Polêmica

A ‘civilização’ dos banqueiros não interessa aos trabalhadores

Colunista da Folha apresenta FHC e Lula como defensores da democracia, mas deixa de fora a política econômica, o golpe de 2016 e os ataques aos trabalhadores

Banqueiros

A socióloga Angela Alonso publicou na Folha de S.Paulo, em 9 de outubro, um artigo que reduz o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro à escolha entre “civilização ou barbárie”. Quem concorda com Alonso é civilizado; quem questiona o apoio a Lula abre caminho à barbárie.

A primeira preocupação da autora é preservar as instituições. Que alerta que a direita conquistou espaço no Congresso e nos governos estaduais e faltariam apenas a Presidência e a Justiça, apresentadas como “trincheiras” democráticas. Mas de que democracia fala? A do trabalhador endividado ou daquela que permite aos bancos determinar os rumos da economia? As instituições que protegem os grandes capitalistas não viram órgãos populares porque o PT está no governo.

Alonso sustenta que o conflito opõe o emprego de “meios democráticos” ao uso da violência. É uma maneira de excluir a violência econômica do seu conceito de política. Sob Lula, a taxa Selic chegou a 15% ao ano, em 2025; hoje, chega a 13,75%, um patamar extraordinariamente elevado. A decisão cabe ao Banco Central ‘autônomo’ , cujo poder foi preservado pelo governo.

Não se pode falar em liberdade quando, na prática, o trabalhador vive hoje em uma escravidão por dívida. Quem governa para os bancos apenas piora a vida das pessoas. E seria o caso de se perguntar se esses juros representam a civilização ou a barbárie.

A autora tenta dar um caráter histórico à sua escolha recorrendo à abolição de 1888 e à Constituição de 1988. A comparação, porém, volta-se contra sua tese. A abolição resultou da resistência dos escravizados e da luta abolicionista, não de uma campanha para escolher o administrador mais educado do escravismo. Os direitos democráticos após a ditadura também resultaram de greves e mobilizações. Alonso transforma lutas sociais num apelo para que se aceite a candidatura supostamente civilizada.

É muito revelador vem quando a Alonso identifica “avanços civilizacionais” na sequência dos governos de Fernando Henrique Cardoso e dos dois primeiros mandatos de Lula, afirmando que seguiram a mesma direção. Aí está o conteúdo político da sua civilização. FHC, o Príncipe da Privataria, o presidente das privatizações, da submissão ao FMI e da abertura da economia aos interesses do imperialismo, é promovido a construtor da democracia brasileira. A venda da Vale e do sistema Telebrás, a ofensiva contra as empresas estatais e o emprego da repressão contra a greve dos petroleiros de 1995 seriam, afinal, etapas do progresso civilizacional.

Essa reabilitação do PSDB serve para justificar a frente ampla de Lula. Geraldo Alckmin, antigo adversário do PT, tornou-se vice-presidente. Políticos que aplicaram o programa da burguesia ou apoiaram golpes são recebidos como aliados indispensáveis. Os trabalhadores devem moderar suas reivindicações para preservar a unidade dos “civilizados”.

O ponto mais absurdo do artigo é a explicação para 2016. Alonso lamenta o impeachment de Dilma Rousseff, recorda o elogio de Jair Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra e conclui que a chamada Nova República terminou naquela votação. Mas quem organizou o processo? O PSDB, que a colunista acabara de louvar como protagonista da democracia.

Em outubro de 2015, o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, acompanhou Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior no registro do pedido de impeachment. Em abril de 2016, os 52 deputados tucanos anunciaram voto favorável. O voto que completou os 342 necessários foi o de Bruno Araújo, do PSDB. Bolsonaro apoiou o golpe, mas não foi seu principal articulador institucional.

Miguel Reale Júnior, autor do pedido que abriu caminho para a deposição de Dilma e ex-ministro de FHC, acaba de declarar voto em Lula contra Flávio. O golpista de 2016 reaparece como democrata em 2026, sem sequer renegar o impeachment. Basta mudar de lado na eleição para receber o certificado de civilização.

A autora afirma ainda que um campo representaria a garantia de direitos e o outro, o predomínio da força. Quais direitos? A reforma trabalhista de Michel Temer, instituída pela Lei nº 13.467, de 2017, continua em vigor. A reforma da Previdência de Jair Bolsonaro, aprovada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019, tampouco foi revogada. O governo Lula preservou o núcleo dessas medidas. Por que o governo civilizado não lutou para a devolução dos direitos retirados depois do golpe?

Também é necessário perguntar o que Alonso entende por “império da lei”. O Supremo Tribunal Federal, que aparece implicitamente entre as trincheiras, tem ministros envolvidos em um escândalo gigantesco com o Banco Master. Mas não se vê o rigor aplicado a eles, que por muito menos ordenam bloqueios de contas, busca e apreensão, além de prisões preventivas.

A oposição entre a candidatura que rejeitaria a violência e outra que a celebraria tampouco resiste à própria propaganda do PT. Na disputa atual, Lula adotou a palavra de ordem “bandido preso e trabalhador protegido”, procurando competir com a direita no terreno da repressão policial. Quando Flávio Bolsonaro explora a revolta contra as instituições e promete modificá-las, Alonso transforma a promessa em destino inevitável. Não examina a relação de forças, os obstáculos políticos nem os interesses da burguesia que eventualmente sustentariam seu governo. Para sua argumentação, basta afirmar que o pior acontecerá se Lula perder. Vencer uma eleição não dá ao presidente o poder de realizar tudo o que promete.

No fim, Alonso lamenta que o País esteja sobre os escombros do “sonho democrático” da Nova República. Esquece de fazer a conta: o PT governou de 2003 a 2016 e voltou à Presidência em 2023. Se a democracia se encontra em ruínas, que responsabilidade cabe aos governos que permaneceram tantos anos à frente do Estado e optaram por conciliar com banqueiros, latifundiários, partidos golpistas e o próprio aparelho judicial?

O lema “Civilização ou barbárie” serve para encerrar essa discussão antes que ela comece. A chantagem exige o voto em Lula sem prestar contas da política econômica, da frente ampla e dos direitos que os trabalhadores perderam.

A tarefa da esquerda é defender uma política independente dos trabalhadores, antes, durante e depois das eleições. Para Alonso, a escolha é simples porque todos os problemas e a luta de classes foram retirados do debate.

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