Soberania nacional

Capital estrangeiro avança sobre as terras raras do Brasil

Empresas estrangeiras controlam 42% dos pedidos de exploração e dominam 31 dos 45 projetos mais avançados desses minerais estratégicos

A disputa internacional pelas terras raras colocou o subsolo brasileiro na mira das grandes mineradoras estrangeiras. Empresas sediadas fora do Brasil, ou subsidiárias desses grupos, já controlam 42% dos requerimentos de exploração apresentados no País.

A participação estrangeira é ainda maior entre os empreendimentos próximos da produção comercial. Dos 45 processos mais avançados, 31 pertencem a grupos ligados ao capital externo.

O dado é particularmente importante porque o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo.

São 17 elementos químicos usados na indústria automobilística, eletrônica, médica, aeroespacial, energética e militar. Seu peso aumentou ainda mais com a expansão da produção de equipamentos de alta tecnologia.

A Agência Nacional de Mineração contabilizava 2.727 requerimentos até junho deste ano. Desse total, 86% foram apresentados desde 2023.

A corrida está estreitamente ligada à disputa entre os Estados Unidos e a China.

Pequim possui posição dominante na cadeia mundial de terras raras, desde a extração até o processamento e a fabricação de componentes de alta tecnologia. Depois das restrições chinesas às exportações para os EUA, Washington acelerou a procura por fornecedores alternativos.

O Brasil passou a ocupar uma posição privilegiada nessa ofensiva.

Entre as empresas estrangeiras, as australianas aparecem com 695 requerimentos. Companhias dos Estados Unidos possuem outros 347. Grupos canadenses também figuram entre os principais interessados.

O caso da Serra Verde, em Goiás, mostra que a presença norte-americana já chegou diretamente ao controle da produção.

A empresa é a única produtora comercial de terras raras do Brasil e, neste ano, foi comprada pela norte-americana USA Rare Earth.

Antes da aquisição, Washington já havia colocado dinheiro público no negócio. Em janeiro, o Departamento de Comércio anunciou 1,6 bilhão de dólares em apoio à USA Rare Earth, num acordo que previa participação do governo norte-americano na empresa.

Em fevereiro, o governo Trump anunciou financiamento de 565 milhões de dólares para a Serra Verde.

Dois meses depois, a empresa brasileira foi adquirida por aproximadamente 2,8 bilhões de dólares, cerca de 14 bilhões de reais.

A operação coloca sob controle de uma companhia norte-americana um empreendimento de importância excepcional.

A Serra Verde é a única produtora comercial fora da Ásia capaz de fornecer quatro terras raras magnéticas: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Esses elementos são utilizados em automóveis, equipamentos médicos, eletrônicos, robótica, energia, indústria aeroespacial e armamentos.

O interesse do governo dos Estados Unidos não deixa dúvida sobre o caráter estratégico da operação.

Washington não está apenas observando empresas privadas procurar oportunidades comerciais no Brasil. O próprio Estado norte-americano financia companhias e assume participação acionária para garantir acesso a minerais considerados fundamentais para sua indústria.

Enquanto isso, a riqueza encontra-se em território brasileiro.

O perigo é repetir uma situação conhecida: o País entrega a matéria-prima e os centros imperialistas ficam com as etapas mais avançadas e lucrativas da produção.

A corrida pelas terras raras também ameaça áreas protegidas e comunidades tradicionais.

Um quarto dos requerimentos está sobreposto a unidades de conservação ou territórios de comunidades, ou localizado a até 10 quilômetros dessas regiões.

O levantamento aponta que até 283 áreas protegidas podem ser atingidas pelos projetos, entre terras de índios, territórios quilombolas e unidades de conservação.

Não é apenas o capital norte-americano que tenta se posicionar.

Empresas australianas lideram em número de requerimentos, enquanto grupos canadenses já possuem projetos importantes. A disputa pelo fornecimento de minerais para as grandes potências tende a aumentar conforme cresce seu uso industrial.

É justamente por isso que a questão não pode ser reduzida a saber qual país estrangeiro oferecerá mais dinheiro.

As terras raras são um recurso estratégico para a industrialização brasileira. Entregar as jazidas e depender do exterior para processamento, tecnologia e fabricação significa conservar o País como fornecedor de matérias-primas.

O Brasil possui uma das maiores reservas do planeta. O interesse nacional exige que essa riqueza seja utilizada para desenvolver a própria indústria, e não para garantir o abastecimento dos monopólios estrangeiros.

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