Resistência iemenita

Regime fantoche que ocupa parte do Iêmen apoia agressão saudita

Forças de Áden lançaram 81 ataques contra o Ansar Alá em 24 horas, enquanto a resistência respondeu atingindo alvos estratégicos em território saudita

A escalada entre o Iêmen e a Arábia Saudita ganhou um novo capítulo na quinta-feira (20). Enquanto forças subordinadas ao governo instalado em Áden intensificavam os ataques contra posições do Ansar Alá, as Forças Armadas iemenitas responderam com operações de drones contra o aeroporto de Najrã e uma instalação da petrolífera Aramco, no sul da Arábia Saudita.

O porta-voz das forças de Áden, Majed Abdullah al-Nuzaili, anunciou 81 ataques em apenas 24 horas. Já o brigadeiro-general Yahya Saree informou que as duas operações realizadas contra Najrã atingiram os objetivos estabelecidos.

A intensidade dos combates mostra que a relativa paralisação das principais frentes desde a trégua de 2022 está se desfazendo. Nas últimas semanas, ataques com drones, mísseis e artilharia voltaram a ocorrer ao longo de diferentes pontos do país, enquanto as forças sediadas em Áden anunciaram centenas de operações contra o Ansar Alá.

A participação do governo de Áden nessa ofensiva não é um detalhe secundário. Trata-se do mesmo aparato político que há mais de uma década depende da Arábia Saudita e das potências imperialistas para manter sua presença em parte do território iemenita.

Em vez de enfrentar a interferência estrangeira, suas forças voltam-se contra os próprios iemenitas que resistiram à invasão saudita.

Esse papel ficou estabelecido desde 2015, quando Riad organizou uma coalizão militar para tentar recolocar no poder um governo aliado depois que o Ansar Alá assumiu o controle de Saná. A campanha contou com apoio político, militar e logístico dos Estados Unidos e de outras potências imperialistas.

A enorme superioridade material da coalizão não foi suficiente.

Durante anos, o Iêmen sofreu bombardeios, bloqueio econômico e destruição de sua infraestrutura. Mesmo assim, os sauditas não conseguiram conquistar Saná nem destruir o Ansar Alá. O movimento saiu do conflito não apenas preservado, mas muito mais preparado militarmente.

A diferença pode ser observada na própria situação atual.

No início da guerra, a Arábia Saudita dispunha de modernos aviões de combate e armamentos fornecidos pelo imperialismo, enquanto os iemenitas possuíam meios muito mais limitados para responder. Hoje, aeroportos, instalações petrolíferas, navios e outras posições estratégicas sauditas podem ser alcançados pelos drones e mísseis desenvolvidos durante anos de combate.

Os ataques a Najrã são mais uma demonstração dessa mudança.

A cidade está próxima da fronteira, mas os alvos escolhidos possuem importância econômica e militar evidente. A Aramco é uma das principais empresas petrolíferas do mundo, e seus complexos já foram atingidos anteriormente durante a guerra.

A mensagem do Ansar Alá é clara: qualquer tentativa de retomar a agressão em grande escala poderá levar novamente a guerra para dentro da própria Arábia Saudita.

Essa capacidade de impor custos ao agressor foi justamente um dos fatores que obrigaram Riad a aceitar a trégua de 2022.

Agora, porém, o aumento das provocações sauditas e a movimentação das forças de Áden ameaçam levar o conflito novamente a uma fase aberta.

O governo instalado no sul desempenha papel decisivo nessa manobra. Embora seja apresentado pela imprensa imperialista como representante legítimo do Iêmen, sua sobrevivência política depende diretamente de potências estrangeiras que tentaram decidir pela força quem deveria governar o país.

É, portanto, um regime fantoche que não tem o apoio da maioria da população – esta está com o Ansar Alá.

A atual ofensiva do governo fantoche demonstra que continua cumprindo a mesma função de dez anos atrás: fornecer uma força iemenita para uma política decidida fora do Iêmen.

Enquanto Riad pressiona Saná, as tropas de Áden atacam o Ansar Alá por dentro.

Essa divisão foi fundamental para prolongar a guerra e destruir o país. Também permite às potências estrangeiras apresentar o conflito como uma mera guerra civil, escondendo a intervenção saudita que esteve na origem da devastação.

A situação humanitária continua sendo uma das mais graves do mundo. Segundo dados citados pela Al Jazeera, aproximadamente 18 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar.

Essa tragédia não pode ser separada dos anos de bombardeios e bloqueio impostos ao país.

A resistência do Ansar Alá tornou-se ainda mais importante nos últimos anos porque ultrapassou as próprias fronteiras iemenitas. Desde o início da ofensiva israelense contra Gaza, o movimento colocou sua capacidade militar a serviço da solidariedade ao povo palestino, atacando navios relacionados ao Estado sionista e enfrentando diretamente forças norte-americanas, britânicas e israelenses.

Nem os sucessivos bombardeios dessas potências conseguiram fazê-lo recuar.

O mesmo movimento que resistiu à coalizão saudita passou a desempenhar papel central na luta contra “Israel” no mar Vermelho.

É essa força que Riad e seus aliados internos procuram novamente atingir.

A ofensiva atual, portanto, não pode ser tratada como uma simples troca de ataques entre facções rivais. O que está em jogo é uma nova tentativa de enfraquecer a principal organização que impediu a submissão do Iêmen à Arábia Saudita e ao imperialismo.

A história da guerra, porém, não é favorável aos agressores.

Durante mais de uma década, o Ansar Alá combateu inimigos muito mais ricos e armados. Perdeu dirigentes, sofreu bombardeios constantes e enfrentou um bloqueio que atingiu toda a população. Ainda assim, não entregou Saná e não permitiu que a Arábia Saudita impusesse seu governo ao país.

Hoje possui recursos militares muito superiores aos que tinha em 2015.

É por isso que a nova escalada apresenta riscos também para Riad. Se a direção saudita imaginar que pode reabrir a guerra sem consequências para seu próprio território, os ataques contra Najrã oferecem uma primeira resposta.

A atuação das forças de Áden, por sua vez, deixa ainda mais evidente sua condição política. Em vez de defender a soberania iemenita contra uma potência estrangeira, colaboram com ela para atacar os setores que combateram a invasão.

A resistência demonstrada pelo Ansar Alá durante todos esses anos é justamente o que impediu que o Iêmen fosse transformado definitivamente em um protetorado saudita.

A retomada dos ataques mostra que essa luta está longe de terminar. Mostra também que, caso Riad decida aprofundar novamente sua agressão, encontrará pela frente um Iêmen muito mais capaz de responder do que aquele que tentou esmagar em 2015.

 

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