Há lugares que parecem concentrar diferentes momentos da História. A cidade de Odessa, nas margens do Mar Negro e hoje parte da Ucrânia, é um deles. Em 1905, seu porto recebeu os marinheiros amotinados do encouraçado Potemkin, em meio à primeira grande crise revolucionária do Império Russo. Vinte anos depois, Sergei Eisenstein transformou o episódio em uma das obras fundamentais do cinema soviético e mundial. Hoje, mais de um século depois, o mesmo porto volta a ocupar uma posição estratégica, desta vez em uma guerra por procuração entre Rússia e Ucrânia que envolve diretamente a estrutura militar, financeira e logística das potências da OTAN.
A importância de Odessa decorre da posição geográfica que ocupa no Mar Negro, ligando o território às grandes rotas comerciais e militares da região. No filme de Eisenstein, o porto é cenário do encontro entre os marinheiros revoltosos e a população da cidade. Na guerra atual, é uma das principais conexões da Ucrânia com o comércio internacional e, ao mesmo tempo, parte da infraestrutura logística do país.
O motim do Potemkin ocorreu em junho de 1905, quando o Império Russo atravessava uma profunda crise política e social. A derrota diante do Japão (Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905) agravara o desgaste do regime czarista, enquanto greves, manifestações e revoltas camponesas se espalhavam pelo país. O Domingo Sangrento, ocorrido em janeiro, havia abalado o regime e dado impulso ao processo revolucionário.
Foi nesse contexto que os marinheiros do navio de guerra Príncipe Potemkin-Tavrichesky (batizado em homenagem ao marechal russo que governou a região na época da Revolução Francesa), da Frota do Mar Negro, se rebelaram contra seus oficiais. O estopim tornou-se célebre: a recusa em comer carne deteriorada e infestada de larvas. A carne funcionou como detonador de contradições acumuladas pela brutal disciplina militar, pelas péssimas condições de vida e, sobretudo, pela situação revolucionária que já existia fora do navio.
O Potemkin seguiu para Odessa, onde trabalhadores estavam em greve e ocorriam enfrentamentos com as forças do czar. O motim não conseguiu provocar uma insurreição generalizada na Frota do Mar Negro e terminou com a entrega do navio às autoridades romenas. A Revolução de 1905 também foi derrotada, mas serviu como aquilo que Lenin posteriormente chamou de ensaio geral para 1917.
É esse significado histórico que Eisenstein recupera em O Encouraçado Potemkin, realizado em 1925. Mais do que reconstituir um motim naval, o cineasta transforma o episódio numa representação do próprio processo revolucionário. Para isso, utiliza, de maneira exemplar, a formulação estética que se tornaria inseparável de seu nome: a montagem.
Para Eisenstein, a montagem não servia apenas para garantir a continuidade de uma ação. A justaposição de dois planos poderia produzir um terceiro significado que não estava contido inteiramente em nenhum deles. O cinema deveria organizar os materiais da realidade para produzir consciência de classe.
A famosa sequência da escadaria de Odessa é provavelmente o exemplo mais conhecido desse procedimento. Eisenstein alterna a multidão, as botas dos soldados, os fuzis, rostos aterrorizados, crianças, corpos caindo e o célebre carrinho de bebê descendo os degraus. A população é composta por indivíduos diferentes, enquanto a tropa czarista é transformada pela montagem numa máquina repressiva feita de pernas, armas e movimentos sincronizados. O conflito não acontece apenas entre personagens, mas na própria forma do filme.
Também não há um herói individual no sentido convencional. O verdadeiro protagonista é coletivo: os marinheiros, os trabalhadores, a população de Odessa. Até os famosos planos dos três leões de pedra, filmados em posições diferentes, produzem, pela montagem, a impressão de que o animal se levanta. A pedra desperta como metáfora do próprio povo.
O massacre da escadaria não aconteceu exatamente da maneira mostrada no filme. Houve repressão, distúrbios e mortes em Odessa durante os acontecimentos de 1905, mas Eisenstein reorganizou diferentes episódios para produzir a sequência. Sua intenção não era construir uma reprodução documental, mas revelar cinematograficamente aquilo que considerava a lógica histórica da repressão e da revolução. A imagem criada pelo filme acabou se tornando mais conhecida do que o acontecimento real.
Atualmente, Odessa, Chornomorsk e Pivdennyi formam um complexo portuário fundamental para o comércio exterior ucraniano, particularmente para as exportações agrícolas. Nas últimas semanas, a Rússia intensificou os ataques contra portos, terminais e embarcações no Mar Negro.
É aqui que retornar a Eisenstein deixa de ser apenas um exercício de análise. Em O Encouraçado Potemkin, o porto é justamente o lugar em que uma revolta ocorrida dentro de uma estrutura militar encontra as forças sociais que existem fora dela. O corpo do marinheiro Vakulinchuk é exposto, a população se aproxima, trabalhadores levam alimentos aos revoltosos e o motim começa a adquirir o sentido de uma insurreição popular.
Mais de cem anos depois, Odessa continua cumprindo uma função de ligação, embora dentro de uma configuração histórica completamente diferente. O Império Russo desapareceu, a Revolução de Outubro criou a União Soviética, a URSS se desintegrou em 1991 e Rússia e Ucrânia tornaram-se Estados diferentes.
Novamente, o mesmo cenário torna-se uma encruzilhada. O cinema de Eisenstein ensina que uma imagem isolada explica pouco. É no conflito entre as imagens, na forma do filme, que as forças históricas produzem sentido. Nosso próprio momento histórico nos convida a visitar a escadaria de Odessa e a buscar, nos conflitos produzidos por um sistema econômico falido, no qual somos obrigados a viver, as forças capazes de superá-los definitivamente.





