O artigo O veneno de André Mendonça e seu antídoto, de Antonio Martins, publicado no sítio Revista Movimento — ligado ao MES-PSOL — neste domingo (13), trata do caso Daniel Vorcaro e expõe a podridão das relações entre banqueiros, ministros do STF e integrantes do regime político. Mas o autor recua quando precisa tirar as consequências dessa constatação.
Martins classifica a atuação de André Mendonça como “ilegal, abusiva e hipócrita”, e ainda sustenta que o ministro teria conduzido a divulgação das informações sobre Alexandre de Moraes para produzir uma crise às vésperas das eleições, favorecer Flávio Bolsonaro e desorganizar a esquerda.
Eventualmente, Mendonça pode ter cometido ilegalidaes, o que já é esperado para o Supremo. Existem as tais relações com o bolsonarismo e com o próprio Vorcaro. Mas nada disso responde à questão central: o que as revelações mostram sobre Moraes e sobre o STF?
O texto menciona o contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, benefícios concedidos à família do ministro e mensagens em que Vorcaro pede informações, orientação e intervenção. Em uma delas, afirma ter uma “dívida de vida” com Moraes e sua família.
É curioso, então, que o artigo diga que essas mensagens são “ao mesmo tempo chocantes e triviais”. Seriam chocantes pelo que revelam, mas “triviais” porque relações desse tipo fariam parte do funcionamento normal das instituições. Martins pergunta se a relação entre Vorcaro e Moraes seria realmente excepcional e responde que “só os mais ingênuos acreditariam que sim”. Em seguida, passa às relações do banqueiro com bolsonaristas e com Mendonça.
A conclusão deveria ser simples: se Moraes não é uma exceção, então o problema é muito maior do que Moraes. Se banqueiros mantêm relações desse tipo com ministros do STF, parlamentares e integrantes de diferentes governos, o regime inteiro está podre. A conclusão deveria ser a necessidade de uma política independente da classe trabalhadora contra todos esses setores. Martins, porém, não vai até aí.
A generalização acaba funcionando para relativizar Moraes. Se todos fazem coisas semelhantes, o caso específico perde importância; e se Mendonça também está envolvido, a denúncia contra Moraes aparece como hipocrisia. Além disso, uma vez que Bolsonaro pode explorar eleitoralmente o escândalo, a própria revelação passa a ser tratada como parte de uma operação da direita.
Finalmente, o que deveria ampliar a acusação acaba servindo para amenizá-la. O motivo desse recuo é político, pois durante anos a maioria da esquerda brasileira transformou Alexandre de Moraes no caçador oficial de fascistas. Suas arbitrariedades, censura, prisões e concentração de poderes foram ignoradas ou convenientemente varridas para debaixo do tapete porque o alvo era Bolsonaro ou seus apoiadores.
Moraes, porém, jamais foi representante dos trabalhadores. Basta lembrar que foi indicado ao STF pelo golpista Michel Temer, que assumiu a Presidência depois do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff. Antes disso, havia sido secretário de Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin e ministro da Justiça de Temer. Transformá-lo em símbolo da defesa da democracia é o mais puro oportunismo.
Em vez de enfrentar Bolsonaro por meio da mobilização independente dos trabalhadores, essa esquerda depositou confiança no STF, no TSE, na Polícia Federal e em outras instituições do Estado. É por isso que agora não pode simplesmente criticar Moraes até o fim.
Fazer isso significaria admitir que foi um grave erro apoiar a concentração de poderes nas mãos de um ministro indicado por Temer e em uma instituição do Estado burguês. Significaria reconhecer que o “combate ao fascismo” não passa de uma farsa. A crise atual obriga essa esquerda a encarar o resultado de sua própria política.
Por isso o foco precisa ser deslocado. Mendonça teria violado procedimentos, além de ser bolsonarista. Trump, por sua vez, teria interesse na crise, enquanto Flávio Bolsonaro poderia ganhar votos. São subterfúgios que não eliminam o conteúdo das revelações sobre Moraes.
O fato de Bolsonaro tentar explorar um escândalo não torna o escândalo menos grave. A esquerda não deveria definir sua posição perguntando quem ganhará votos com cada denúncia.
O próprio Martins reconhece que partidos anteriormente acomodaram-se às instituições e que o lulismo abandonou a mobilização popular para apostar em acordos dentro do regime. No texto critica o ajuste fiscal do governo e, no entanto, recua novamente na conclusão.
No meio disso, o autor propõe que o “antídoto” é transformar a luta pelo fim da escala 6×1 numa grande mobilização capaz de recuperar a iniciativa eleitoral de Lula. O artigo chega a afirmar que, nesse processo, “o papel de Lula será reconhecido”.
Martins denuncia a adaptação do lulismo às instituições, mas propõe fortalecer eleitoralmente o lulismo, ou seja, fica andando em círculos. Reconhece a podridão generalizada do regime, mas evita defender uma política independente dos trabalhadores contra esse regime. Admite os fatos graves envolvendo Moraes, mas imediatamente os relativiza porque Mendonça também estaria comprometido e Bolsonaro poderia se beneficiar.
A conclusão consequente e a atitude esperada de uma esquerda legítima diante do apodrecimento do regime seria a de chamar a classe trabalhadora para enfrentar seus inimigos. Não há motivo para proteger Moraes porque Bolsonaro o ataca.
Não faz sentido ficar falando em escala 6×1 pois isso é claramente a tentativa de criar uma plataforma eleitoral de Lula, que está com a imagem enfraquecida, uma vez que o vinculam a Moraes.
Embora a esquerda oportunista tenha cantado vitória antes do apito final, se depara agora com o fato de que o governo não consegue aprovar a medida porque não se apoia nos trabalhadores e fica dependente de acordos com sua base traidora no Congresso.
O fato nu e cru é que a maioria da esquerda está se afundando junto com Alexandre de Moraes e o STF. A cada dia fica mais clara a falência da esquerda pequeno-burguesa que não tem nada a oferecer para a classe trabalhadora, por isso se apega ao identitarismo, ecossocialismo, defesa das democracia libera.
Estamos assistindo a uma esquerda que se diz revolucionária, mas que age desesperadamente na tentativa de salvar as instituições e uma corte que em toda oportunidade prejudica os trabalhadores, além de ter implementado no País uma verdadeira ditadura.
Quando fica exposta a imensa podridão de um sistema que julga a sociedade, a esquerda oportunista, em vez de gritar para todos que o rei está nu, corre para encobrí-lo.





