Editorial

Lula na coleira

Caso Lulinha aumenta a pressão sobre o presidente enquanto sua campanha oferece ao capital financeiro novas garantias para um eventual segundo mandato

O surgimento de uma série de denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, justamente no início da campanha eleitoral, aprofundou o cerco da burguesia contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Não há elementos suficientes para concluir que o filho do presidente seja culpado ou inocente das irregularidades que lhe são atribuídas. Sua defesa nega que ele tenha cometido qualquer ilícito, e as informações divulgadas até agora não autorizam uma condenação antecipada.

Politicamente, entretanto, já é possível constatar uma coisa: o caso passou a ser usado como uma arma contra Lula.

Nessa sexta-feira (21), o monopólio da imprensa burguesa publicou novas informações sobre uma residência no Lago Sul, em Brasília, frequentada pela lobista Roberta Luchsinger e que, segundo antigos funcionários, também teria sido usada por Lulinha. A defesa do filho do presidente nega que ele tenha morado no imóvel ou participado ali de reuniões irregulares.

O contrato inicial da residência havia sido firmado em nome do dentista Rafael Nicolau Arbex, conhecido de Lulinha e de Fernando Bittar. Arbex também foi testemunha no processo farsa da Lava Jato relacionado ao sítio de Atibaia. Segundo a imobiliária, Roberta participou das tratativas para a locação, embora não constasse como locatária. O proprietário do imóvel não quis prestar esclarecimentos ao jornal, alegando a existência de um compromisso de confidencialidade.

Há, portanto, diversos fatos ainda sujeitos a esclarecimento e versões conflitantes. Isso, porém, não impediu que o assunto passasse imediatamente ao centro da campanha presidencial.

A ofensiva ocorre em um momento bastante conveniente para os adversários de Lula.

Uma publicação de O Globo informou que levantamentos eleitorais reservados, encomendados diariamente por partidos e grandes empresas, principalmente bancos, estariam apontando uma pequena queda do presidente e uma melhora de Flávio Bolsonaro. Pela média desses estudos internos, os dois já apareceriam tecnicamente empatados em um eventual segundo turno.

A própria publicação relaciona a mudança, entre outros fatores, ao desgaste provocado pelas denúncias envolvendo Lulinha e Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola. Lula e o PT, que chegaram ao início da disputa em posição relativamente confortável, passaram à defensiva.

É nesse ponto que o problema deixa de ser simplesmente policial ou judicial e revela seu verdadeiro alcance político.

A burguesia vem procurando, há meses, produzir uma terceira candidatura capaz de quebrar a polarização eleitoral. Sua preferência evidente é não depender nem de Lula nem de um representante do bolsonarismo para controlar o próximo governo.

Até agora, porém, essa tentativa esbarrou na força eleitoral de Flávio Bolsonaro. Ele continua ocupando o espaço de principal adversário do presidente, impedindo que uma candidatura mais diretamente identificada com os grandes capitalistas assuma a segunda posição.

O caso Lulinha surge nesse quadro como uma nova possibilidade de alterar a disputa.

Mesmo que nenhuma das acusações atualmente divulgadas resulte em condenação, sua utilização eleitoral pode produzir efeitos antes que os fatos sejam esclarecidos. É suficiente manter Lula sob desgaste permanente, obrigá-lo a responder diariamente a novas acusações e diminuir sua vantagem eleitoral.

Se isso permitir que uma terceira candidatura chegue ao segundo turno, a burguesia terá conseguido aquilo que até agora não alcançou por outros meios.

Mas esta não é a única utilidade da ofensiva.

Caso Lula permaneça forte o bastante para chegar ao segundo turno e vencer a eleição, o cerco serve para submetê-lo ainda mais às exigências dos grandes capitalistas. O presidente entra na campanha sob pressão crescente e recebe, ao mesmo tempo, a mensagem de que precisa demonstrar sua confiabilidade para os setores que controlam os bancos, as grandes empresas, a imprensa e boa parte das instituições do regime.

Nesse sentido, a coleira já está sendo apertada.

