O atacante Marcos Paulo Costa do Nascimento, do Juventude, afirmou ter sofrido uma suposta ofensa racista no Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, durante a derrota para o Sport, no sábado (23). O detalhe mais revelador é que o torcedor apontado como autor da ofensa era do próprio Juventude. Em vez de o clube resolver internamente uma questão de arquibancada, o episódio virou mais um caso do punitivismo que transforma brincadeiras, provocações ou xingamentos grosseiros típicos do futebol em caso de polícia.
Aos 20 minutos do segundo tempo, ao ser substituído, Nascimento afirmou ter ouvido “injúria racial” vinda da torcida. O jogador acionou o árbitro Lucas Paulo Torezin, que fez o sinal protocolar e interrompeu brevemente a partida. Um torcedor foi identificado, contido pela segurança privada e levado à delegacia, enquanto o jogador deixou o banco de reservas, foi ao vestiário e, depois, ao Juizado Especial Criminal, acompanhado da advogada do clube.
O resultado esportivo ficou em segundo plano. Mais uma vez, o futebol brasileiro, conhecido pela vibração popular e pelo linguajar sem filtro das arquibancadas, foi interrompido para que o Estado transformasse uma discussão de estádio em caso de polícia.
Esse tipo de medida ditatorial não resolve o problema do racismo. Serve, antes, para ampliar o poder de repressão do Estado sobre o torcedor comum. O que antes era resolvido com um grito, uma vaia ou uma provocação agora pode gerar detenção, inquérito e risco de cadeia. A Lei nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo, é o combustível dessa máquina repressiva. Com pena de reclusão de dois a cinco anos, multa, sem fiança e sem prescrição, uma palavra dita no calor do jogo vira processo penal grave.
O mesmo mecanismo se repetiu em Passos (MG), onde a Polícia Civil indiciou um homem de 34 anos por uma ofensa racista contra um adolescente de 16 anos durante uma partida amistosa, em fevereiro. A ofensa, repetida após um gol, levou ao encerramento precoce do jogo e agora segue para o Judiciário. Uma declaração grosseira virou caso de polícia, como ocorreu no Alfredo Jaconi.
O problema não se limita às arquibancadas. A mesma legislação que enquadra “brincadeiras” de estádio serve para calar críticas políticas. Uma lei apresentada como combate ao preconceito funciona, na prática, como instrumento de censura. Se uma suposta ofensa verbal em campo já leva alguém à cadeia, o tratamento dado a falas contra guerras, Estados e regimes coloniais tende a ser ainda mais duro. Foi o que aconteceu com diversos militantes do Partido da Causa Operária (PCO), com o jornalista Breno Altman e com José Maria, presidente nacional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.




