A oncinha-pintada escolhida como símbolo pelo Missão (MBL) procura dar uma aparência jovem e simpática à candidatura presidencial de Renan Santos. Por trás da propaganda, porém, aparecem personagens bem conhecidos do grande capital financeiro.
José Olympio Pereira, ex-presidente do Banco J. Safra e ex-dirigente do Credit Suisse, declarou apoio a Renan e passou a apresentá-lo a empresários e financistas de seu círculo de relações. Segundo a Folha de S.Paulo, o banqueiro acompanha o candidato em eventos e vem ajudando a abrir para ele as portas da Faria Lima.
O apoio não é fruto de simpatia pessoal. Ao explicar sua aproximação com Renan, Pereira destacou justamente as propostas econômicas que interessam aos grandes bancos: um duro ajuste fiscal e o corte de gastos com o povo para garantir uma fatia ainda maior de dinheiro público para os banqueiros.
A relação ajuda a mostrar quem é o candidato do Missão-MBL. Por trás do discurso contra a “velha política” está um programa feito sob medida para os interesses dos grandes capitalistas.
Não se trata de uma novidade na trajetória de Renan Santos. O Missão é a transformação eleitoral do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que desde sua origem esteve ligada ao meio dos institutos neoliberais financiados e promovidos por grandes empresários e especuladores estrangeiros.
A formação do MBL passou pelo Estudantes Pela Liberdade (EPL), braço brasileiro de uma rede internacional dedicada à formação de funcionários para a defesa da terapia de choqie neoliberal. O movimento surgiu nesse ambiente e ganhou projeção nacional defendendo exatamente o programa do grande capital: privatizações, redução dos gastos públicos, ataques aos direitos trabalhistas e enfraquecimento das organizações dos trabalhadores.
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A campanha pelo golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, deu ao MBL sua grande oportunidade. Apresentado pela imprensa como uma mobilização espontânea de jovens indignados com a corrupção (sem mencionar suas origens), o movimento ajudou a criar as condições políticas para a derrubada do governo e para a ofensiva que veio em seguida.
O governo Michel Temer aprovou a reforma trabalhista, ampliou a terceirização e aprofundou a política de cortes e entrega do patrimônio público. O MBL apoiou esse processo e atuou como uma das organizações de rua da direita que procuravam apresentar os ataques aos trabalhadores como modernização da economia.
Passados dez anos, Renan pretende aplicar diretamente da Presidência da República a mesma política.
O candidato do Missão-MBL defende um ajuste fiscal de centenas de bilhões de reais, a redução das despesas do Estado com o povo e mudanças profundas nas relações de trabalho. Também ataca a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e apresenta formas de contratação com menos garantias como expressão de uma suposta liberdade para o trabalhador.
A fórmula é antiga.
Para o patrão, retirar direitos significa diminuir o custo da força de trabalho. Para o trabalhador, significa perder férias, 13.º salário, FGTS, proteção previdenciária e outras garantias conquistadas por décadas de luta.
Renan apresenta esse ataque como libertação.
A mesma fraude aparece quando fala das contas públicas. O chamado ajuste fiscal nunca significa economizar os bilhões entregues aos banqueiros por meio dos juros e do serviço da dívida. O corte recai sobre aposentadorias, salários, saúde, educação e demais despesas que atendem à população.
É justamente esse aspecto que desperta o interesse dos financistas.
José Olympio Pereira destacou o ajuste fiscal como uma das qualidades da candidatura de Renan. Não é difícil compreender por quê. Para os bancos, cortar despesas sociais significa preservar uma parcela cada vez maior dos recursos públicos para o funcionamento do sistema financeiro e para o pagamento da dívida.
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O encontro entre Renan Santos e a Faria Lima (sucursal de Wall Street), portanto, não representa uma mudança de rumo. É a confirmação de uma trajetória.
O MBL surgiu propagandeando as ideias dos monopólios capitalistas entre setores da pequena burguesia. Atuou pelo golpe de 2016, apoiou as reformas contra os trabalhadores e fez campanha pela privatização e desmonte dos direitos trabalhistas e previdenciários. Agora criou seu próprio partido – orientado pelos banqueiros – e tenta transformar o fundador do movimento em candidato presidencial.
Mudou a embalagem, não o conteúdo.
O trabalhador aparece como culpado por custar demais. A aposentadoria é apresentada como problema fiscal. A saúde e a educação públicas aparecem como despesas excessivas. As empresas estatais são tratadas como mercadorias que devem ser entregues aos capitalistas.
Os bancos, por outro lado, praticamente desaparecem dessa propaganda.
Renan pode atacar a “casta política”, os funcionários públicos e os direitos trabalhistas à vontade. Seu programa não é dirigido contra o parasitismo financeiro, mas contra aquilo que os banqueiros consideram obstáculo para ampliar seus lucros.
Por isso, o apoio de um homem que passou pelo comando do Safra e do Credit Suisse tem um significado político muito claro.
Pereira não está apenas dizendo que votará em Renan. Está utilizando sua posição e seus contatos para apresentá-lo aos setores mais ricos da burguesia e ampliar sua aceitação entre os financistas, que só não é grande porque sabem que ele é um menino que eles mesmos mimaram e não tem a capacidade de um político burguês profissional para realizar o servicinho sujo que eles querem.
A oncinha-pintada, as provocações nas redes sociais e o discurso de renovação servem para apresentar como novidade aquilo que o País conhece há décadas.
O conteúdo é o velho programa dos banqueiros: cortar gastos sociais, retirar direitos, enfraquecer o trabalhador diante do patrão e entregar uma parcela cada vez maior da economia aos grandes capitalistas.




