O dirigente do Hesbolá Nawaf Moussawi afirmou que o Líbano não poderá recuperar as terras ocupadas por “Israel” por meio de concessões diplomáticas. Em entrevista ao Middle East Eye, publicada na quinta-feira (20), ele defendeu a continuidade da luta armada até que o último soldado israelense deixe o País.
Moussawi dirige o departamento de fronteiras e recursos do Hesbolá e acompanha diretamente os assuntos relacionados a “Israel”. Também participou de negociações durante a guerra de 2006 e das discussões sobre a fronteira marítima. Sua avaliação é baseada, portanto, tanto na experiência militar como no contato direto com negociações envolvendo o Estado sionista.
Para o dirigente, nenhuma força internacional demonstrou até agora disposição para obrigar “Israel” a abandonar o território que ocupa. O governo libanês fantoche iniciou negociações buscando um cessar-fogo permanente e a retirada israelense, mas não conseguiu resultados capazes de alterar a realidade no sul do País.
A situação reforça uma conclusão que marcou toda a história recente do Líbano: a independência nacional diante de “Israel” não foi conquistada por intermédio do imperialismo e de seus lacaios.
Foi o combate do povo libanês, organizado principalmente pelo Hesbolá, que levou à retirada israelense de grande parte do sul em 2000.
Moussawi voltou a esse precedente ao tratar das centenas de milhares de pessoas expulsas de suas casas durante a guerra atual. Na avaliação do dirigente, o retorno da população depende primeiro da recuperação das terras ocupadas. E isso exige enfrentar militarmente as forças israelenses.
O ponto central de sua entrevista é justamente a recusa em aceitar a inversão promovida pela propaganda sionista e pelos Estados Unidos, que apresentam o Hesbolá como causa da guerra enquanto tropas israelenses permanecem dentro do Líbano.
Para Moussawi, o verdadeiro problema é o invasor.
A mesma operação política foi utilizada durante décadas contra os palestinos. Diferentes organizações foram apresentadas, sucessivamente, como obstáculos à paz, embora o elemento permanente fosse a ocupação israelense.
No Líbano ocorre algo semelhante. Caso o Hesbolá desaparecesse, qualquer outra organização disposta a expulsar os soldados israelenses seria tratada da mesma maneira.
A importância do movimento decorre justamente de ter transformado a resistência à ocupação em uma força concreta.
Isso ficou novamente demonstrado depois de 7 de outubro de 2023. No dia seguinte à ofensiva palestina, o Hesbolá abriu uma frente na fronteira libanesa com o objetivo de apoiar a luta em Gaza e obrigar “Israel” a dividir parte de seus recursos militares.
Moussawi confirmou que essa decisão foi tomada conscientemente em solidariedade à resistência palestina. O preço pago foi enorme.
O Hesbolá sofreu perdas graves durante as ofensivas israelenses. Parte significativa de sua antiga direção militar foi martirizada, assim como Hassan Nasseralá, que comandou a organização durante décadas. A inteligência israelense conseguiu penetrar setores do aparelho do movimento, provocando golpes que pareciam, num primeiro momento, capazes de desmontá-lo.
A resistência, porém, não desapareceu.
Segundo Moussawi, uma nova geração de comandantes assumiu posições que antes pertenciam aos dirigentes mortos. Esses quadros não constavam das listas de alvos preparadas anteriormente pelos serviços de inteligência israelenses e passaram a operar em condições diferentes das enfrentadas pela antiga direção.
O Hesbolá também reorganizou setores militares e ampliou o emprego de drones.
É um dado particularmente importante diante da campanha realizada para apresentar o movimento como uma força derrotada.
Depois do assassinato de parte de sua direção, “Israel” esperava encontrar uma organização paralisada. Em vez disso, deparou-se com combatentes capazes de reconstruir a estrutura militar em plena guerra.
Moussawi resumiu a mudança afirmando que os israelenses agora enfrentam uma geração que não conhecem.
Essa capacidade de recomposição não pode ser explicada apenas por uma estrutura militar. Ela revela a ligação profunda entre o Hesbolá e uma parcela decisiva da população libanesa, sobretudo no sul do País, onde a ocupação e os ataques israelenses são uma experiência direta.
Desde março, milhares de libaneses foram mortos e cerca de meio milhão tiveram de abandonar suas casas. Localidades inteiras foram atingidas ou destruídas pela barbárie sionista.
Mesmo nessas condições, o movimento não aceitou entregar suas armas. É precisamente nesse momento que Washington e Telavive aumentam a pressão pelo desarmamento.
O primeiro-ministro entreguista Nawaf Salam proibiu atividades militares do Hesbolá depois da retomada dos combates, enquanto Estados Unidos e “Israel” pressionam o Estado libanês a impor o monopólio das armas.
A exigência significa, na prática, retirar os meios de defesa daqueles que combatem a invasão antes que “Israel” tenha abandonado o território ocupado.
Moussawi também alertou para o perigo de que essa política provoque um confronto interno.
A pressão norte-americana procura fazer com que a disputa deixe de ser entre o Líbano e o ocupante israelense e se transforme em conflito entre os próprios libaneses. Nesse cenário, o Exército seria empurrado contra o Hesbolá enquanto as tropas estrangeiras continuariam dentro do país.
O dirigente rejeitou essa perspectiva e destacou que as Forças Armadas libanesas são compostas pelo próprio povo, que conhece diretamente as consequências da invasão.
A crítica se estende à política seguida pelo presidente Joseph Aoun, uma marionete do sionismo.
Para Moussawi, Aoun entrou nas negociações com “Israel” sem utilizar a principal fonte de pressão disponível ao Líbano: a capacidade militar da resistência.
Em vez de coordenar-se com o Hesbolá para impor condições ao invasor, o governo aproximou-se das exigências norte-americanas e entrou em choque com o movimento.
Até agora, a política não trouxe a retirada das tropas.
As autoridades libanesas fizeram concessões, mas não obtiveram sequer a interrupção da destruição em diversas localidades do sul.
É nesse ponto que a experiência acumulada pelo Hesbolá se contrapõe diretamente à orientação adotada pelo governo.
O movimento nasceu e cresceu enfrentando uma ocupação militar muito superior em armamentos e recursos. Apesar dessa desigualdade, conseguiu impor a retirada israelense em 2000 e sobreviveu a sucessivas guerras destinadas a destruí-lo.
A bravura demonstrada novamente na guerra atual explica por que o Hesbolá continua sendo a principal força organizada da luta pela independência libanesa diante do Estado sionista.
Nem os assassinatos de seus dirigentes, nem a devastação do sul, nem a pressão dos Estados Unidos foram suficientes para obrigar a organização a abandonar as armas enquanto soldados israelenses permanecem no país.
Para Moussawi, o resultado das negociações conduzidas por Aoun apenas confirma a experiência de décadas do povo libanês: “Israel” não deixa as terras ocupadas porque lhe fazem concessões, mas quando sua permanência se torna impossível diante da resistência.





