A política de fome imposta por “Israel” à Faixa de Gaza está deixando uma geração de crianças palestinas com consequências que não desaparecerão simplesmente com a entrada de alimentos no território. Meses de privação provocaram desnutrição aguda, atraso no crescimento, problemas nos órgãos e dificuldades no desenvolvimento intelectual.
Um levantamento da Classificação Integrada da Segurança Alimentar estimou anteriormente que 132 mil crianças com menos de cinco anos sofreriam de desnutrição aguda até junho de 2026. Quase 55.500 mulheres grávidas ou que amamentavam também precisariam de assistência nutricional urgente.
A situação melhorou em alguns indicadores depois do cessar-fogo, mas continua gravíssima. A previsão mais recente aponta que mais de 74 mil crianças ainda precisarão de tratamento para desnutrição aguda até abril de 2027. Entre mulheres grávidas e que amamentam, a estimativa chega a 24.600 casos.
Por trás desses números estão crianças como Amira Rashid.
Aos seis anos, ela deveria estar se preparando para entrar na escola. Sua mãe, Aya Rashid, imaginava comprar uniforme, mochila e material escolar. A menina, porém, permanece debilitada em casa e necessita de cuidados médicos constantes.
Amira pesa 12,5 quilos e mede apenas um metro. Os médicos calculam que sua idade óssea corresponde à de uma criança de dois anos.
O quadro começou a preocupar a família ainda antes da declaração oficial de fome em Gaza. Em janeiro de 2025, depois que a menina se queixou de dores no peito, sua mãe procurou o Hospital Infantil Abdel Aziz al-Rantisi.
Os exames constataram desnutrição aguda grave e atraso acentuado no crescimento.
A família permaneceu no norte da Faixa de Gaza durante a ofensiva israelense. Em determinados períodos, não havia farinha disponível e Aya teve de recorrer ao pouco que conseguia encontrar para alimentar os filhos.
A falta de comida atingiu Amira justamente durante uma fase fundamental de seu desenvolvimento. Mesmo depois de retomado algum abastecimento, ela não voltou a crescer normalmente.
Os médicos também identificaram problemas que ultrapassam o peso e a altura. Segundo sua mãe, a menina apresenta atraso intelectual, ainda não lê nem escreve e prefere brincar com crianças muito mais novas.
O caso de Amira mostra por que a fome não pode ser medida apenas pelo número de pessoas que conseguem alguma comida hoje. Uma criança privada de nutrientes durante meses pode carregar as consequências durante muitos anos.
Em Gaza, o problema começa até antes do nascimento.
Amna Abu al-Hasani tem 10 meses. Sua mãe passou fome durante a gravidez e precisou dar à luz prematuramente, no oitavo mês. A bebê nasceu com 1,2 quilo.
Hoje, pesa cerca de 5,5 quilos e sofre de desnutrição aguda grave. Também apresenta problemas no coração, nos rins e nos pulmões. Segundo os médicos, a falta de nutrientes durante a gestação e o baixo peso ao nascer estão diretamente relacionados ao estado de saúde da criança.
Seu pai, Youssef Abu al-Hasani, conseguiu uma indicação médica para tratamento fora da Faixa de Gaza. A família, entretanto, continua esperando pela possibilidade de sair do território.
Esse é outro efeito do cerco.
O sistema de saúde de Gaza foi devastado durante a ofensiva, mas os pacientes que precisam de tratamento no exterior enfrentam enormes dificuldades para viajar. Assim, crianças gravemente doentes ficam presas num território sem os equipamentos e especialistas necessários para atendê-las.
No Hospital al-Rantisi, dezenas de crianças desnutridas chegam diariamente para tratamento. A quantidade de pacientes obrigou a instituição a abrir novas áreas.
O médico Mohammed Abu Rai estima que aproximadamente 18% das crianças que atende apresentem atraso no crescimento.
A entrada limitada de alimentos não basta para recuperar esses pacientes. Crianças com desnutrição grave precisam de alimentação adequada, suplementos específicos, exames e acompanhamento médico.
Frutas e verduras continuam custando caro para grande parte da população. A destruição das criações de animais aumentou a dependência de carne congelada, enquanto os cortes de eletricidade dificultam a conservação dos produtos.
Parte da ajuda ainda permanece durante longos períodos nas passagens antes de chegar aos palestinos.
A política israelense atingiu, assim, muito além daqueles que morreram imediatamente sob as bombas. Crianças que sobreviveram à ofensiva podem ter sua altura, saúde, capacidade de aprendizado e desenvolvimento comprometidos por toda a vida.
Aya conseguiu proteger Amira dos bombardeios. Agora luta para que a filha não morra da fome que “Israel” deixou como herança da guerra.





