A cobrança de que a esquerda revolucionária teria a obrigação de votar no PT ignora a história e as diferenças de programa entre as organizações políticas. Uma política operária independente pressupõe candidaturas próprias e só excepcionalmente admite o apoio a outras candidaturas. Desde 2002, houve uma única situação em que se justificasse o voto no PT: em Lula, em 2022.
O PT é um partido pequeno-burguês, que governa em aliança com a burguesia e cujo programa nada tem a ver com o de um partido operário revolucionário. Sua importância para a política da classe operária decorre dos vínculos que mantém com os trabalhadores. Sem essa ligação, seria uma espécie de PSDB de esquerda.
Em 1989, a corrente Causa Operária ainda integrava o PT e votou em Lula para presidente. Depois de expulsa, voltou a apoiá-lo em 1994 e em 1998. Nas três eleições, Lula se apresentou como candidato de oposição à burguesia. Foi essa condição que determinou o voto, e não algum compromisso permanente com o PT.
Em 2002, a situação mudou. Lula chegou a um acordo com os capitalistas e se tornou o candidato escolhido pela burguesia para governar. O Partido da Causa Operária (PCO) lançou uma candidatura própria e não apoiou Lula no segundo turno. Em 2006, 2010 e 2014, tampouco houve voto no PT, que administrava o Estado capitalista como partido do regime.
O golpe de 2016 alterou a situação política. Derrubado do governo, o PT voltou a ocupar, em certo sentido, uma posição de oposição, agora ao regime estabelecido pelo golpe. A defesa da candidatura de Lula em 2018 correspondia à luta dos trabalhadores contra os golpistas.
Por isso, a orientação correta era o voto em Lula, mesmo diante da tentativa de impedir sua participação na eleição. Lula, porém, não enfrentou o Supremo Tribunal Federal (STF) para manter a candidatura. Sua retirada foi uma capitulação diante dos responsáveis por afastá-lo da disputa.
O apoio não foi transferido a Fernando Haddad. Desde o início, este Diário denunciou que a substituição de Lula entregava a eleição aos golpistas. Mas nem uma eventual possibilidade de vitória justificaria o voto em Haddad: ele não tinha a relação de Lula com o movimento operário e representava uma candidatura tipicamente pequeno-burguesa. Sua atuação à frente da política econômica do atual governo, a serviço dos interesses da burguesia, confirmou essa avaliação.
Em 2022, Lula disputou a eleição como candidato de oposição à burguesia que sustentou o golpe e recebeu o voto do PCO. Foi a única vez, desde 2002, em que o apoio se traduziu em voto no PT, pois a candidatura defendida em 2018 foi retirada.
Transformar essa exceção em obrigação significa exigir que a esquerda revolucionária abandone sua independência política. Nenhuma organização operária deve existir para acompanhar as decisões da direção petista, muito menos suas alianças com os patrões. A classe operária precisa de um programa e de uma organização próprios, voltados à luta contra a burguesia.
Nas ocasiões em que houve apoio a Lula, levou-se em conta sua ligação com os trabalhadores e sua posição de oposição à burguesia. Quando ele se tornou o candidato de um acordo com os capitalistas, o apoio não veio. É esse critério de classe que deve orientar uma política eleitoral revolucionária: votar em candidatos operários. Qualquer outro voto precisa ser justificado por uma situação excepcional, e não pela conveniência eleitoral do PT.





