As Casas Bahia chegaram a uma dívida de R$17,3 bilhões, registraram prejuízo líquido de R$10,1 bilhões no segundo trimestre e entraram com pedido de recuperação judicial. Ao mesmo tempo, a direção da empresa decidiu fechar 298 lojas e demitir cerca de 3.000 trabalhadores apenas em agosto.
Os cortes atingiram aproximadamente 10% dos 30.117 empregados que o grupo possuía no fim de junho. E não foram apresentados pela empresa como um efeito imprevisto da crise. Na própria petição da recuperação judicial, as demissões aparecem entre as medidas tomadas para diminuir despesas e tentar reorganizar as finanças.
A conta da administração desastrosa foi apresentada aos empregados.
Enquanto isso, para a própria empresa, existe outro tratamento. A recuperação judicial permite pedir proteção contra cobranças, suspender execuções e ganhar tempo para negociar uma dívida bilionária. O grupo pretende continuar funcionando enquanto reorganiza seu passivo e procura uma saída para a crise.
Para o trabalhador mandado embora, não existe proteção semelhante.
Sua conta de luz não é suspensa porque perdeu o emprego. O aluguel continua vencendo. As parcelas do financiamento continuam sendo cobradas. Os juros do cartão não deixam de correr. O supermercado não concede 180 dias para que a família reorganize suas finanças.
Essa diferença resume muito bem a política do Estado diante das dívidas dos capitalistas e do povo pobre.
Quando uma grande empresa deve R$17,3 bilhões, mobilizam-se tribunais, bancos, escritórios de advocacia e instrumentos jurídicos para garantir condições para sua recuperação. Quando um trabalhador está afundado em dívidas porque o salário não acompanha o custo de vida, o problema é tratado como se fosse exclusivamente dele.
As Casas Bahia dispõem de proteção para tentar salvar seus negócios. Os 3.000 funcionários escolhidos para pagar pela crise perderam justamente aquilo que lhes permitia pagar suas próprias dívidas: o salário.
E não faltam motivos para questionar a competência daqueles que administraram a companhia.
Em 2024, o grupo já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial. Agora aparece novamente diante de uma crise financeira, desta vez com R$17,3 bilhões em dívidas. Somente entre abril e junho, o prejuízo líquido alcançou R$10,1 bilhões, contra R$555 milhões no mesmo período do ano passado.
Os trabalhadores não tomaram nenhuma das decisões que levaram a esse resultado.
Não escolheram a política financeira da companhia. Não contrataram os empréstimos. Não definiram os investimentos. Não controlaram a administração nem decidiram as sucessivas tentativas de reestruturação. Mas perderam o emprego.
É assim que funciona a propriedade capitalista. Enquanto há lucro, ele pertence aos proprietários. Quando a administração fracassa, os trabalhadores são totalmente sacrificados.
A própria expressão utilizada pelas empresas ajuda a esconder essa realidade. Demitir milhares de pessoas vira “redução de custos”. Fechar centenas de lojas torna-se “enxugamento da estrutura”. Tirar o sustento de famílias inteiras aparece como uma medida de “reestruturação”.
Para quem perdeu o emprego, não há nada de abstrato nisso.
Funcionários com muitos anos de empresa foram às redes sociais relatar a dispensa. Um deles, depois de 21 anos nas Casas Bahia, lembrou que foi dali que retirou o sustento para criar os filhos. Outros empregados publicaram despedidas depois de sete, 14 ou mais anos de serviço.
O capitalista enxerga uma despesa a ser cortada. O trabalhador perde a fonte de renda de sua família.
A Justiça do Trabalho suspendeu provisoriamente as demissões realizadas entre os dias 13 e 17 de agosto e determinou o restabelecimento dos vínculos e benefícios dos atingidos. Também estabeleceu que novas dispensas coletivas não poderão ser realizadas sem participação prévia dos sindicatos.
A medida constitui uma barreira relativa às demissões, mas está longe de resolver o problema. As 298 lojas fechadas não terão de ser reabertas, a decisão é provisória e não impede definitivamente que a empresa volte a dispensar trabalhadores.
