O PCO decidiu votar nulo no segundo turno. Ativistas petistas responderam acusando o Partido de ajudar Flávio Bolsonaro. Para eles, apertar o botão da urna em favor de Lula é uma batalha contra o fascismo. Quem se recusa a fazê-lo é tratado como cúmplice da direita.
Há uma fraude nessa chantagem. O voto é, em geral, a forma mais passiva de participação política da população. O eleitor comparece à seção eleitoral, escolhe um dos candidatos e volta para casa. Não organiza seus colegas de trabalho, não paralisa uma fábrica, não toma as ruas. Não precisa nem discutir política. Chamar esse ato individual de luta contra o fascismo é rebaixar a luta política ao que o regime permite fazer a cada quatro anos.
Uma eleição pode afastar um candidato do governo. Não dissolve seu partido, não elimina sua influência nem retira da burguesia os bancos, a imprensa e os demais instrumentos com que impõe sua política. Lula venceu em 2022 e o bolsonarismo cresceu. Dilma Rousseff venceu em 2014 e a direita a derrubou dois anos depois. As urnas não impediram o golpe porque os capitalistas conservaram sua força e o PT não organizou uma resistência capaz de enfrentá-los.
Desde que voltou ao governo em 2023, a direção petista repetiu o erro em escala ainda maior. Desmobilizou os trabalhadores e os convidou a acompanhar a política como espectadores sentados no sofá. Em lugar de usar a força da classe operária para enfrentar a direita, Lula governou com Geraldo Alckmin e o Centrão, manteve o arcabouço fiscal e fez do STF o baluarte da luta contra o bolsonarismo. As direções que deveriam convocar a população às ruas preferiram esperar pelas decisões dos ministros.
Enquanto o governo abria as pernas aos capitalistas e à direita, o bolsonarismo seguia falando à população, promovendo atos e apresentando-se como adversário do regime. A esquerda governista passou a pedir apoio para os acordos de Lula com políticos da direita tradicional e para a repressão judicial aos bolsonaristas. Não organizou uma campanha de massas por salários, empregos, redução da jornada, terra e direitos democráticos. Pelo contrário, se desmoralizou diante de sua base.
Agora, diante da força que o bolsonarismo conservou, os responsáveis por mandar sua base para casa apontam o dedo para o PCO e outras organizações que recusaram votar em Lula. Dizem que a eleição decidirá tudo e que o voto nulo entrega o País à direita. Mas foi o PT que teve quatro anos para organizar sua base e preferiu confiar no STF, na frente ampla e nos acordos de gabinete. Não cabe aos trabalhadores pagar por essa política com a renúncia à sua independência.
Combater a direita, o fascismo e o imperialismo exige organizações operárias ativas, vigor no movimento estudantil, agitação nos locais de trabalho e estudo, politização diária do povo explorado, assembleias, greves, manifestações e ocupações. Exige disputar politicamente os trabalhadores que hoje apoiam o bolsonarismo, em vez de insultá-los ou deixá-los sob a influência da direita.
O PCO defende o voto nulo e seguirá organizando essa luta depois da eleição, porque é na luta cotidiana, abandonada pelo PT, que se enfrenta a direita e se derrota a direita.





