Uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (13) pela Associação Matria ouviu psicólogos que afirmam deixar de investigar aspectos da vida de seus pacientes por medo de sofrer consequências profissionais. Entre os 116 participantes que atendem ou já atenderam pessoas com questões relacionadas à chamada “identidade de gênero”, 66 disseram evitar determinados temas ou hipóteses clínicas durante as consultas.
O receio não apareceu apenas nessa resposta. Dos mesmos 116 profissionais, 78 relataram insegurança diante da possibilidade de implicações éticas ou disciplinares. No conjunto dos 129 participantes, 91,5% avaliaram que as diretrizes profissionais não são plenamente claras; 69% disseram não ter recebido treinamento específico sobre o assunto durante a formação.
O questionário também perguntou sobre situações encontradas nos atendimentos. Histórico de traumas, violências ou abuso foi assinalado por 70,7% dos profissionais com experiência nesses casos. A investigação desses antecedentes faz parte do trabalho clínico. Quando o psicólogo teme que determinadas perguntas possam render uma denúncia, o paciente corre o risco de ter parte de sua história deixada de lado.
A Matria recolheu relatos de profissionais que dizem temer acusações de preconceito, processos nos conselhos regionais e até a perda do registro. O Conselho Federal de Psicologia apresenta a Resolução nº 1/2018 como uma norma para impedir a discriminação contra pessoas trans. A pesquisa põe outra pergunta diante da entidade: seus profissionais sabem, com clareza, quais investigações clínicas podem realizar sem receio de punição?
Os percentuais não representam toda a categoria. A participação foi voluntária, por questionário divulgado na internet, e pessoas especialmente interessadas no assunto podem ter respondido em maior número. O relatório reconhece expressamente essa limitação. Ela não apaga, porém, o relato dos 66 psicólogos que afirmaram restringir seu próprio trabalho.
Ao fim do levantamento, 126 dos 129 respondentes defenderam a ampliação do debate científico. Os conselhos devem esclarecer suas diretrizes e enfrentar as dúvidas apresentadas, sem tratar a discussão sobre métodos de atendimento como uma infração.