A pergunta fundamental continua, portanto, sem resposta: quem deve pagar pela crise?
Para o Partido da Causa Operária (PCO), certamente não são os empregados.
O programa eleitoral do Partido defende a proibição das demissões e que empresas que dispensem trabalhadores ou ameacem encerrar suas atividades sejam ocupadas e colocadas sob controle dos próprios trabalhadores. Em outras palavras, se os patrões demonstram que só conseguem manter seus negócios mandando milhares para a rua, não devem continuar com o direito de comandar a empresa.
No caso das Casas Bahia, a proposta é particularmente adequada.
Os trabalhadores conhecem a empresa porque são eles que a fazem funcionar. Atendem nas lojas, recebem mercadorias, cuidam dos depósitos, transportam produtos, mantêm os sistemas, realizam vendas e fazem funcionar toda a estrutura.
Os administradores capitalistas, por sua vez, conseguiram produzir uma dívida de R$17,3 bilhões.
Por que, então, o empregado deve perder o emprego enquanto os responsáveis por esse resultado preservam o controle da companhia?
Se uma empresa possui importância econômica suficiente para justificar uma operação judicial destinada a impedir sua destruição pelos credores, também possui importância suficiente para que seus milhares de empregos sejam preservados.
O que deve ser salvo não é o direito dos patrões de continuar fazendo negócios e explorando a força de trabalho de seus empregados. São os postos de trabalho e a atividade econômica realizada pelos empregados.
É por isso que é preciso confiscar uma empresa que demite em massa. Absurdo é permitir que uma administração leve a companhia a uma dívida gigantesca e depois utilize o desemprego como instrumento para recuperar sua rentabilidade para os parasitas que não trabalham. Os patrões não podem ter o direito de administrar mal e mandar a conta para os trabalhadores.
A recuperação judicial das Casas Bahia torna ainda mais evidente essa contradição. A companhia pede tempo para pagar seus credores, mas não concedeu tempo algum aos funcionários antes de retirar-lhes o salário.
O Estado reconhece que cobrar imediatamente todas as dívidas pode destruir a empresa. Entretanto, normalmente não reconhece que retirar o salário de uma pessoa endividada pode destruir economicamente uma família.
É uma proteção feita sob medida para os capitalistas.
O programa do PCO coloca a questão pelo lado oposto. Além da proibição das demissões e do controle operário sobre empresas que demitam ou ameacem fechar, defende o cancelamento das dívidas dos trabalhadores com o sistema financeiro.
Se existe dinheiro, legislação e aparato estatal para proteger grandes empresas diante de dívidas bilionárias, deve existir proteção ainda maior para quem vive do próprio trabalho.
O caso das Casas Bahia mostra também por que não basta exigir que as demissões sejam negociadas com os sindicatos. Negociar os termos de uma demissão em massa pode impedir abusos ainda maiores, mas não muda o fato de que o empregado será colocado na rua para preservar os interesses da empresa.
A reivindicação necessária é outra: nenhuma demissão.
Se os proprietários alegam que não conseguem manter os empregos, a empresa deve ser retirada de suas mãos e entregue à administração dos próprios trabalhadores.
Não foram os empregados que produziram os bilhões em prejuízo. Foram eles, porém, que mantiveram as lojas abertas e fizeram a companhia funcionar diariamente.
É esse fato elementar que a propriedade privada procura inverter: quem sabe fazer funcionar a empresa pode ser dispensado; quem a levou ao desastre em busca do lucro sem trabalhar conserva o direito de mandar.
As Casas Bahia oferecem um exemplo didático da política dos grandes capitalistas. Depois de anos de decisões administrativas e financeiras que levaram a uma crise gigantesca, a empresa encontra no Estado mecanismos para ganhar tempo e tentar se recuperar. Para milhares de trabalhadores, sua proposta foi a porta da rua.
Não há razão para que o povo aceite essa situação.
Uma empresa que demite 3.000 pessoas para salvar os negócios de seus proprietários deve ser confiscada e colocada sob administração daqueles que efetivamente a fazem funcionar.
A incompetência e os abusos dos patrões não podem continuar sendo pagos com o emprego e o salário dos trabalhadores.





