Oriente Médio

‘Israel’ planeja ataque militar contra alvos turcos na Síria

Planos israelenses para um eventual ataque a tropas turcas na Síria mostram que o choque entre Ancara e o Estado sionista entrou em uma nova fase

A crescente tensão entre Turquia e “Israel” ganhou um novo capítulo com a revelação de que estrategistas israelenses estudam a possibilidade de atacar forças turcas instaladas na Síria sem provocar uma resposta militar automática da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da qual a Turquia é membro.

Segundo o jornal israelense Israel Hayom, a avaliação em Telavive é de que militares turcos destacados para território sírio não estariam necessariamente protegidos pelas garantias de defesa coletiva da OTAN. O cálculo israelense é de que os demais integrantes da aliança não entrariam automaticamente em um conflito caso tropas da Turquia fossem atingidas na Síria.

A informação aparece em meio ao agravamento das divergências em torno da base aérea de Abu al-Duhur. O gabinete do carniceiro Benjamin Netaniahu acusa o governo sírio de caminhar para uma violação dos entendimentos de segurança com “Israel” ao admitir a instalação de militares turcos na base.

O episódio mostra até que ponto se deterioraram as relações entre Ancara e o Estado sionista. A discussão já não se limita a declarações diplomáticas ou divergências sobre a guerra na Faixa de Gaza. O governo israelense passou a considerar concretamente as consequências de uma ação militar contra soldados turcos.

Essa evolução precisa ser compreendida como parte das mudanças provocadas no Oriente Médio desde 7 de outubro de 2023.

A ofensiva palestina alterou uma relação de forças que durante anos pareceu relativamente controlada. Governos e organizações que se encontravam acomodados dentro de uma determinada ordem regional passaram a agir diante de uma crise que se espalhou muito além da Faixa de Gaza.

A Síria é um dos principais exemplos dessa transformação.

A derrubada do governo nacionalista de Bashar al-Assad pelo imperialismo não resultou na estabilização do País. Pelo contrário. O território sírio permaneceu dividido entre diferentes forças e sob presença militar estrangeira. “Israel” aproveitou a queda do antigo governo para ampliar suas posições, enquanto os Estados Unidos conservaram tropas no País e seus fantoches curdos mantiveram áreas sob seu controle.

A Turquia também procurou tirar proveito da nova configuração.

Ancara mantém forte influência sobre o atual governo de Damasco e pretende transformar essa proximidade em um aumento de seu peso político e militar na Síria. É justamente aí que aparece o problema para o imperialismo e para “Israel”.

O governo turco é de direita, integra a OTAN e colaborou durante anos com a política imperialista contra a Síria. Nada disso elimina, entretanto, os interesses próprios da Turquia como potência regional.

Se Ancara conseguir colocar o novo governo sírio definitivamente sob sua influência e estabelecer uma presença militar mais ampla no país, passará a ocupar uma posição muito mais importante no Oriente Médio. Tal fortalecimento altera o equilíbrio regional e entra em choque com os planos israelenses para a Síria.

Essa é a importância da controvérsia sobre Abu al-Duhur.

Uma base militar turca em território sírio não representa apenas uma instalação a mais. Ela seria uma demonstração concreta de que Ancara está consolidando sua presença no País justamente no momento em que “Israel” procura aproveitar o enfraquecimento do Estado sírio para agir com maior liberdade.

Os interesses dos dois governos passaram, portanto, a se chocar diretamente.

A Turquia pretende aumentar sua influência sobre Damasco. “Israel”, por sua vez, não quer assistir ao surgimento de uma presença turca capaz de impor limites às suas interferências na soberania nacional da Síria ou modificar profundamente a relação de forças criada após a queda de Assad.

A própria política seguida pelo imperialismo contribuiu para produzir esse resultado.

Durante anos, Estados Unidos, Turquia e “Israel” atuaram, cada qual segundo seus interesses, contra o governo sírio. Com a derrubada de Assad, desapareceram também parte das condições que mantinham esses interesses reunidos contra um inimigo comum.

Abriu-se então uma disputa pelo espaço deixado pela destruição do antigo Estado sírio.

É isso que ajuda a explicar por que um governo turco aliado dos Estados Unidos e integrante da OTAN pode agora aparecer nos cálculos militares israelenses como um possível alvo.

O imperialismo não pretende permitir que a Turquia se transforme na força predominante sobre uma área tão importante do Oriente Médio. O fortalecimento de Ancara desequilibraria uma região na qual os Estados Unidos procuram preservar a superioridade israelense.

A nova ameaça israelense é uma manifestação desse problema.

Ao examinar previamente se a OTAN reagiria a um ataque contra forças turcas fora das fronteiras nacionais, os responsáveis pela política militar israelense demonstram que a hipótese de um choque deixou de ser apenas teórica.

Isso não quer dizer que uma guerra entre os dois países esteja decidida. O que mudou é que um confronto dessa natureza passou a ser considerado dentro dos cálculos políticos e militares da região.

Poucos anos atrás, uma guerra direta entre Turquia e “Israel” pareceria uma perspectiva extremamente distante. Ambos mantinham relações importantes com Washington e estavam integrados, de formas diferentes, ao sistema montado pelo imperialismo no Oriente Médio.

Depois de 7 de outubro, essa ordem começou a se desfazer.

O Iêmen passou a desempenhar um papel militar muito maior do que possuía anteriormente, inclusive com operações contra embarcações relacionadas ao Estado sionista. O Irã demonstrou capacidade de atingir diretamente “Israel”. O Hesbolá resistiu à ofensiva israelense e continuou sendo uma força decisiva no Líbano.

A Síria, por sua vez, tornou-se cenário de uma disputa entre forças que anteriormente haviam participado, direta ou indiretamente, da campanha contra Assad.

A Turquia é uma dessas forças.

O governo de Recep Tayyip Erdogan sempre procurou ampliar a influência turca sobre o território sírio e impedir o fortalecimento das organizações curdas apoiadas pelos Estados Unidos. Com a queda do antigo governo, Ancara ganhou novas possibilidades para levar adiante seus objetivos.

O problema é que sua expansão encontra agora a oposição de “Israel”.

Para o Estado sionista, interessa uma Síria fraca, fragmentada e incapaz de oferecer resistência às suas operações. Uma presença turca consolidada pode impedir que essa condição permaneça indefinidamente.

Daí a gravidade da atual crise.

A ameaça relacionada a Abu al-Duhur revela que a luta pela Síria entrou em outra etapa. Já não se trata simplesmente de decidir quem governará em Damasco, mas de qual potência terá condições de exercer maior influência sobre o País e quais limites serão impostos à ocupação e aos ataques israelenses.

A revolução palestina iniciada em outubro de 2023 abriu uma crise que se espalhou por todo o Oriente Médio e desorganizou acordos que pareciam sólidos. A ofensiva israelense que se seguiu não conseguiu recompor a antiga ordem. Ao contrário, colocou em movimento forças com interesses próprios, inclusive governos que mantêm relações estreitas com os Estados Unidos.

O atrito entre Turquia e “Israel” é uma das consequências desse processo.

A revelação de que Telavive já estuda as implicações de atacar tropas turcas na Síria mostra que a tensão deixou para trás a simples troca de ameaças. Mesmo sem tornar inevitável um enfrentamento, o cálculo israelense indica até onde avançou a disputa pela reorganização da Síria e do Oriente Médio depois de 7 de outubro.

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