A grande imprensa capitalista deslocou o alvo. Durante semanas, as denúncias se concentraram sobre Flávio Bolsonaro, enquanto o PT comemorava o desgaste do adversário. O principal episódio envolvia um telefonema a Daniel Vorcaro para pedir dinheiro destinado ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Vorcaro seria preso pouco depois, acusado de distribuir dinheiro a políticos brasileiros. O caso ocupou as manchetes durante dias.
Agora, as revelações atingem o filho de Lula. As conversas divulgadas envolvem pedidos de dinheiro, contratos e temporadas em hotéis de luxo. Acusações ainda mais politicamente comprometedoras do que aquelas dirigidas a Flávio Bolsonaro.
O PT passou meses explorando denúncias de corrupção contra seus adversários. Ao transformar a honestidade alheia em instrumento eleitoral, entregou à grande imprensa uma arma que agora é usada contra Lula.
A acusação de corrupção, verdadeira ou falsa, funciona no Brasil como instrumento da luta política. Quando aparece um grande escândalo, a primeira pergunta deveria ser contra quem está sendo dirigida a operação.
A Lava Jato mostrou isso com clareza. Boa parte da esquerda embarcou na campanha dos justiceiros e demorou para perceber que Sérgio Moro e Deltan Dallagnol dirigiam uma ofensiva política contra o próprio PT. A lição custou caro e não foi aprendida.
Uma direção política deveria mostrar à população quais interesses estão por trás das denúncias. O PT preferiu explorar as acusações contra o adversário, como se a imprensa capitalista pudesse trabalhar a seu favor sem cobrar o preço depois.
A ofensiva contra Lula ocorre quando a eleição está praticamente empatada. Na disputa passada, os institutos davam ao petista uma vantagem no primeiro turno que quase desapareceu nas urnas. Não há motivo para considerar que o bolsonarismo tenha perdido força desde então. Há, por outro lado, razões para considerar Lula mais fraco do que estava em 2022.
Quatro anos de governo não produziram uma melhora suficiente na vida da população para fortalecer politicamente o PT. A vida continua cara, as famílias estão endividadas e a taxa de juros chegou a 15%. As Casas Bahia fecharam 300 lojas e o centro de São Paulo está cheio de pessoas dormindo nas ruas.
Para quem não consegue pagar o aluguel, a dívida do cartão ou as compras do mês, pouco importa uma estatística favorável apresentada pelo governo. O que pesa é o salário, a conta bancária e o preço das mercadorias.
Diante do desgaste, a campanha petista passou a concentrar seus ataques em Flávio Bolsonaro. O problema é que ninguém vota nele por considerá-lo a pessoa mais honesta do País.
Pesquisa recente mostrou que 30% de seu eleitorado vota principalmente contra Lula. É um voto de rejeição ao governo e à situação existente. Chamar esse eleitor de “gado” ou acrescentar novas acusações contra o candidato não explica por que uma parcela tão grande da população quer tirar o PT do governo.
A pressão simultânea sobre Lula e Flávio Bolsonaro indica, ainda, que a burguesia não fechou completamente a questão em torno de nenhum dos dois. A situação mais conveniente seria desgastar ambos e, se houver condições, abrir espaço para uma terceira candidatura chegar ao segundo turno.
Circula entre setores financeiros a avaliação de que Lula seria mais previsível que Flávio Bolsonaro. Se essa preferência existe, ela está longe de ser uma vantagem para o PT, ao mesmo tempo em que ser considerado o candidato mais seguro pelos grandes especuladores diz muito sobre a política do governo.
O PT perdeu também um argumento importante de 2022. Na eleição passada, conseguiu atrair setores que não apoiavam sua política, mas consideravam necessário votar em Lula para derrotar Bolsonaro.
Quatro anos depois, essa diferença ficou muito menor. É difícil denunciar o neoliberalismo do adversário enquanto representantes do governo se reúnem com Armínio Fraga e outros homens ligados à política econômica de Fernando Henrique Cardoso. Também é difícil apresentar o governo como defensor do patrimônio público depois de cerca de 150 concessões à iniciativa privada e diante da situação dos Correios.
Bolsonaro foi preso, mas o bolsonarismo continua sendo uma das principais forças políticas do País. A polícia, os tribunais e as campanhas de corrupção não deram ao PT a vantagem política esperada.
Enquanto os ataques estavam concentrados sobre Flávio Bolsonaro, o partido aproveitou a situação. Agora, a mesma imprensa voltou suas armas contra Lula.





