A crise política na Bolívia continua se aprofundando. Mesmo após a repressão promovida pelo governo de Rodrigo Paz durante a chamada operação “Corredor humanitário”, os setores mobilizados mantêm os bloqueios e afirmam que não sairão das ruas enquanto o governo permanecer no poder.
A mobilização, que reúne camponeses, índios e operários, denuncia o caráter neoliberal do governo e sua tentativa de impor uma política contrária aos interesses da população. Segundo dirigentes do Trópico de Cochabamba, o povo boliviano “definiu finalmente destituir este governo, já que não escuta”.
A declaração expressa o ponto central da situação política no país: a população mobilizada não vê mais no governo um interlocutor legítimo. As organizações sociais apresentaram reivindicações, mas, segundo os manifestantes, o Executivo respondeu com repressão, manobras e tentativas de acordos por cima.
Um dos episódios mais reveladores foi a rejeição ao acordo firmado entre o presidente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia, Víctor Hugo Roca, e o governo. A marcha camponesa que partiu de Pando e Beni desconheceu o acordo e acusou Roca de traição, afirmando que nenhuma negociação feita sem consulta aos setores mobilizados será aceita.
Ao mesmo tempo, a repressão também não conseguiu quebrar a resistência. Durante a operação “Corredor humanitário”, houve enfrentamentos, feridos, detenções e ao menos um morto. Em outro sinal do descontrole da situação, jornalistas que acompanhavam a operação denunciaram terem sido abandonados pelo governo em meio aos confrontos, enquanto veículos oficiais escapavam por rotas alternativas.
O governo tentou abrir caminho pela força, mas não conseguiu derrotar a mobilização. Ao contrário, a repressão expôs ainda mais o isolamento do Executivo diante de uma população que se recusa a aceitar a imposição de um pacote neoliberal.
A tentativa de Rodrigo Paz de convocar encontros fora da sede política do país também foi denunciada pelos manifestantes como uma provocação. Para os setores mobilizados, a sede do governo é La Paz, e qualquer tentativa de deslocar o centro das decisões para outros departamentos seria uma manobra para escapar da pressão popular.
O povo boliviano tem uma longa tradição de derrubar governos que tentam governar contra as massas. A continuidade dos bloqueios, a rejeição aos acordos sem consulta e a disposição de permanecer nas ruas indicam que a crise entrou em uma nova etapa.