Enquanto as denúncias contra seu filho ocupam diariamente a imprensa, a campanha de Lula procura convencer o capital financeiro de que um novo mandato não representará qualquer ruptura com seus interesses.

O encarregado dessa operação parece ser Dario Durigan, ministro da Fazenda e principal interlocutor econômico da campanha presidencial.

Durigan intensificou os encontros com representantes dos bancos, especuladores e economistas ligados à política econômica neoliberal. Nessas conversas, vem sinalizando que uma eventual reeleição será acompanhada de medidas adicionais de contenção dos gastos públicos com o povo para serem transferidas aos banqueiros.

Em seus primeiros contatos, o ministro chegou a indicar a possibilidade de reduzir o teto para o crescimento anual das despesas previsto pelo chamado arcabouço fiscal. O limite, hoje em 2,5%, poderia cair para algo próximo de 1,5%.

A ideia causou preocupação dentro do próprio PT, já que representaria um aperto ainda maior sobre o Orçamento.

Também circularam informações de que Durigan teria tratado das despesas vinculadas ao salário mínimo. Pessoas próximas ao ministro negaram que houvesse uma proposta concreta nesse sentido, mas o episódio produziu incômodo suficiente para que Lula e Edinho Silva recomendassem maior cautela nas conversas.

A preocupação da direção petista, contudo, não foi abandonar o ajuste. Foi evitar que propostas impopulares fossem apresentadas com detalhes durante a eleição.

Durigan continuou encarregado de transmitir aos capitalistas que um segundo mandato fará um novo esforço fiscal e conterá principalmente as despesas obrigatórias – claro, não o pagamento dos juros da dívida.

A distinção é importante.

Não se está diante de uma campanha que sofre pressão da direita e reage defendendo os interesses dos trabalhadores. A reação da direção petista tem sido procurar demonstrar que pode atender às exigências daqueles que exercem a pressão.

Durigan vem conversando com nomes como Marcos Lisboa e Samuel Pessôa e busca reuniões com Pedro Malan e Armínio Fraga, expoentes da terapia de choque neoliberal.

A aproximação não ocorre isoladamente.

Nas últimas semanas, Lula e o PT têm dado sucessivas demonstrações de adaptação à direita. A busca por novos acordos com o Centrão avança ao mesmo tempo em que diminui o espaço de propostas tradicionalmente associadas à esquerda. Na segurança pública, a campanha procura acomodar-se cada vez mais à política repressiva defendida pelos partidos burgueses. Na economia, multiplica as garantias ao capital financeiro.

A lógica é sempre a mesma: ceder para poder governar. Mas o problema é que cada concessão provoca novas exigências.

A burguesia conhece perfeitamente a força eleitoral de Lula entre os trabalhadores. Sabe também que um governo dirigido por ele pode despertar reivindicações e expectativas que, em determinadas condições, entrem em choque com os interesses dos grandes capitalistas.

Por isso, não basta para esses setores que Lula prometa moderação. É necessário enfraquecê-lo antes da eleição e amarrá-lo previamente a compromissos cada vez mais profundos.

O caso envolvendo seu filho oferece um instrumento particularmente eficaz para isso.

Sua utilidade política não depende de uma decisão judicial definitiva. O efeito pretendido ocorre agora, durante a campanha, quando uma nova denúncia pode significar queda nas pesquisas, desgaste entre aliados e necessidade de conquistar a benevolência de setores poderosos da burguesia.

A escolha que está sendo apresentada a Lula é bastante simples: ou sua candidatura é enfraquecida a ponto de abrir caminho para uma terceira via, ou ele deverá provar que um novo governo será ainda mais obediente às exigências dos grandes capitalistas.

Até aqui, as respostas dadas pela campanha indicam que a segunda alternativa está avançando.

O cerco aumenta e, em vez de combatê-lo mobilizando os trabalhadores, a direção petista oferece garantias aos banqueiros, amplia seus acordos com a direita e abandona progressivamente posições que poderiam entrar em conflito com os interesses da burguesia.

É essa combinação entre pressão e concessão que explica o momento atual da candidatura de Lula.

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