O chamado Conselho da Paz, criado pelo governo de Donald Trump para supervisionar o plano norte-americano, anunciou que o Hamas havia aceitado uma estrutura para a aplicação das próximas etapas do cessar-fogo. Em sua declaração, o órgão destacou o desarmamento do movimento e tratou o entendimento como um “avanço histórico”.
A propaganda imperialista separa a questão das armas das condições impostas pelo Hamas. Dessa maneira, procura transformar um acordo condicionado à retirada sionista em uma rendição incondicional da resistência.
O Hamas não aceitará discutir o destino de suas armas enquanto as tropas sionistas permanecerem na Faixa de Gaza. A posição foi reafirmada por Ghazi Hamad, dirigente do movimento palestino, em meio às negociações para a aplicação da segunda fase do Acordo de Sharm el-Sheikh.
Segundo Hamad, “Israel” não terá qualquer participação no processo. As armas deverão permanecer sob responsabilidade de um comitê nacional palestino, encarregado também do governo da Faixa de Gaza após a retirada das forças de ocupação.
A declaração contraria a campanha dos órgãos do imperialismo e do sionismo, que procuram apresentar o acordo como uma capitulação do Hamas. A versão difundida é a de que o movimento teria reconhecido sua derrota e aceitado entregar as armas. O que foi negociado, porém, é o armazenamento do armamento por uma autoridade palestina depois da saída das tropas sionistas.
Nada mudou na política do Hamas. O movimento admite a formação de um governo de unidade nacional em Gaza e a transferência do controle das armas a esse governo, desde que “Israel” abandone o território. A posição mantém a independência política da resistência e o direito dos palestinos de decidir o futuro de seu próprio país.
Armas ficarão com os palestinos
Uma cópia do artigo 8 do documento de aplicação do Acordo de Sharm el-Sheikh, obtida pela rede Al Mayadeen, estabelece que o levantamento das armas pesadas, depósitos, túneis e instalações militares só começará depois que forem cumpridas as etapas anteriores do acordo e o Comitê Nacional entrar em Gaza.
O procedimento seria realizado gradualmente, dentro de um calendário de 14 dias. O prazo poderá ser prorrogado pela comissão encarregada de verificar o cumprimento do acordo, desde que haja concordância entre as partes.
O documento vincula essas medidas à retirada progressiva das forças sionistas das regiões ocupadas da Faixa. Também proíbe que qualquer arma seja entregue a “Israel” ou a uma organização não palestina.
Ao final do processo, o Comitê Nacional será o único órgão autorizado a guardar e controlar o armamento em Gaza. Ou seja, as organizações da resistência aceitariam submetê-lo a uma direção nacional palestina, não ao ocupante nem às potências imperialistas.
“Insistimos diante dos mediadores que ‘Israel’ deve cumprir o acordo”, declarou Hamad. O dirigente também exigiu que o futuro governo de Gaza e a força internacional prevista no acordo desmantelem as milícias armadas e financiadas pelos sionistas dentro do território palestino.
A resistência não surgiu por decisão arbitrária do Hamas, mas como resposta à ocupação. Exigir que os palestinos entreguem suas armas antes da saída do exército invasor equivaleria a deixá-los indefesos diante do Estado que massacrou dezenas de milhares de pessoas e destruiu praticamente toda a Faixa de Gaza.
A política defendida pelo Hamas é correta, revolucionária e independente. As armas podem ser colocadas sob o controle de um governo nacional palestino quando houver a retirada da ocupação. O que não pode ser aceito é que “Israel” imponha o desarmamento enquanto mantém suas tropas dentro de Gaza.
A versão imperialista não corresponde nem ao documento divulgado nem às declarações dos dirigentes palestinos. O acordo prevê que as tropas sionistas saiam gradualmente de Gaza e que o controle do território seja entregue a um órgão palestino. Somente dentro desse processo será discutido o armazenamento das armas.
A insatisfação do próprio governo de “Israel” também desmente a tese de que o Hamas teria capitulado. Fontes ligadas às negociações informaram à Reuters que representantes sionistas consideraram insuficientes os termos apresentados pelos mediadores.
Caso o entendimento representasse a simples entrega das armas e a derrota da resistência, o governo de Netaniahu não teria motivo para rejeitá-lo. O objetivo do Estado sionista é permanecer em Gaza e ampliar o território submetido diretamente ao seu exército.
Em maio, Netaniahu declarou que “Israel” controlava 60% da Faixa e que havia ordenado a ampliação desse domínio para 70%. A declaração expôs que o governo sionista não pretende apenas impedir ataques de retaliação palestinos, mas ocupar permanentemente Gaza e expulsar sua população.
“Israel” descumpre o acordo
O cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025 determinava a interrupção dos ataques e a retirada das tropas sionistas das áreas previstas no acordo. “Israel”, no entanto, continuou bombardeando, demolindo edifícios e assassinando palestinos.
Desde o início do cessar-fogo, ao menos 1.209 pessoas foram mortas e outras 3.943 ficaram feridas. As forças sionistas tampouco concluíram a retirada das regiões ocupadas.
O genocídio já deixou mais de 73 mil mortos, além de milhares de desaparecidos sob os escombros. Cerca de 90% da população foi expulsa de casa, e centenas de milhares de pessoas vivem em barracas, sem saneamento, alimentação adequada ou acesso regular a medicamentos.
A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) afirmou que as negociações estavam nos “metros finais”, mas alertou para a necessidade de manter a pressão sobre “Israel”. A organização exigiu a aplicação integral do cessar-fogo, a reabertura das passagens, a entrada de ajuda humanitária e a instalação imediata do comitê encarregado do governo de Gaza.
A FPLP também rejeitou qualquer tutela estrangeira sobre os palestinos. Os mediadores do Egito, Catar e Turquia deverão discutir no Cairo o calendário da retirada sionista, a entrada do Comitê Nacional na Faixa e a transferência do controle das armas para a direção palestina.





