Cultura

O identitarismo negro a serviço do nazismo ucraniano

Djamila Ribeiro repete a propaganda de Quieve, apaga o massacre da população do Donbass e revela a verdadeira face do movimento negro identitário criado pela burguesia

Em uma coluna publicada pela Folha de S.Paulo, Djamila Ribeiro transformou sua suposta admiração por uma banda ucraniana em pretexto para repetir a propaganda de guerra da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Provavelmente ela nem conhece a tal banda e só a utilizou como artifício para introduzir o tema, o qual ela desconhece completamente.

No artigo “Na Ucrânia, a cultura é uma outra forma de resistência à ocupação”, a diva do identitarismo apresenta o regime de Quieve como vítima inocente de uma agressão russa, apaga a guerra iniciada em 2014 contra o povo do Donbass e passa por cima do caráter fascista do regime que decidiu defender.

A operação é grosseira. A colunista descreve músicas, escritores e artistas ucranianos para dar uma aparência humana e progressista a uma ditadura fantoche sustentada pelos Estados Unidos, armada pela OTAN e ligada umbilicalmente a organizações nazistas. A cultura aparece como ornamento para encobrir os crimes cometidos durante mais de uma década contra a população de língua russa.

Segundo a versão difundida por Djamila, a guerra teria começado em fevereiro de 2022, quando as tropas russas entraram na Ucrânia. Tudo o que ocorreu antes dessa data é simplesmente eliminado. Não há golpe de Estado em 2014, participação norte-americana na derrubada do governo eleito, ascensão das organizações fascistas, perseguição política, proibição de partidos nem ofensiva militar contra Donetsk e Lugansk.

Essa falsificação é indispensável para a propaganda imperialista. Caso a história fosse contada desde o início, seria impossível apresentar Quieve como defensor da liberdade e da democracia.

Depois do golpe da Praça Maidan, o novo governo lançou a chamada “operação antiterrorista” contra as regiões que rejeitaram o poder instalado com o auxílio dos Estados Unidos e da União Europeia. O Exército ucraniano e batalhões paramilitares foram mobilizados contra cidades densamente povoadas. Durante oito anos, bairros residenciais, escolas, hospitais e mercados foram atingidos por artilharia.

Milhares de pessoas morreram nessa guerra anterior à intervenção russa de 2022. Entre as vítimas estavam idosos, mulheres e crianças. Para Djamila Ribeiro, porém, os habitantes do Donbass não contam. Suas mortes não servem à campanha da OTAN e, portanto, são retiradas da história.

A colunista diz ter ficado chocada ao ouvir a acusação de que crianças ucranianas teriam sido levadas para o território russo. A partir daí, reproduz diferentes números divulgados por organismos imperialistas e pelo regime de Quieve, sem demonstrar o menor interesse pelas contradições existentes entre eles.

Djamila cita primeiro 1.205 casos analisados por uma comissão ligada à Organização das Nações Unidas. Em seguida, salta para a estimativa de aproximadamente 20 mil crianças divulgada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Não explica de onde surge uma diferença tão grande, nem menciona que a maioria dos integrantes da OSCE participa diretamente da guerra, fornece armamentos a Quieve e defende abertamente uma derrota militar da Rússia.

Em resposta publicada pela própria Folha de S.Paulo, o embaixador russo no Brasil, Alexei Labetski, mostrou a fragilidade dessa campanha. Durante as negociações realizadas em Istambul, em junho de 2025, a delegação ucraniana apresentou uma relação com apenas 339 nomes. Após a verificação, descobriu-se que mais de cem dessas crianças estavam na Alemanha, não na Rússia.

O dado não aparece na coluna porque desorganiza a história pronta oferecida ao público. Para Djamila, qualquer acusação de Quieve deve ser aceita sem exame, enquanto qualquer informação russa é previamente classificada como propaganda. Trata-se do mesmo procedimento utilizado durante toda a guerra pelos grandes monopólios de imprensa. É claro, pois os amos de Zelensqui são os mesmos de Djamila.

