Estudantes franceses convocaram uma nova jornada de manifestações e bloqueios de escolas e universidades para esta terça-feira (3), em preparação para a greve geral marcada para quinta-feira (5). Em Paris, a polícia proibiu o percurso da manifestação organizada pela Interfac Île-de-France, que pretendia sair do Panteão em direção à sede do Movimento das Empresas da França (Medef), principal organização patronal do país. A medida representa mais um ataque do governo de Emmanuel Macron ao direito de manifestação, em meio aos protestos que se espalharam pela França desde setembro.
A União Nacional dos Estudantes da França (Unef) convocou uma journée noire, ou seja, uma jornada de paralisação das universidades. A União Sindical Liceana (USL) e a União Estudantil também chamaram os estudantes a bloquear os estabelecimentos de ensino, dando continuidade ao movimento iniciado há cerca de seis semanas.
Na segunda-feira (2), primeiro dia de aulas após as férias escolares, 41 liceus estavam bloqueados às 9h30, segundo o Ministério da Educação. O número corresponde a aproximadamente 1% dos 3.700 estabelecimentos do país, mas os dados do governo não são confiáveis. As organizações estudantis pretendem ampliar a paralisação nesta terça-feira e manter os bloqueios na quinta, quando os trabalhadores realizarão uma greve nacional.
A porta-voz da União Estudantil, Sabrine Kharbach, explicou a preparação do movimento em declaração reproduzida pela franceinfo:
“Já nesta terça-feira, vamos bloquear nossas universidades e liceus e também faremos bloqueios na quinta-feira, para depois participarmos da manifestação de 5 de novembro, convocada pelos trabalhadores.”
A preparação dos atos ocorre sob novas ameaças da polícia. A Direção Nacional de Segurança Pública determinou o reforço do policiamento nas proximidades dos estabelecimentos escolares. Na segunda-feira, policiais já estavam posicionados diante do liceu Le Corbusier, em Aubervilliers, na região parisiense de Seine-Saint-Denis.
A proibição da manifestação da Interfac representa outro ataque às liberdades democráticas. O coletivo, que reúne estudantes organizados em assembleias gerais das universidades da região de Paris, havia comunicado às autoridades o percurso entre o Panteão e a sede do Medef. A prefeitura de polícia decidiu impedir o trajeto.
A decisão foi anunciada depois de sucessivas restrições impostas às manifestações contra Macron. O governo mobilizou grandes contingentes policiais nas últimas semanas e procurou limitar os locais de concentração dos manifestantes. A proibição do percurso estudantil impede que a juventude realize o ato conforme planejado diante da organização dos grandes empresários franceses.
Governo não consegue encerrar os protestos
A repressão foi acompanhada de concessões parciais do governo, que procura encerrar a mobilização estudantil antes da greve geral.
Na semana passada, o governo anunciou que substituiria progressivamente o sistema de ingresso no ensino superior, Parcoursup, até 2028. Também prometeu cancelar a eliminação de postos de trabalho na Educação Nacional, criar 500 vagas adicionais e limitar a 28 o número de alunos por turma no primeiro ano do ensino médio.
Outra promessa foi a abertura de 15 mil vagas no ensino superior. O número, porém, está muito abaixo das 250 mil exigidas pelas organizações estudantis.
As medidas não encerraram os bloqueios. Os estudantes decidiram manter a mobilização e participar da greve dos trabalhadores, ampliando o alcance dos protestos contra o governo.
Mais de 200 manifestações na quinta-feira
A greve geral de quinta-feira deverá reunir trabalhadores dos setores público e privado, estudantes, aposentados e integrantes dos coletes amarelos. Segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT), mais de 200 manifestações estão previstas em todo o território francês.
A convocação partiu inicialmente de uma frente sindical formada pela CGT, Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), Força Operária (FO), União Nacional dos Sindicatos Autônomos (Unsa) e Federação Sindical Unitária (FSU). Posteriormente, as demais organizações sindicais aderiram à paralisação.
Os trabalhadores reivindicam aumentos salariais, defesa do emprego, preservação dos serviços públicos e mudanças no orçamento apresentado pelo governo. A greve deverá atingir escolas, transportes, bancos, seguradoras, farmácias e outros setores.
A secretária-geral da CGT, Sophie Binet, declarou na segunda-feira (2), à emissora France 2, que a paralisação deverá ser uma “grande jornada de convergência”.
“Queremos duas coisas: aumentos salariais em todos os setores e uma revisão do projeto de orçamento do governo, que, na forma atual, é catastrófico para o país”, afirmou.
Segundo Thomas Vacheron, secretário confederal da CGT, aproximadamente três milhões de pessoas participaram, somadas as diferentes manifestações realizadas no último mês e meio. A intenção dos sindicatos é ampliar a mobilização para os locais de trabalho, por meio de greves e paralisações.
As organizações sindicais reuniram-se com representantes do governo há cerca de dez dias, mas não obtiveram medidas concretas para atender às reivindicações. A possibilidade de um aumento do salário mínimo foi mencionada, sem que o governo assumisse um compromisso.
Em Paris, até segunda-feira, a polícia ainda não havia autorizado o percurso solicitado pelos sindicatos para quinta-feira, entre a praça da Bastilha e a praça da Concórdia. Sophie Binet criticou a demora, que prejudica a organização da manifestação.
Estudantes e coletes amarelos se unem aos trabalhadores
A participação da juventude na greve foi confirmada pelas organizações estudantis. Ryad Rani, da União Sindical Liceana, declarou à BFMTV:
“Evidentemente, os estudantes dos liceus e das universidades se juntarão aos trabalhadores, porque eles nos apoiaram e nós também os apoiamos.”
Os coletes amarelos, que realizaram manifestações durante três sábados consecutivos, também convocaram seus integrantes para a greve. Benjamin Ball, representante do movimento, afirmou à rádio RMC que a paralisação deveria ultrapassar os limites das organizações sindicais.
“Precisamos fazer com que o 5 de novembro não seja apenas um 5 de novembro intersindical, mas o 5 de novembro do povo”, declarou.
A coordenação dos coletes amarelos pretende prolongar os protestos depois de quinta-feira. Para sexta-feira (6), convocou a continuidade das greves e dos bloqueios. No sábado (7), deverá ocorrer o quarto ato nacional do movimento, com manifestações em diferentes cidades.
Ball também defendeu a realização de uma reunião nacional dos setores mobilizados, incluindo estudantes, camponeses, professores, funcionários públicos e trabalhadores de diferentes categorias, para exigir do governo um plano de emergência.
A possibilidade de prolongar a greve ainda não foi assumida pela maioria das direções sindicais. A organização Solidaires defendeu a continuidade da paralisação, enquanto Caroline Chevé, secretária-geral da FSU, reconheceu que uma única jornada não seria suficiente.
A aproximação entre estudantes, sindicatos e coletes amarelos representa uma ampliação importante da luta contra Macron. Depois de semanas de manifestações e bloqueios escolares, a entrada dos trabalhadores na greve poderá aumentar a pressão sobre o governo.
As proibições policiais e as concessões limitadas anunciadas pelo Executivo não conseguiram encerrar os protestos. A greve de quinta-feira será uma oportunidade para unificar a luta da juventude e dos trabalhadores contra a política de Macron e suas medidas de repressão.





