Eleições 2026

PT recebe dinheiro dos mesmos empresários que financiam Bolsonaro

Vinte e quatro empresários distribuíram R$5,6 milhões entre candidatos do PT e do PL; um deles deu R$500.000,00 a Lula e o mesmo valor a Flávio Bolsonaro

O PT apresenta a eleição de 2026 como uma disputa decisiva contra o bolsonarismo. Para uma parcela dos grandes empresários que financiam as campanhas, porém, a divisão parece muito menos dramática. Eles colocaram dinheiro nos dois lados.

Pelo menos 24 empresários fizeram doações simultâneas ao PT e ao PL neste ano. Juntos, destinaram R$5,6 milhões a 46 candidatos e diretórios. O PL recebeu R$2,87 milhões; o PT, R$2,79 milhões. A diferença entre os dois montantes é de apenas R$80.000,00.

O exemplo mais evidente aparece na eleição presidencial. Erasmo Carlos Battistella, presidente da produtora de biodiesel Be8, entregou R$500.000,00 à campanha de Lula e outros R$500.000,00 à de Flávio Bolsonaro.

Battistella afirmou que as doações foram feitas como pessoa física e “dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral brasileira”.

A legalidade da contribuição não responde à questão política. Um empresário que coloca meio milhão de reais na candidatura de Lula e a mesma quantia na de Flávio Bolsonaro não vê seus interesses fundamentais ameaçados pela vitória de nenhum dos dois.

Outros casos seguem o mesmo padrão.

Pedro Grendene Bartelle, cofundador da Grendene, destinou R$1 milhão a Elmano de Freitas, candidato do PT ao governo do Ceará, e R$100.000,00 a Jô Farias, também petista. Ao mesmo tempo, deu R$200.000,00 a Fabiano Feltrin, candidato do PL no Rio Grande do Sul.

Sérgio Augusto Guerra de Resende, acionista da Localiza, distribuiu R$1,1 milhão. Flávio Roscoe e Nikolas Ferreira, do PL, receberam R$300.000,00 cada. O Diretório Nacional do PT recebeu R$500.000,00.

O setor bancário também aparece.

Marcos Alberto Cabaleiro Fernandez, um dos fundadores do Banco Inter, deu R$400.000,00 a Flávio Roscoe, do PL, e R$200.000,00 a Edinho Silva, presidente nacional do PT.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e um tucano expoente da política econômica neoliberal, destinou R$50.000,00 a Mendonça Filho, candidato do PL ao Senado em Pernambuco, e R$10.000,00 a Marcelo Freixo, candidato do PT à Câmara.

O dinheiro dos grandes capitalistas não chega apenas ao PT.

Walter Salles, herdeiro da família que controlava o Unibanco, destinou em 2026 R$400.000,00 a candidaturas do PT, PSOL e PSB. Manuela d’Ávila, candidata do PSOL ao Senado, recebeu R$100.000,00. Anielle Franco, do PT, recebeu outros R$100.000,00. Vilma Reis, também petista, ficou com R$50.000,00.

Em eleições anteriores, Salles também financiou candidatos do PCdoB. Em 2022, suas contribuições eleitorais ultrapassaram R$1 milhão.

Não se trata, portanto, de episódios isolados. Grandes empresários e banqueiros financiam candidaturas apresentadas como de esquerda porque sabem que esses partidos não representam uma ameaça à propriedade e aos interesses fundamentais da grande burguesia.

O financiamento eleitoral funciona como instrumento de influência política.

Os grandes capitalistas possuem interesses permanentes diante do Estado. Dependem de decisões sobre juros, crédito, impostos, contratos públicos, subsídios, obras, legislação trabalhista, regulamentação e dezenas de outras medidas capazes de movimentar milhões ou bilhões de reais.

É por isso que não distribuem centenas de milhares de reais como quem faz uma contribuição desinteressada.

Quando um trabalhador doa uma pequena quantia para uma campanha, geralmente procura ajudar um candidato com quem concorda. Quando um grande empresário financia dezenas de políticos, sua relação com a eleição é de outra natureza. Ele procura manter canais abertos com quem poderá administrar o Estado.

No caso das doações simultâneas ao PT e ao PL, isso fica particularmente claro.

Battistella não precisou escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro.

O fundador do Banco Inter não precisou escolher entre o presidente do PT e um candidato do PL.

Pedro Grendene financiou petistas no Ceará e um candidato do PL no Rio Grande do Sul.

Armínio Fraga colocou dinheiro em candidaturas da direita e da esquerda.

Os trabalhadores são chamados a enxergar PT e PL como representantes de campos absolutamente incompatíveis. Parte dos grandes empresários, entretanto, financia ambos sem qualquer dificuldade.

Isso diz muito sobre a política real do PT.

O partido pede aos trabalhadores apoio para derrotar a chamada extrema-direita, mas aceita dinheiro de capitalistas que também financiam o bolsonarismo.

Não há contradição para esses empresários porque seus interesses essenciais estão protegidos dos dois lados.

Um governo petista não significa nem mesmo combate aos juros estratosféricos, reversão de privatizações ou salário mínimo digno, como estamos vendo neste governo Lula. Os governos do PT mantiveram o pagamento da dívida pública, lucros extraordinários do setor bancário e inúmeros benefícios para os grandes grupos empresariais.

Os capitalistas conhecem essa experiência.

Por isso podem financiar candidatos do PT, do PSOL e de outros partidos da esquerda compatível sem receio de que essas organizações coloquem suas fortunas em risco.

Podem também financiar o PL simultaneamente.

É nesse sentido político que o dinheiro compra os partidos. Não é necessário que cada doação corresponda a uma ordem escrita ou a uma medida determinada antecipadamente. A dependência financeira aproxima os candidatos dos interesses de quem possui os recursos para sustentar suas campanhas.

O próprio comportamento dos doadores demonstra isso.

Se a eleição fosse, para a grande burguesia, uma escolha entre seus interesses e um governo disposto a enfrentá-los, seria absurdo financiar os dois lados. Não é isso que acontece.

 

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