Entrevista

Ao Poder360, Rui denuncia perseguição da PF e apresenta programa socialista

Candidato do PCO denuncia ação da PF e defende estatizações, mobilização popular e ruptura com “Israel”

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, concedeu nesta sexta-feira (21) entrevista ao Poder360, em Brasília. Durante a conversa, denunciou a perseguição promovida pela Polícia Federal contra o Partido e apresentou as principais propostas do programa socialista defendido pelo PCO para as eleições de 2026, passando por economia, direitos democráticos, segurança pública e política internacional.

Antes mesmo de responder à primeira pergunta, sobre a autonomia do Banco Central, Pimenta pediu para falar sobre a operação da Polícia Federal realizada contra ele no último dia 11. O candidato afirmou que a investigação sobre suposto desvio de recursos eleitorais não apresenta qualquer prova de que ele tenha recebido dinheiro irregularmente e denunciou a tentativa de transformar relações perfeitamente legais entre o Partido e prestadores de serviços em indícios de crime.

“É um processo absurdo, é um retrato do que acontece com a Justiça no País. Nós temos aí, nos últimos dez anos pelo menos, muitas pessoas perseguidas, várias das quais nós defendemos publicamente, e eu estou sendo acusado de desvio de verbas do Fundo Eleitoral. Não há nenhuma comprovação de que eu teria recebido nenhum dinheiro desse, no inquérito, absolutamente nenhuma, e todo o inquérito se baseia em suposições. Primeiro, porque as empresas que nós utilizamos eram dirigidas por militantes do PCO, o que não é irregular. Se fosse, nós não teríamos feito. E, num caso específico, o meu genro seria um dos titulares de uma dessas empresas e, segundo eles, isso levantaria uma suspeita. O que também não é proibido. Na realidade, é um procedimento comum de todos os partidos.”

Pimenta lembrou que a PF realizou busca e apreensão em sua residência poucos dias depois do lançamento nacional de sua candidatura. Segundo ele, o órgão também divulgou informações à imprensa para produzir um clima de escândalo em torno do caso.

“Com base em nada, praticamente, nenhum tipo de confirmação de nada, a Polícia Federal fez uma operação na minha casa. Achei um exagero isso, sem falar que eu acho que isso é uma ilegalidade. Colocaram notícia na imprensa, a própria Polícia Federal, e procuraram criar um clima de escândalo.”

O candidato destacou ainda que, entre os postulantes à Presidência, é justamente aquele que possui menos patrimônio, o que, segundo ele, torna ainda mais absurda a acusação.

Contra os poderes do STF

Questionado sobre o Supremo Tribunal Federal, Pimenta afirmou que a crítica do PCO à Corte é muito anterior ao conflito entre o STF e o bolsonarismo. Para o Partido, o problema não se resume à atuação deste ou daquele ministro, mas ao próprio poder concentrado nas mãos de uma instituição cujos integrantes não são eleitos pela população.

“Nós somos críticos do STF há muito tempo. A nossa crítica é muito anterior ao atual conflito entre o STF e o bolsonarismo. Nós temos uma posição doutrinária como partido, que também é antiga, de que não deveria existir um STF com todo esse poder constitucional. Eu acho que deveria haver uma outra forma de controle constitucional, de pessoas eleitas pelo povo, provavelmente de parte do Congresso Nacional. Eu acho que é um abuso flagrante do STF.”

Pimenta citou o mensalão, a Lava Jato, os processos contra Lula e a perseguição judicial contra Jair Bolsonaro como exemplos de arbitrariedades. Também classificou o julgamento dos manifestantes do 8 de Janeiro como uma grave violação dos direitos individuais.

Para o candidato, o problema não seria resolvido apenas pelo impeachment de ministros, mas por uma transformação do próprio sistema de controle constitucional.

Ao ser perguntado sobre Bolsonaro, Pimenta voltou a defender que a decisão sobre quem pode ou não disputar uma eleição deve caber à população.

“Eu acho que quem deve decidir quem são os candidatos é o povo. Ou então a eleição não é soberana. Eu acho que o processo do Bolsonaro está marcado por inúmeras irregularidades, que seriam causa para a nulidade do processo. Eu acho que a inelegibilidade do Bolsonaro é absurda.”

Segundo ele, impedir candidaturas por decisões judiciais constitui uma forma de interferência direta no processo eleitoral. Pimenta citou ainda o caso do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho e lembrou que o PCO já havia se colocado contra a Lei da Ficha Limpa justamente porque ela abriria espaço para arbitrariedades desse tipo.

