O teólogo Leonardo Boff publicou em 9 de outubro, no sítio A Terra é Redonda, o artigo Uma leitura filosofante das eleições. O avanço eleitoral da direita serve de ponto de partida para falar em depressão coletiva, ameaça de extinção e fracasso da civilização. Depois de recorrer a Freud, Jung e teorias sobre o caos, encontra uma saída para tamanha catástrofe: a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro.
Há uma contradição em toda essa construção. Boff apresenta a crise histórica da sociedade capitalista como se fosse uma crise definitiva da própria humanidade. O que está ameaçado é a ordem social à qual seu pensamento permanece ligado. Para o intelectual burguês ou pequeno-burguês, a ruína do sistema que sustenta sua existência parece a ruína de tudo. Sem conceber uma sociedade para além da burguesia, resta esperar que algum governante restaure a velha ordem.
Essa reação não nova. No final do Antigo Regime, setores da aristocracia e de seus representantes intelectuais encaravam a desagregação do feudalismo como uma ameaça ao mundo conhecido. Não era o mundo que acabava, no entanto, eram as relações sociais que garantiam seus privilégios. A Revolução Francesa inaugurou uma nova época e a sociedade burguesa também não é eterna.
Boff começa declarando que as categorias disponíveis já não bastariam para explicar a crise brasileira e mundial. Seria necessária uma “ótica filosofante” para encontrar “alguma luz esperançadora”. Marx respondeu a esse tipo de contemplação ainda em 1845, na décima primeira de suas Teses sobre Feuerbach, que diz que “os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”. As ideias não pairam sobre a sociedade, elas surgem de relações materiais e adquirem força ao intervir na prática social.
O artigo prefere procurar a origem do mal-estar numa decepção universal. Segundo Boff, fracassaram as promessas do iluminismo, do capitalismo, do socialismo, da democracia, das tecnologias de comunicação e da inteligência artificial. Mistura fenômenos diferentes sem examinar sua natureza. Que promessas? Quem as fez e a quem serviram? A história resulta da ação de forças sociais em conflito e não é obrigada a realizar expectativas proclamadas por ideólogos.
O socialismo, principalmente, não pode ser reduzido a uma promessa frustrada. É um movimento histórico fundado nas contradições da produção capitalista e na capacidade da classe trabalhadora de tomar em suas mãos o destino da sociedade. Derrotas e retrocessos não apagam essa força social. Boff não confia nela como criadora de uma nova ordem. Seu pessimismo nasce da descrença na revolução proletária.
Durante um segundo, ao resumir a teoria de Toynbee sobre civilizações que ascendem e desaparecem diante de desafios, admite que o historiador talvez tenha deixado de considerar a luta de classes. Mas logo abandona a hipótese e volta à ideia de desafios superiores à capacidade de resposta da civilização. Sem as classes sociais, não se sabe quem perde com a crise e quem possui interesse em superá-la.
Engels, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, explicou o aparecimento das classes a partir do desenvolvimento da produção, da divisão do trabalho, do excedente e da propriedade privada. As sociedades de classes não seguem um ciclo metafísico de nascimento, apogeu e morte. O capitalismo, ao desenvolver as forças produtivas, criou o proletariado, capaz de pôr fim à propriedade privada dos grandes meios de produção e à própria divisão em classes.
Por isso é tão revelador que Boff fale de ódio, raiva, mentiras e violência como se fossem sintomas inéditos de uma enfermidade mundial. Esses fenômenos acompanham a história das sociedades de classes. O que precisa ser explicado é sua forma atual: as guerras imperialistas, a exploração dos trabalhadores, a disputa por mercados e a repressão contra os povos que resistem. São relações sociais concretas, sustentadas por Estados, exércitos e pelo capital.
O fato de a humanidade possuir armas capazes de provocar uma catástrofe não prova que esteja condenada à extinção. Freud escreveu sobre o potencial destrutivo da técnica há quase um século. Depois vieram a Segunda Guerra Mundial, revoluções e lutas de libertação nacional. A história prosseguiu pela atividade humana.
A tentativa de substituir essa história pela cosmologia leva o artigo a seu ponto mais confuso. Boff recorre a Ilya Prigogine para dizer que o caos destrói uma ordem e traz dentro de si as sementes da seguinte. Cita Order Out of Chaos em coautoria com Isabelle Stengers. As pesquisas de Prigogine sobre processos físicos não provam que sociedades atravessem ciclos eternos de decomposição e renascimento. Uma descoberta da termodinâmica não é uma lei universal da política.
A semelhança com uma cosmologia religiosa é evidente. Uma ordem desaparece, outra surge e tudo recomeça, como se um princípio superior conduzisse a história. O novo mundo não sairá de uma operação mágica do “caos generativo”. Será obra de homens e mulheres organizados, em condições históricas determinadas, enfrentando interesses sociais igualmente determinados.
E, no entanto, o próprio Boff termina sua longa reflexão sobre o destino do universo defendendo a eleição de Lula. O presidente aparece como expressão do “caos generativo”, destinado a derrotar o “caos destrutivo bolsonarista-fascista” e promover a inclusão dos pobres. A tragédia cósmica se resolve numa campanha eleitoral. A vitória de um candidato aliado a setores da burguesia ganha os poderes de renovação do universo.
É essa a limitação de seu horizonte político. Boff não consegue ver a possibilidade de os trabalhadores superarem o próprio regime de exploração. A saída, para ele, passa pela eleição de quem promete administrar melhor a ordem em crise. A linguagem grandiosa encobre um programa estreito.
Leon Trótski nos oferece o contraste mais expressivo. Em fevereiro de 1940, exilado no México, perseguido pelo stalinismo e depois de sofrer perdas familiares devastadoras, escreveu em seu testamento: “A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão”. Não desconhecia as guerras, as derrotas e a brutalidade do século. Sua confiança no futuro não decorria de um consolo sobrenatural. Decorria da perspectiva de que a classe operária poderia transformar a sociedade e abrir à humanidade possibilidades que o capitalismo sufocava.
Boff termina pedindo que ninguém desespere, depois de páginas sobre fracassos, depressão e possível extinção da humanidade. O desespero que descreve, porém, não é um sentimento universal da humanidade. É a expressão ideológica de quem contempla a decadência da ordem burguesa e não reconhece no proletariado a força capaz de superá-la. O mundo não está condenado a morrer com o imperialismo. Quem não consegue imaginar seu fim sem imaginar o fim de tudo é que perdeu a perspectiva histórica.





