A equipe econômica de Flávio Bolsonaro está incorporando propostas elaboradas no Conselho Superior de Economia da FIESP, presidido pelo ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Ao mesmo tempo, nomes ligados a grandes bancos privados e à equipe de Paulo Guedes participam das discussões sobre um eventual governo.
A aproximação ajuda a definir bem claramente qual política econômica Flávio pretende aplicar caso seja eleito. Enquanto sua campanha disputa votos entre trabalhadores, desempregados, pequenos comerciantes e outros setores populares descontentes e decepcionados com o lulismo que formam parcela importante da base bolsonarista, o programa econômico é preparado pelos representantes do grande capital.
Daniella Marques ocupa posição importante nesse processo. Ex-integrante da equipe de Paulo Guedes e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, ela participa da elaboração do programa de Flávio e integra o Conselho Superior de Economia da FIESP.
É nesse conselho que vêm sendo discutidos estudos aproveitados pela campanha presidencial.
Roberto Campos Neto preside o órgão. Paulo Skaf, presidente da FIESP, mantém há anos relações com a família Bolsonaro e apoiou Jair Bolsonaro na eleição de 2022. Outros integrantes ou ex-integrantes do antigo governo, como Tereza Cristina e o execrável Sérgio Moro, também passaram a ocupar postos em conselhos da entidade.
A ligação, portanto, não surgiu apenas com a campanha de 2026. Há uma aproximação política anterior entre setores do bolsonarismo e a direção da FIESP, agora transformada em colaboração na elaboração do programa econômico de Flávio.
Em agosto, o candidato participou de uma reunião da diretoria da federação com empresários. Durante o encontro, afirmou:
“O que ouvi hoje de setores dos mais variados é a necessidade de fazer um governo com responsabilidade fiscal para que o Brasil retome a capacidade de investimento.”
A formulação coincide com aquilo que Campos Neto e os grandes capitalistas vêm cobrando do próximo governo: aprofundamento do ajuste fiscal e redução das despesas com a população.
Daniella Marques também apresentou à campanha cálculos debatidos no conselho econômico da FIESP:
“Alguns estudos discutidos no Conselho Econômico da Fiesp apontam que um corte de 1,5% do PIB gera um ajuste na curva da ordem de 2,5%.”
Um corte de 1,5% do PIB representa dezenas de bilhões de reais. A questão fundamental é saber onde será feita essa redução.
A campanha não apresenta uma política de diminuição dos enormes recursos destinados aos juros da dívida pública, nem medidas contra os lucros das grandes instituições financeiras. O ajuste discutido pelos economistas próximos de Flávio segue a direção conhecida dos programas neoliberais: redução das despesas com programas sociais, privatizações e diminuição do investimento público.
Isso favorece diretamente os grandes bancos. Quanto maior a parcela do orçamento submetida ao pagamento da dívida e menor o gasto destinado às necessidades sociais e ao investimento estatal, maior é a transferência da renda nacional para o capital financeiro.
Os nomes reunidos em torno da candidatura confirmam essa orientação.
Daniella Marques é apontada como uma das possibilidades para comandar a área econômica de um eventual governo. Sua trajetória política está diretamente ligada a Paulo Guedes, de quem foi auxiliar.
Alexandre Bettamio, executivo do Bank of America, também aparece entre os nomes discutidos para a administração de Flávio Bolsonaro.
Marcelo Kayath, que presidiu o Credit Suisse no Brasil, participa da aproximação da candidatura com empresários e representantes do setor financeiro. Flávio já esteve em um jantar realizado na residência de Kayath, em São Paulo, com integrantes de grandes empresas e instituições financeiras.
Outro nome mencionado é Adolfo Sachsida, antigo integrante da equipe de Guedes e ex-ministro de Minas e Energia. Durante o governo Bolsonaro, Sachsida participou diretamente da defesa das privatizações e do desmonte das empresas estatais.
Assim, o grupo que pode fornecer quadros para um eventual governo presidencial não é formado por defensores de uma política de industrialização independente ou de fortalecimento das empresas públicas. Reúne antigos integrantes da equipe de Guedes e dirigentes ou ex-dirigentes de grandes bancos.
Isso é especialmente importante porque parte do eleitorado bolsonarista espera outra política.
Milhões de pessoas que votam em candidatos da família Bolsonaro – por causa de Jair Bolsonaro – são trabalhadores de baixos salários, desempregados, pequenos empresários, comerciantes e produtores que não fazem parte da grande burguesia. Muitos foram atraídos pelo discurso de que o bolsonarismo enfrentaria as instituições tradicionais e os setores mais poderosos do País.
Existe também um setor mais ideológico do bolsonarismo que alimenta expectativas nacionalistas. Para essas pessoas, um novo governo da família poderia estimular a indústria, proteger a produção nacional e diminuir a dependência do País diante dos grandes interesses financeiros.
A preparação da campanha econômica de Flávio aponta na direção oposta.
Seu programa recebe contribuições de um conselho da FIESP dirigido por Campos Neto. Sua principal assessora econômica pertence a esse conselho. Entre os nomes avaliados para um eventual governo aparecem executivos do Bank of America e antigos dirigentes do Credit Suisse, além de integrantes da equipe responsável pela política econômica de Paulo Guedes, um Chicago Boy.
Não é uma equipe preparada para enfrentar os banqueiros. São os próprios representantes desse setor ocupando posições próximas ao candidato.
O efeito de uma política de ajuste fiscal também não é abstrato para a maioria dos eleitores. Reduzir investimentos públicos afeta emprego e atividade econômica. Cortar despesas atinge serviços utilizados pelos trabalhadores. Privatizações entregam patrimônio nacional e fontes de receita do Estado a grandes grupos privados, transformando serviços gratuitos básicos em serviços caros que o povo não pode pagar.
O pequeno comerciante que depende da renda dos trabalhadores de seu bairro também sofre quando salários, empregos e investimentos caem. A política exigida pelos grandes bancos não protege os pequenos proprietários diante do capital financeiro; aumenta a força dos grupos que já controlam a maior parcela da economia.
A contradição entre o eleitorado e o programa aparece aí.
Flávio pretende receber votos de pessoas que esperam melhora nas condições de vida enquanto prepara sua política econômica com setores interessados em novos cortes, privatizações e vantagens para o capital financeiro.
A imagem de uma candidatura que enfrentaria os poderosos não resiste nem um segundo à realidade de um candidato entreguista que se ajoelha para o imperialismo e para o capital financeiro.
A FIESP participa da elaboração das propostas. Executivos dos bancos entram nas discussões sobre o futuro governo. Os antigos auxiliares de Paulo Guedes voltam a ocupar posições de destaque.
Flávio Bolsonaro apresenta-se aos seus eleitores como alternativa ao regime político tradicional, mas oferece aos grandes capitalistas exatamente aquilo que eles vêm exigindo.