Contra a autonomia do Banco Central

Na economia, Pimenta se declarou contrário à autonomia do Banco Central. Para ele, tornar a instituição independente significa retirar do poder eleito uma parte fundamental da política econômica.

Ao apresentar o programa do PCO, afirmou que o Brasil atravessa um processo de retrocesso econômico quando comparado com países como China, Índia, Rússia e Irã. Citou a desindustrialização e a situação social do País como resultado de décadas de uma política que transfere recursos públicos ao sistema financeiro.

“O primeiro problema seria combater a dívida pública. A dívida pública é um processo de agiotagem dos bancos contra a nação brasileira, contra o povo brasileiro. E, na nossa opinião, deveria ser ignorada, deveria ser desconhecida pelo governo, de forma que o governo recuperasse capacidade de investimento, tanto na área social como na área econômica. É importante assinalar que esse desenvolvimento deveria ser feito pelo Estado. A iniciativa privada brasileira nunca foi capaz de desenvolver o País. O desenvolvimento brasileiro é obra do Estado e a gente deveria manter isso, recuperar a capacidade de investimento.”

A segunda medida apontada por Pimenta foi o cancelamento das privatizações das principais empresas nacionais. Ele destacou especialmente a Petrobrás e criticou a transferência da renda obtida com o petróleo para acionistas privados.

“É absurdo que, num país como o Brasil, você tenha a Petrobrás dando dinheiro para acionistas particulares”, afirmou.

Para o candidato, o controle estatal das grandes empresas e dos recursos naturais é indispensável para financiar o desenvolvimento econômico e melhorar as condições de vida da população.

Pimenta também defendeu a redução da jornada de trabalho para 35 horas semanais, distribuídas em cinco dias de sete horas, com o fim de semana livre.

Programa socialista

Ao ser questionado sobre o caráter revolucionário do PCO, Pimenta afirmou que a diferença estratégica entre o Partido e o PT está justamente no objetivo socialista. Enquanto o PT procura realizar reformas sociais dentro do capitalismo, o PCO defende uma sociedade em que os grandes meios de produção deixem de ser propriedade privada.

No plano imediato, porém, Pimenta destacou que mesmo as transformações mais elementares exigiriam a mobilização direta da população, e não acordos com o atual Congresso.

“Nós achamos que o povo deve intervir diretamente na política. Não é o povo votar nessa eleição e durante quatro anos não falar mais nada. Nessa hipótese de que nós fôssemos eleitos, nós chamaríamos o povo às ruas, chamaríamos o povo a se organizar, a exercer pressão sobre todas as instituições, a expor aquilo que eles querem. Eu acho que a mobilização popular, a ação do povo, é a única forma realista de mudança no Brasil.”

Para Pimenta, a tentativa de governar por meio de acordos com os partidos do Congresso já demonstrou seus limites tanto nos governos do PT como no governo Bolsonaro. Em sua avaliação, todos acabam subordinados a uma oligarquia política ligada aos grandes interesses econômicos.

Armamento da população

Na segurança pública, Pimenta rejeitou a ampliação dos chamados excludentes de ilicitude para policiais e afirmou que o próprio Estado deve ser o primeiro a cumprir a lei.

O programa apresentado pelo candidato prevê uma transformação completa do sistema policial, com o fim do atual modelo profissional e militarizado. Em seu lugar, o PCO defende uma polícia local, ligada diretamente à população, além do direito ao armamento popular.

“Nós somos favoráveis ao armamento da população. Nós sempre defendemos isso. Nós achamos que é uma proposta democrática e que, se isso existisse, eliminaria muitos problemas, inclusive de segurança pública. Segundo, nós somos favoráveis a uma polícia composta pela própria cidadania, que seja uma polícia local, que seja escolhida pela população e controlada pela população. A polícia profissional organizada em estilo militar é uma polícia desvinculada da população. Então, ela facilmente se transforma num instrumento de arbítrio, de agressão contra a população, como nós vemos no Brasil.”

Pimenta afirmou que o aparato policial atual não protege a maioria da população e destacou a violência dirigida contra os bairros pobres. Para ele, o encarceramento em massa e o aumento da repressão não são capazes de resolver uma criminalidade alimentada pela própria crise social.

Aborto e drogas

Pimenta também defendeu a legalização integral do aborto. Segundo ele, trata-se de uma decisão individual que não pode ser proibida pelo Estado com base em concepções religiosas.

