Bolívia

COB afirma que não levantará bloqueios durante negociações

Os bloqueios seguem em pelo menos cinco departamentos: La Paz, Cochabamba, Oruro, Santa Cruz e Potosí

A Central Operária Boliviana (COB) anunciou que participará de negociações com o governo de Rodrigo Paz, mas sem levantar os bloqueios que atingem várias regiões da Bolívia. A decisão foi tomada em uma reunião ampliada de emergência da central, em meio a uma crise política que já se prolonga há quase 50 dias e que envolve setores operários, camponeses e populares mobilizados contra o governo.

A posição adotada pela COB indica uma tentativa de abrir uma negociação sem desmontar a pressão exercida nas estradas. Ou seja, a central aceita conversar com o governo, mas, ao mesmo tempo, mantém as medidas de luta que obrigaram o Executivo a receber as organizações sociais.

O dirigente Mario Argollo afirmou que a COB enviou ao governo uma intimação pela “pacificação do país”, exigindo uma resposta imediata à situação nacional. Segundo ele, se o governo trabalhou para viabilizar decretos e aprovar leis, deve também atuar para responder às reivindicações que levaram milhares de bolivianos às ruas e às estradas.

“Foi decidido, em consulta com todos os atores, enviar ao governo central uma intimação para a pacificação do país, que tem de ser atendida de maneira imediata, porque, assim como trabalharam para viabilizar muitos decretos e aprovar leis, têm de se pôr a trabalhar”, declarou Argollo.

O governo respondeu afirmando que receberia os dirigentes da COB na Casa Grande do Povo, em La Paz, na quarta-feira (17). A reunião ocorre em uma situação de grande tensão, pois setores importantes das bases mobilizadas veem com desconfiança qualquer negociação que possa levar ao fim dos bloqueios sem que as reivindicações centrais sejam atendidas.

Até o momento, no entanto, a COB afirmou que as mobilizações continuarão. Ao aceitar a negociação mantendo os bloqueios, a entidade procura impedir que o governo use as conversas como forma de desarmar o movimento.

Vários dirigentes camponeses expressaram preocupação com a negociação. Nelson Virreira afirmou que o chamado do governo é um “engano” e pediu que a COB se mantenha firme. Aquilardo Caricari, dirigente dos Interculturais, afirmou que qualquer acordo feito sem as bases poderá ser desconhecido pelos manifestantes que permanecem nas estradas.

Vicente Choque, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), também defendeu a continuidade da mobilização. Segundo ele, mesmo que alguns dirigentes tentem negociar em nome da luta, os bloqueios devem prosseguir enquanto não houver uma resposta concreta à crise enfrentada pelo povo boliviano.

A pressão das bases é um elemento decisivo. Os setores camponeses e populares que sustentam os bloqueios exigem a renúncia de Rodrigo Paz e denunciam a situação econômica do país. Por isso, qualquer negociação feita pela COB terá de levar em conta o grau de radicalização existente nas estradas.

Os bloqueios seguem em pelo menos cinco departamentos: La Paz, Cochabamba, Oruro, Santa Cruz e Potosí. Há também informações sobre a reativação de pontos em Chuquisaca, depois da abertura de um corredor humanitário. Segundo a Administradora Boliviana de Estradas (ABC), há cerca de 50 pontos de interrupção no país.

La Paz concentra cerca de 19 bloqueios. Cochabamba tem 17 pontos interrompidos, afetando a ligação com Santa Cruz, Sucre, Oruro e La Paz. Em Oruro há oito pontos de bloqueio e, em Potosí, outros cinco. Em Santa Cruz, a mobilização permanece em San Julián, enquanto a estrada nova entre Cochabamba e o oriente do país segue interrompida.

O governo tentará, naturalmente, transformar a negociação em um mecanismo para encerrar a mobilização. As bases, por sua vez, pressionam para que nenhuma decisão seja tomada por cima dos trabalhadores e camponeses.

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