das eleições?

Participar das eleições não significa confiar nas urnas, mas usar a campanha para apresentar um programa próprio da classe trabalhadora

Um partido revolucionário participa das eleições porque milhões de trabalhadores participam delas. Durante a campanha eleitoral, cresce o interesse por política, aumenta a discussão sobre os problemas do País e os partidos conseguem falar com setores da população que normalmente não acompanham sua atividade cotidiana.

Abrir mão desse terreno significa deixar a disputa nas mãos dos partidos burgueses.

Isso não quer dizer que um partido revolucionário acredite que as eleições possam transformar a sociedade. O Estado continua sob controle da burguesia, o poder econômico pesa decisivamente sobre as campanhas, a grande imprensa interfere no debate e o próprio Judiciário estabelece quem pode concorrer e em quais condições.

A participação eleitoral serve justamente para mostrar esses limites e, ao mesmo tempo, apresentar uma alternativa.

Lênin discutiu esse problema em Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Ele combateu a ideia de que recusar o Parlamento e as eleições seria, por si só, uma posição mais revolucionária.

Se milhões de trabalhadores ainda acompanham as eleições e esperam alguma coisa delas, não adianta simplesmente declarar que tudo é uma fraude e abandonar a disputa. É preciso falar com essas pessoas, disputar sua consciência e mostrar, pela experiência concreta, por que seus problemas não serão resolvidos apenas pelo voto.

Os revolucionários não escolhem livremente onde a luta política acontece. Eles precisam atuar nos lugares onde a população está politicamente mobilizada.

Por isso, participar de uma eleição não significa se adaptar ao regime. Depende da política defendida.

Os partidos burgueses entram na campanha para conquistar cargos, controlar ministérios, governos e prefeituras. Ajustam o programa conforme as pesquisas, fazem alianças com antigos adversários e procuram agradar empresários, bancos e setores influentes da burguesia.

Um partido revolucionário participa com outro objetivo. A campanha deve servir para defender as reivindicações dos trabalhadores, divulgar um programa socialista, organizar novos militantes e mostrar que a classe operária precisa ter uma política independente.

Uma candidatura pode defender aumento dos salários, redução da jornada de trabalho, emprego para todos, nacionalização dos bancos e das grandes empresas, fim da repressão política e um governo dos trabalhadores.

Essas propostas normalmente ficam fora do debate eleitoral porque os principais candidatos aceitam os limites impostos pelo regime.

A candidatura própria permite colocar essas questões diante de milhões de pessoas.

Também permite mostrar que os trabalhadores não precisam escolher eternamente entre candidatos indicados pela burguesia. Podem lançar seus próprios candidatos, construir seu próprio partido e defender seus próprios interesses.

Esse ponto é importante porque uma das maiores pressões das eleições é justamente obrigar os trabalhadores a escolher o chamado “mal menor”. A discussão passa a ser qual candidato da burguesia seria menos ruim, menos autoritário ou menos prejudicial.

Uma candidatura operária rompe com essa lógica e apresenta uma posição própria.

É aí que aparece a diferença entre participação eleitoral e eleitoralismo.

O eleitoralismo transforma a eleição no centro de toda a atividade política. O partido passa a medir tudo pelo número de votos, pelos cargos conquistados e pelas alianças necessárias para crescer dentro do sistema.

Para um partido revolucionário, as eleições são apenas uma das formas de luta.

Greves, manifestações, organização nos locais de trabalho, luta sindical, mobilização popular e atividade eleitoral fazem parte de uma mesma política. Em determinados momentos, uma forma de luta ganha mais importância que outra.

O erro do abstencionismo está em transformar a recusa às eleições numa regra geral.

Há situações em que um boicote pode ser correto. Mas um verdadeiro boicote precisa ser uma ação política de massas contra o próprio processo eleitoral. Não basta recomendar que as pessoas fiquem em casa ou votem nulo.

O voto nulo também pode ser correto quando não existe nenhum candidato que mereça apoio, principalmente num segundo turno. Mas ele continua sendo uma posição limitada. Diz apenas que nenhum dos candidatos deve receber o voto.

Ele não substitui a necessidade de construir uma alternativa própria.

Quando um partido revolucionário tem condições de lançar candidatos, apresentar seu programa e utilizar a campanha para organizar trabalhadores, não há vantagem política em abandonar esse espaço apenas para parecer mais radical.

A questão principal é o que se faz durante a eleição.

Uma campanha revolucionária deve explicar que os grandes problemas do País não serão resolvidos nas urnas, mas pela organização e pela mobilização dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, deve usar todos os espaços disponíveis para divulgar essa política.

Participar das eleições não significa dizer ao trabalhador que confie no sistema eleitoral.

Significa disputar politicamente com os partidos que querem mantê-lo preso a esse sistema.

É por isso que um partido revolucionário lança candidatos: para apresentar seu programa, organizar a classe trabalhadora e aproveitar a própria eleição para mostrar que a solução dos problemas dos trabalhadores depende da luta pelo seu próprio poder.

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