As direções do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e da Unidade Popular (UP) anunciaram, entre terça-feira (6) e quinta-feira (8), apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Nenhuma delas convocou a militância para decidir a posição. No primeiro turno, realizado no domingo (4), Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. Lula também teve cerca de 3,4 milhões de votos a menos que em 2022.
As três direções anunciaram o apoio sem fazer o balanço que o resultado exige: por que a direita chegou à frente depois de quatro anos de governo de frente ampla? A resposta pronta é o “mal menor”: votar em Lula para barrar a direita. Assim, o calendário eleitoral toma o lugar da discussão política. O cretinismo eleitoral faz da eleição o centro da política e reduz os trabalhadores a eleitores chamados a escolher entre os candidatos da burguesia.
O resultado expõe os limites da política que essas direções agora endossam. O governo fez campanha com o crescimento do PIB e a queda do desemprego oficial, mas os trabalhadores continuaram enfrentando juros altos e salários baixos. Também governou em aliança com a direita tradicional, com Geraldo Alckmin na Vice-Presidência. A frente ampla não conteve o bolsonarismo: Flávio recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula.
Ao convocar os trabalhadores a votar apenas para impedir a vitória da direita, as direções não apresentam uma política própria nem organizam uma luta contra os interesses que fortaleceram seus candidatos. Pedem que o trabalhador vote e volte para casa. Partidos que se apresentam como revolucionários e fazem esse chamado acabam atuando como linha auxiliar da frente ampla.
Independência de classe não significa adotar uma fórmula fixa para toda eleição. Significa decidir a posição a partir dos interesses dos trabalhadores e da situação concreta. Em 2022, Lula saía de um processo de perseguição política e agrupava a maioria dos trabalhadores dispostos a lutar contra a burguesia. Isso justificava apoiá-lo contra Jair Bolsonaro. Para repetir essa posição em 2026, é preciso explicar o que mudou — ou por que quatro anos de uma política que atendeu aos banqueiros não alteraram a situação. O apelo ao “voto útil” pula essa discussão.
A forma como a decisão foi tomada também importa. Na UP, a Executiva Nacional decidiu pelo apoio, anunciado pela ex-candidata Samara Martins e pelo presidente do partido, Leonardo Péricles. PSTU e PCB seguiram o mesmo caminho. Organizações que defendem o poder dos trabalhadores deixaram seus próprios militantes sem voto sobre a política que terão de defender. O correto seria discutir o resultado e as divergências abertamente e submeter a decisão ao voto de delegados eleitos pela base, com unidade na aplicação do que a maioria aprovar.
A direita chegou à frente depois de quatro anos de acordos do governo com partidos burgueses. Enfrentá-la exige mobilização popular e organização política permanente dos trabalhadores, antes e depois das urnas. A eleição pode servir à divulgação de um programa e à organização dessa luta. É por esse critério — e não por uma palavra de ordem eleitoral pronta — que o segundo turno deve ser decidido.





