A esquerda pequeno-burguesa, que tem ilusões na democracia, sai a campo para criticar Daniel Ortega. Nesta quarta-feira (29), o sítio Revista Movimento publicou um artigo de Frei Betto intitulado “Daniel Ortega se autonomeia ditador”, que nada mais é que uma repetição das críticas que as democracias liberais fazem ao presidente da Nicarágua. Para o autor, “é desalentador ver uma revolução tão genuína quanto a da Nicarágua se perder por força da ambição desmesurada do casal Ortega”, uma crítica recorrente na grande imprensa.
O texto inicia informando que “Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, afirmou no domingo (19/07), data do aniversário de 47 anos da Revolução Sandinista, que o país não terá mais eleições, para impedir que a oposição chegue ao poder. ‘Não haverá mais eleições aqui para que eles [a oposição] não tentem tomar o governo e o poder’”. Isso é um acerto de Ortega, pois o imperialismo tem utilizado as eleições para dar golpes no continente e fazê-los parecer democráticos, legítimos.
Recentemente, tivemos mais vitórias da extrema direita fantoche do imperialismo: Peru e Colômbia. Mas se pode contabilizar Argentina, Bolívia, Equador, Chile, El Salvador.
Em vez de olhar para o que está acontecendo na América Latina, Frei Betto considera que “o homem que liderou uma revolução que irmanou comunistas e cristãos admite que seu governo está tão desgastado que o melhor é impedir que haja eleições, pois é real o risco de ser derrubado do poder pela via democrática.” Não se trata de desgaste, mas assédio. O imperialismo quer, de todas as formas, controlar a Nicarágua, um país que, além de não estar alinhado, tem negócios com a China e com a Rússia.
“Ortega está no poder há 19 anos, desde 2007. A última eleição presidencial, em novembro de 2021, foi contestada, já que todos os principais candidatos da oposição foram presos”, escreve Frei Betto, mas não existe nenhuma lei que obrigue um país a trocar sempre de presidente. Na Alemanha, por exemplo, Angela Merkel ficou 16 anos à frente do governo e ninguém reclamou.
Em 1990, com o país deflagrado, no meio de uma guerra civil, os sandinistas caíram na besteira de chamar eleições. O resultado foi desastroso, o país ficou durante 6 anos governado por Violeta Chamorro, que fazia parte da oligarquia nicaraguense e era uma agente do imperialismo. Em seguida, foram 5 anos de Arnoldo Alemán e mais cinco de Enrique Bolaños. O que representou um enorme atraso.
Quando a população apoiou a Revolução Sandinista, quando derramou seu sangue para defender essa revolução, fez um gesto muito maior que qualquer voto depositado em uma urna. A exigência por eleições partiu exatamente do imperialismo, pois tem inúmeros meios de fraudar. Por isso, o sandinismo não tinha que ceder à pressão democratizante.
O articulista reclama que “as novas eleições presidenciais estavam previstas para o fim deste ano de 2026. Uma reforma constitucional adiou o pleito para 2027. Tudo indica, no entanto, que o casal presidencial tem a intenção de se perpetuar no poder.” Se houve uma reforma constitucional, é porque existe apoio interno. E existe uma vontade de Ortega se perpetuar no poder, é melhor assim do que sucessivos governos perpetuando o neoliberalismo.
Frei Betto também critica “a reforma incorporou a chamada Lei de Defesa dos Direitos dos Povos à Independência: a legislação impede que pessoas que participaram dos grandes protestos contra Ortega em 2018 se candidatem.”
Adiante, o articulista escreve que “ao se referir às manifestações antigoverno que começaram em 18 de abril de 2018, Ortega fez um discurso no qual justificou as prisões: “Não estamos julgando políticos ou candidatos. Estamos julgando criminosos que atacaram o país tentando organizar novamente outro golpe de 18 de abril”. A repressão policial aos protestos causou a morte de pelo menos 325 pessoas mortas, segundo organizações internacionais.”
Esse tipo de abordagem mostra bem a que servem esses pseudo-democratas. O jornalista John Perry apurou que, em 2018, centenas de opositores armados atacaram um depósito da prefeitura, destruíram veículos, saquearam equipamentos públicos e sequestraram funcionários municipais. Dois responsáveis pela segurança do local, conhecidos como “Tito” e “El Chele”, teriam sido espancados e torturados para revelar o paradeiro da prefeita e de armas supostamente escondidas. “El Chele” sofreu ferimentos tão graves que acabou perdendo um braço.
O jornalista também acusa integrantes da oposição, líderes religiosos e representantes de organizações de direitos humanos de terem colaborado com os sequestradores ou omitido esses crimes. Segundo ele, instituições internacionais como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o Conselho de Direitos Humanos da ONU e organizações como a Anistia Internacional deram pouca ou nenhuma atenção às vítimas ligadas ao governo sandinista, concentrando suas críticas exclusivamente na repressão estatal.
A campanha contra Ortega, portanto, não pode ser separada da ofensiva imperialista contra os governos latino-americanos que se recusam a se submeter integralmente aos Estados Unidos. Ao reproduzir as acusações sobre “ditadura”, “falta de democracia” e “repressão” sem levar em conta o papel desempenhado pela direita nicaraguense e pelas potências imperialistas, Frei Betto acaba se colocando no mesmo terreno político da grande imprensa e dos organismos internacionais que há décadas procuram liquidar o sandinismo.