“Nós defendemos a legalização integral do aborto. Primeiro, porque é um problema individual e a proibição é um problema moral. É um problema moral de determinadas pessoas e de determinadas religiões. Mas o Estado deveria, no Brasil, ser um Estado laico, não um Estado religioso. Então, ele não tem por que aprovar leis que atendem a preceitos religiosos. Se a pessoa é religiosa e acha que não deve abortar, é uma opção que ela vai fazer, mas não pode proibir os outros.”

O dirigente destacou, porém, que o centro do programa do PCO para a maternidade é garantir condições materiais para que as mulheres possam ter filhos, com atendimento médico, creches e direitos no local de trabalho.

Sobre as drogas, explicou que o PCO é contrário politicamente ao consumo, mas defende sua legalização por considerar que a proibição produz consequências sociais mais graves, em particular o encarceramento em massa.

Romper com ‘Israel’

Na política internacional, Pimenta afirmou que o Brasil deveria manter relações com todos os países, mas privilegiar a aproximação com a China em detrimento da submissão aos Estados Unidos. Para ele, a relação de Washington com o Brasil é “predatória” e está na origem de diversos problemas econômicos nacionais.

Sobre a Palestina, reafirmou a campanha do PCO pelo rompimento das relações diplomáticas do Brasil com “Israel” diante do genocídio em Gaza.

“Nós temos feito campanha para que o governo brasileiro rompa com ‘Israel’. Uma coisa que eu leio todos os dias é o genocídio em Gaza e ninguém faz nada. Então, eu acho que uma medida elementar de todos os países que se consideram civilizados seria romper relações, quer dizer, forçar ao máximo o fim do genocídio que está sendo cometido em Gaza. Essa seria uma posição que nós já temos, já lutamos por ela, fazemos propaganda por ela.”

Em relação ao Irã, Pimenta afirmou que o PCO está ao lado do país contra os Estados Unidos e denunciou como uma violação da soberania nacional a tentativa de Washington de determinar se os iranianos podem ou não desenvolver tecnologia nuclear.

Sobre a guerra na Ucrânia, reafirmou o apoio à Rússia. Pimenta classificou a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em direção às fronteiras russas como uma política agressiva e considerou a intervenção russa uma medida de autodefesa. Também citou os ataques sofridos pela população de fala e cultura russas do Donbass desde o golpe de Estado de 2014.

Críticas ao governo Lula

Ao diferenciar o PCO do PT, Pimenta afirmou que o programa econômico do governo Lula foi conservador e de características neoliberais. Também criticou especialmente o apoio do governo às medidas antidemocráticas tomadas pelo STF em nome do combate ao bolsonarismo.

“Infelizmente, o governo aderiu a essa onda da censura, aderiu às arbitrariedades do STF. Isso é extremamente problemático. Tudo isso foi feito em nome de combater o bolsonarismo. Sinceramente, eu acho que, primeiro, não é legítimo fazer isso. O País deveria ser regido pelo Estado de Direito. Você não pode, de uma hora para outra, decidir que, porque você tem um inimigo que quer combater de uma maneira extremada, vai violentar o Estado de Direito.”

Pimenta destacou que o próprio PCO e seus dirigentes respondem a diversos processos por manifestações políticas e defendeu a mais ampla liberdade de opinião.

“Ter uma opinião não é crime. Eu sou contra todas as leis que restringem a opinião, todas. ‘Ah, mas você aceitaria que a pessoa tivesse uma opinião racista, homofóbica?’ Opinião é opinião. A opinião deve ser combatida com outra opinião. Se a opinião dele é falsa, você mostra os fatos. Você combate as ideias com ideias. O Estado não deve ter o poder de silenciar o cidadão, o que acontece inúmeras vezes, todos os dias, no Brasil.”

Pimenta rejeitou ainda a ideia de que a polarização entre Lula e o bolsonarismo seja o principal problema político do País. Para ele, os dois campos expressam, de maneiras distintas, um profundo descontentamento popular. O candidato também se colocou contra uma eventual “terceira via”, que identificou com a política tradicional da burguesia representada pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

Ao final, questionado sobre um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, Pimenta afirmou que apoiar o candidato bolsonarista seria incompatível com a política do PCO. Um apoio a Lula seria possível, mas ainda não está decidido. O Partido realizará uma conferência entre os dois turnos para definir sua posição.

“Nós estamos na eleição justamente para apresentar o nosso programa e as soluções que a gente tem para o Brasil”, concluiu.

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