A operação da Polícia Filial contra o Partido da Causa Operária expôs também a falência política dos grupos que se apresentam como a esquerda “radical” brasileira.
UP, PSTU e PCB, assim como setores do PSOL que procuram se apresentar como revolucionários, entre eles Jones Manoel, não denunciaram a perseguição desencadeada contra o PCO e seu presidente, Rui Costa Pimenta.
A atitude é escandalosa. Não é preciso ser comunista, socialista ou sequer de esquerda para condenar uma ação arbitrária da polícia contra um partido político. Para organizações que se dizem revolucionárias, a obrigação deveria ser ainda mais evidente.
A polícia é o principal instrumento de repressão do Estado capitalista. É utilizada contra greves, manifestações, ocupações e movimentos populares sempre que estes entram em choque com os interesses da burguesia. A Polícia Filial, além disso, como indica este carinhoso apelido dado pelo DCO, não passa de um tentáculo dos aparelhos de segurança dos Estados Unidos e de outros países imperialistas, nomeadamente da CIA, do FBI e do Mossad no Brasil.
É justamente esse órgão que foi lançado contra um pequeno partido de esquerda.
Diante disso, a chamada esquerda “radical” preferiu o silêncio.
O principal subterfúgio utilizado para justificar essa posição é a afirmação fantasiosa de que o PCO não seria de esquerda. Trata-se de uma tentativa de eliminar o problema por meio de um rótulo: se o partido puder ser apresentado como uma organização de direita, então sua perseguição deixaria de merecer solidariedade.
O argumento é falso desde a premissa.
O PCO é uma organização pequena, mas intervém nas principais lutas políticas do País com seus militantes e procura organizar os trabalhadores em torno delas. Esteve na linha de frente do combateu ao golpe de Estado de 2016 (que a esquerda “radical” apoiou), da campanha contra a prisão de Lula, das mobilizações pelo Fora Bolsonaro e colocou a luta contra o genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza entre suas principais atividades.
Pode-se discordar de qualquer posição do partido, embora isso seja estranho para quem se diz marxista – justamente porque sequer estudaram o ABC do marxismo. Mas mesmo que o PCO tivesse sérios desvios políticos e ideológicos, isso não alteraria seu caráter de organização militante ligada às lutas populares.
Mas nem mesmo seria necessário discutir esse ponto para condenar a operação policial.
Suponhamos, apenas para demonstrar a inconsistência da desculpa, que o PCO fosse de direita. A atuação arbitrária da polícia continuaria precisando ser denunciada.
As liberdades democráticas não podem ser defendidas apenas para aliados e amigos. Se o Estado utiliza seus instrumentos de força de maneira arbitrária contra um adversário político, aceitar essa arbitrariedade significa fortalecer um mecanismo que serve, fundamental e inevitavelmente, para reprimir as organizações dos trabalhadores.
Uma política revolucionária não pode depender de quem está sofrendo a repressão.
É precisamente nesse ponto que a postura da UP, do PSTU, do PCB e desses setores “radicais” do PSOL assume um caráter abertamente contrarrevolucionário.
Não se trata simplesmente de esquecer uma nota de solidariedade. Esses agrupamentos mantêm uma campanha política permanente contra o PCO. Seus integrantes difundem ataques e calúnias contra o partido e procuram apresentá-lo como uma força estranha à esquerda, embora a política do PCO seja a política tradicionalmente defendida pela esquerda internacional. Quando a hostilidade política é seguida por uma operação policial e eles permanecem calados, a omissão adquire um significado preciso.
Na prática, estão dando cobertura à repressão.
A situação é simples. De um lado, há um partido político pequeno, organizado pela atividade de seus militantes. Do outro, uma poderosa instituição policial do Estado. Nesse conflito concreto, aqueles que se proclamam a esquerda mais consequente do País não dirigiram sua denúncia contra a polícia.
A conduta revela uma adaptação profunda às instituições do regime.
Uma organização revolucionária deveria ensinar os trabalhadores a não depositar confiança no aparelho estatal dos capitalistas. Esses setores demonstram o contrário: quando a força do Estado se volta contra um adversário político seu, passam a tratá-la como um problema secundário ou mesmo como algo aceitável.
Essa política não apareceu de repente.
Há muito tempo, parcelas dessa esquerda transformam-se cada vez mais num apêndice da burocracia estatal e de organizações financiadas por fundações e ONGs imperialistas. Por trás da linguagem radical, sua política concreta torna-se progressivamente compatível com campanhas promovidas pelos próprios setores da burguesia que afirmam combater.
A perseguição contra o PCO oferece uma demonstração particularmente clara desse processo.
Uma esquerda independente da burguesia jamais poderia tratar com indiferença uma ofensiva policial contra uma organização política. Muito menos utilizar divergências com essa organização como desculpa para não enfrentar a repressão.
A atitude desses grupos é ainda mais grave porque a Polícia Filial não está atacando uma grande organização sustentada por banqueiros ou grandes empresários. Seu alvo é um pequeno (mas influente) partido que depende fundamentalmente da atividade de seus militantes e que participa regularmente das mobilizações políticas dos trabalhadores.
O princípio em jogo, portanto, é elementar.
A polícia não se torna progressista porque resolveu perseguir alguém de quem determinada corrente de esquerda não gosta.
O aparato de repressão da burguesia continua sendo o mesmo, qualquer que seja o alvo do momento. Uma organização que aceita seus abusos quando dirigidos contra quem não concorda ajuda a fortalecer os instrumentos que servem essencialmente para esmagar grevistas, manifestantes e militantes operários.
Por isso, a posição desses setores não pode ser reduzida a sectarismo.
O sectarismo explicaria a recusa em realizar atividades comuns com o PCO ou as constantes polêmicas contra o partido. Não explica permanecer calado quando a polícia intervém diretamente contra uma organização política.
Nesse caso, a fronteira foi ultrapassada.
UP, PSTU, PCB e setores do PSOL que se apresentam como a ala mais radical da esquerda brasileira tiveram diante de si uma questão concreta: de um lado, uma organização dos trabalhadores; de outro, a polícia do Estado capitalista.
Poderiam denunciar a operação sem abandonar uma única divergência com o PCO.
Não fizeram isso.
Toda a fraseologia revolucionária vale muito pouco diante de uma prova desse tipo. Quando chegou o momento de enfrentar uma ação repressiva do Estado contra uma organização popular, esses setores preferiram preservar sua hostilidade ao PCO e deixar a polícia agir sem oposição. Fizeram o mesmo quando o alvo foram Lula e os petistas.
É uma política que não apenas abandona a defesa das liberdades democráticas. Ela coloca essa falsa esquerda, objetivamente, no campo da repressão promovida pela burguesia e pelo imperialismo.





