Setores do PSDB começaram a se alinhar à candidatura de Augusto Cury, do Avante, à Presidência da República. A adesão ocorre poucas semanas depois de o escritor saltar nas pesquisas eleitorais e passar a ser apresentado como uma opção entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Marconi Perillo, candidato tucano ao governo de Goiás, e Marcelo Maranata, que disputa o governo do Rio Grande do Sul, já manifestaram simpatia por Cury. Outros integrantes da legenda estudam seguir pelo mesmo caminho.
O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, não acertou uma aliança formal com o Avante, mas liberou os filiados para apoiar o presidenciável. Entre os tucanos, Cury vem sendo tratado como uma “alternativa de centro”.
A relação entre o escritor e o PSDB não começou depois de sua subida nas pesquisas. No início do ano, quando ainda buscava uma legenda para concorrer à Presidência, Cury negociou com os tucanos. O acordo não foi adiante e ele acabou entrando no Avante.
As direções dos dois partidos também mantêm relações próximas. Aécio Neves é aliado, em Minas Gerais, de Luiz Tibé, presidente nacional do Avante.
A entrada de quadros tucanos pode fornecer a Cury uma estrutura partidária que sua legenda não possui sozinha em escala nacional. O PSDB, embora muito enfraquecido eleitoralmente, ainda dispõe de candidatos, dirigentes e organizações estaduais acumuladas durante décadas.
Esse apoio aparece depois de uma ascensão muito rápida de Cury. No início de setembro, ele passou de 2% para 10% em uma pesquisa da Quaest. Outros levantamentos o colocaram perto de 11%.
A evolução nas pesquisas não correspondeu a um crescimento semelhante da campanha nas ruas. Até pouco antes, Cury tinha pouca presença eleitoral e uma estrutura partidária reduzida.
O Diário Causa Operária já havia chamado atenção para a subida incomum do candidato e para a procura de setores do grande capital por uma opção que pudesse ocupar o espaço entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Cury possui características úteis para essa operação. Não carrega diretamente o desgaste dos partidos que governaram o País nas últimas décadas e pode ser apresentado como um nome exterior à política tradicional. Seu programa, porém, não representa ruptura com os interesses dos grandes capitalistas.
A adesão de figuras do PSDB torna essa imagem de independência ainda mais frágil.
O partido de Aécio Neves governou o Brasil por oito anos com Fernando Henrique Cardoso, comandando privatizações e ataques aos trabalhadores. Em 2014, Aécio disputou a Presidência contra Dilma Rousseff e, após a derrota, o PSDB participou ativamente da ofensiva que terminou no golpe de 2016.
A ascensão de Jair Bolsonaro retirou dos tucanos grande parte do espaço que ocupavam na direita. Desde então, a legenda procura uma maneira de voltar a exercer influência na disputa presidencial.
Cury oferece essa possibilidade sem que o PSDB precise lançar um candidato próprio competitivo.
A expressão “alternativa de centro”, portanto, esconde a presença de setores bastante conhecidos da velha direita brasileira. O escritor aparece como novidade eleitoral, enquanto políticos que participaram durante décadas das principais operações da burguesia nacional começam a se reunir em torno dele.
A movimentação ocorre também depois de Cury receber exposição crescente em grandes veículos e nas redes sociais, pouco antes de sua subida nos levantamentos eleitorais.
Ainda não existe uma aliança nacional entre PSDB e Avante. Mas a autorização dada por Aécio Neves e as adesões de candidatos tucanos mostram que o escritor começa a servir como ponto de encontro para setores que procuram reconstruir uma terceira via em 2026.