A propagandista de George Soros chega a declarar que existe no Brasil uma “poderosa máquina de propaganda russa”. A afirmação seria cômica, caso não servisse para esconder o verdadeiro aparato que domina a cobertura da guerra: os governos imperialistas, as agências internacionais, os grandes jornais, as emissoras de televisão e as plataformas controladas pelos monopólios norte-americanos, como CNN e Rede Globo.

São os Estados Unidos e seus aliados que gastam bilhões para armar a Ucrânia, sustentar seu governo e apresentar uma guerra promovida pela OTAN como luta democrática. Djamila repete essa campanha quase palavra por palavra e ainda acusa a Rússia de controlar a opinião pública brasileira.

A coluna também apresenta a repressão ao idioma russo como simples defesa da cultura ucraniana. O problema é tratado como se o governo de Quieve estivesse apenas protegendo uma língua ameaçada. Fica de fora a perseguição contra milhões de habitantes que falam russo, especialmente no leste e no sul do país.

Leis foram aprovadas para restringir o idioma russo nas escolas, nos meios de comunicação, nos serviços públicos e na produção cultural. Livros foram proibidos, canais de televisão retirados do ar e opositores perseguidos. A promoção do ucraniano serviu como instrumento de uma política de repressão nacional contra a população do Donbass.

Djamila transforma essa perseguição em “resistência cultural”. Os escritores russófonos, os poetas de Donetsk, os artistas de Lugansk e as famílias que viveram sob os bombardeios de Quieve não existem em seu artigo. A cultura só merece atenção quando pode ser usada para legitimar o governo fantoche da OTAN.

A omissão mais grave diz respeito ao caráter do próprio regime ucraniano. O golpe de 2014 colocou organizações abertamente fascistas em posição privilegiada. Agrupamentos como o Batalhão Azov e o Setor Direito foram incorporados ao aparelho repressivo, receberam armas, dinheiro e proteção estatal. Seus integrantes utilizam símbolos nazistas, homenageiam colaboradores do regime de Adolfo Hitler e participaram ativamente da guerra contra o Donbass.

O governo de Volodimir Zelensqui não rompeu com essas forças. Pelo contrário, aprofundou a repressão contra a oposição, fechou emissoras, proibiu partidos e concentrou os meios de comunicação sob controle estatal. Seu regime homenageia os colaboradores da ocupação nazista durante a II Guerra Mundial. A guerra atual tornou-se uma justificativa permanente para eliminar direitos políticos e sufocar qualquer resistência.

Esse é o governo apresentado por Djamila como representante da liberdade, da arte e da cultura. A principal expoente do identitarismo negro no Brasil coloca o prestígio dado pelo aparato de propaganda e de ONGs imperialistas a ela a serviço de um regime que protege organizações nazistas e executa uma política de perseguição nacional.

Não existe contradição nisso. O identitarismo defendido separa a questão racial da luta contra o imperialismo e da luta de classes. Por isso, pode denunciar determinadas formas de discriminação no Brasil (mas nunca pelo Estado, e sim pelo cidadão comum) e, ao mesmo tempo, apoiar a política externa dos Estados Unidos, principal potência opressora do mundo.

Quando os interesses do imperialismo exigem, o discurso sobre identidade é utilizado para dar uma aparência progressista a guerras, golpes de Estado e governos reacionários. Mulheres podem ser apresentadas como símbolos de libertação enquanto defendem o massacre de povos inteiros. Representantes negros podem ser promovidos enquanto justificam a política colonial das grandes potências.

A coluna de Djamila Ribeiro cumpre exatamente essa função. O sofrimento das crianças ucranianas é explorado para ocultar as crianças mortas no Donbass. A defesa da cultura serve para justificar a perseguição à população russa. A denúncia da violência encobre uma guerra organizada pelos Estados Unidos e pela OTAN.

Os habitantes do Donbass aparecem apenas quando podem ser tratados como agentes russos, invasores ou obstáculos à soberania ucraniana. Não têm direito à própria língua, à memória, à cultura nem à resistência. O identitarismo não está nem aí para isso, porque é uma criação do imperialismo, o mesmo que está oprimindo o povo russo do Donbass.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.