Radicalização

Centenas de milhares pedem ‘Fora Macron’ nas ruas de toda a França

Estudantes e sindicatos rejeitam a versão de que os protestos perderam força; polícia reprimiu marchas em Paris e Lyon

A França viveu nesta terça-feira (13) outra jornada de manifestações contra Emmanuel Macron. Secundaristas, universitários e trabalhadores foram às ruas exigir a saída do presidente, do primeiro-ministro e do ministro da Educação. As organizações estudantis contaram 480 mil manifestantes em todo o país. O Ministério do Interior anunciou 161.500. Em Paris, a polícia lançou gás lacrimogêneo e usou canhões de água contra os participantes das marchas.

O governo quer fazer crer que a revolta está acabando e tem interesse em reduzir o tamanho das manifestações. Seu balanço nacional ficou mais de 300 mil pessoas abaixo do divulgado pelos sindicatos. Uma contagem intermediária, mais próxima da sindical, oferece uma medida mais convincente da dimensão dos atos. De todo modo, a disputa sobre o total não apaga o crescimento registrado nas comparações mais recentes: os sindicatos haviam contado 450 mil participantes na terça-feira passada e agora anunciam 480 mil; até o Ministério do Interior reconheceu que sua cifra mais que dobrou desde a jornada de quinta-feira, quando registrou 71.500.

A tentativa de declarar encerrado o movimento esbarra também nos dados das escolas. Na segunda-feira, o Ministério da Educação informou que 130 estabelecimentos estavam fechados. Nesta terça, foram 214. A parcela de liceus classificados como “abertos” pelo governo caiu de 96,5% para 94,2%. E essa classificação nem sequer abrange todos os bloqueios e paralisações: uma escola pode manter o portão aberto sem ter aulas normais.

No ensino superior, a União Estudantil afirmou que 90% das cerca de 70 universidades francesas estavam fechadas ou bloqueadas. O ministério admitiu perturbações em um terço dos estabelecimentos, mas voltou a apresentar seu levantamento como prova de normalidade. A expansão da revolta chegou até a Paris-Saclay, campus de instituições prestigiadas nos arredores da capital. Ali, cerca de 500 estudantes participaram na segunda-feira de uma assembleia para decidir a continuidade de um bloqueio, com manifestações de apoio de professores.

Em Paris, duas marchas reuniram 41.500 pessoas segundo o Ministério do Interior; os organizadores calcularam quase 100 mil. Houve confrontos, feridos e detenções. Um correspondente da Al Mayadeen relatou que mais manifestantes chegavam enquanto a polícia disparava granadas de gás. Na região dos Inválidos, agentes cercaram participantes do protesto e impediram que deixassem o local. A palavra de ordem pela saída de Macron tomou as ruas que o governo esperava ver esvaziadas.

Houve atos também em Lyon, Marselha, Nantes, Estrasburgo, Toulouse, Bordeaux, Rennes e Lens, entre outras cidades. A prefeitura calculou 11 mil manifestantes em Lyon. Em Marselha, a polícia contou 3.800; a CGT, 35 mil. Em Lyon, sindicalistas identificados por seus coletes denunciaram agressões durante uma operação policial. Segundo o sindicato SNES-FSU, um professor precisou ser levado ao hospital após receber um golpe de cassetete abaixo do olho.

A revolta começou em setembro nos liceus das regiões operárias próximas de Paris. A falta de professores, as salas lotadas e os prédios deteriorados levaram os estudantes a bloquear escolas. Eles exigem ainda o fim do Parcoursup, sistema de seleção para o ensino superior, e 10 bilhões de euros para os liceus. Macron respondeu com a promessa de enviar três mil professores substitutos aos estabelecimentos em situação mais grave. Os estudantes mantiveram os bloqueios e convocaram a nova jornada nacional.

A repressão policial acrescentou outra exigência às manifestações. Um adolescente perdeu a mão em Lens após ser atingido por uma granada; outro teve o rosto gravemente ferido por um disparo de gás. Nesta terça-feira, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, informou ao Senado que a inspeção da polícia abriu 36 investigações sobre a atuação dos agentes desde o início da mobilização. Quatro envolvem ferimentos mutilantes. Enquanto o ministro enumera os inquéritos, seus policiais continuam atacando os protestos com gás.

As organizações de secundaristas e universitários deverão se reunir na quinta-feira (15) com os ministros da Educação e do Ensino Superior. Também convocaram seus participantes para os atos de sábado (17) contra a alta do custo de vida, apoiados pela CGT. A possibilidade de unir a revolta estudantil às reivindicações dos trabalhadores aumenta a pressão sobre o governo que, até agora, ofereceu promessas aos jovens e repressão nas ruas.

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