Oriente Médio

Iraque declara guerra aos EUA e entra para o Eixo da Resistência

Grupos revolucionários empurram governo para posição anti-imperialista

O Conselho Ministerial de Segurança Nacional do Iraque, presidido pelo primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani, autorizou oficialmente na terça-feira (24) que as Forças de Mobilização Popular (PMF) e as Forças Armadas utilizem o direito de resposta e autodefesa contra ataques estrangeiros. A medida altera profundamente a doutrina militar do governo iraquiano em relação à coalizão liderada pelos Estados Unidos. O decreto ocorre após bombardeios aéreos norte-americanos atingirem posições da PMF em Anbar e no Curdistão iraquiano, resultando no assassinato de 15 combatentes, entre eles o comandante de operações da província de Anbar, Saad Daway.

A decisão do governo expressa a pressão política e militar exercida por grupos da Resistência Islâmica no Iraque, que intensificaram operações contra bases dos EUA nas últimas semanas. O governo de Al-Sudani, que anteriormente negociava um cronograma de retirada gradual das tropas estrangeiras até setembro, antecipou o fim da missão da coalizão internacional. Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, o primeiro-ministro afirmou que o Iraque busca o controle total do seu território e o encerramento da presença militar externa, motivado pela escalada da guerra regional envolvendo os Estados Unidos, “Israel” e a revolucionária República Islâmica do Irã.

No plano diplomático, o Ministério das Relações Exteriores do Iraque convocou o encarregado de negócios dos Estados Unidos e o embaixador do Irã para entregar notas de protesto contra as violações de soberania. Simultaneamente, o governo protocolou uma queixa formal no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A autorização para que milícias integradas ao Estado respondam militarmente aos Estados Unidos marca uma mudança importante, na qual o governo iraquiano passa a respaldar as ações armadas dos grupos armados contra a permanência de tropas estrangeiras no país.

A situação no Iraque se assemelha ao que ocorreu no Afeganistão, embora com características institucionais distintas. Enquanto no Afeganistão o Talibã foi obrigado a derrubar o governo para acabar com a ocupação norte-americana, no Iraque, grupos armados iraquianos assumiram o controle de áreas estratégicas e forçaram a desocupação de postos logísticos por meio de ataques constantes com veículos aéreos não tripulados (VANTs) e mísseis. A integração desses grupos ao exército nacional permite que a frente iraquiana atue em conjunto com o eixo liderado pelo Irã e pelo Hesbolá libanês, ampliando o raio de ação contra bases e interesses dos Estados Unidos e de “Israel” na região.

A Base Vitória, localizada no complexo do Aeroporto Internacional de Bagdá, tornou-se o centro da ofensiva da resistência iraquiana contra a presença militar dos Estados Unidos. Nas últimas duas semanas de março, a instalação foi alvo de bombardeios diários executados com foguetes Katyusha e VANTs. Relatórios de segurança indicam que a intensidade dos ataques superou a capacidade de resposta dos sistemas de defesa aérea C-RAM e Patriot instalados na base, resultando em impactos diretos em hangares e áreas de alojamento. A frequência das operações, que chegaram a oito ataques em um período de 24 horas, inviabilizou pousos de aeronaves de transporte logístico, como o C-130 Hercules, forçando o desvio de suprimentos para outras regiões.

Diante da impossibilidade de manter o funcionamento da base, o comando militar norte-americano utilizou canais diplomáticos do governo iraquiano para solicitar um cessar-fogo temporário de 48 horas. O objetivo da trégua foi permitir a retirada de equipamentos pesados e sensíveis da Base Vitória sem o risco de destruição por fogo indireto. Grupos da resistência, como o Saraya Awliya al-Dam, confirmaram a aceitação da trégua sob condições específicas, incluindo o compromisso de que posições das Unidades de Mobilização Popular (PMF) entre Samarra e Carbala não fossem alvo de novos bombardeios aéreos durante o processo de evacuação.

A movimentação logística de retirada teve dois destinos principais: a Jordânia e a Turquia. Fontes de inteligência regional relatam que comboios terrestres e voos de carga iniciaram a transferência de blindados, sistemas de comunicação e armamentos pesados para fora do território iraquiano. Essa manobra configura uma redução drástica da presença militar dos Estados Unidos no centro e no sul do Iraque, limitando o contingente remanescente a postos específicos na região do Curdistão iraquiano, como a base de Harir e o consulado em Erbil. A saída de equipamentos da Base Vitória é uma admissão de que o controle territorial de Bagdá e arredores foi perdido para as milícias revolucionárias.

O esvaziamento da Base Vitória gerou um efeito imediato nas missões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no país. O contingente italiano, composto por aproximadamente 100 soldados que operavam em funções de treinamento e assessoria, abandonou suas posições e deslocou-se para a Jordânia. Simultaneamente, a Missão da OTAN no Iraque (NMI) transferiu seu centro de operações para o Comando Conjunto da Aliança em Nápoles, na Itália.

Grupos como o Cataebe Hesbolá, Harakat Hezbollah al-Nujaba e Saraya Awliya al-Dam se consolidaram como uma parte decisiva do regime iraquiano. Essa ascensão foi impulsionada por uma campanha de propaganda que vincula a expulsão das tropas estrangeiras à defesa da soberania religiosa e nacional, isolando politicamente qualquer setor do governo que defenda a permanência da coalizão imperialista.

O encurralamento do governo de Mohammed Shia al-Sudani manifestou-se por meio de ultimatos operacionais emitidos pelas lideranças das milícias. Em 19 de março de 2026, o Cataebe Hesbolá impôs uma suspensão temporária de ataques contra a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, condicionada ao atendimento de exigências específicas: o fim dos bombardeios contra Beirute, a cessação de ataques aéreos em áreas residenciais iraquianas e o confinamento de agentes da CIA ao complexo diplomático. A aceitação tácita dessas condições pelo governo central e a posterior autorização de “autodefesa” demonstram que o Estado iraquiano perdeu a capacidade de arbitrar o uso da força, passando a atuar como um mediador de demandas dos grupos revolucionários perante os Estados Unidos.

A estrutura de comando da resistência iraquiana também se profissionalizou. O uso de armamento avançado, como mísseis de cruzeiro e VANTs de longo alcance, é coordenado em salas de situação que operam de forma independente do Ministério da Defesa oficial. Essa autonomia militar permitiu que a resistência realizasse 21 operações em um intervalo de 24 horas, atingindo simultaneamente a Base Vitória, o consulado em Erbil e instalações logísticas na fronteira síria. A eficácia dessas ações forçou o governo a reconhecer que a estabilidade do regime depende da colaboração com essas forças, e não do seu desarmamento.

A pressão sobre o governo central também possui um componente parlamentar e social. Partidos políticos ligados à PMF mobilizaram a opinião pública contra a presença da OTAN e dos EUA, classificando os ataques estrangeiros como atos de guerra que exigem uma resposta armada total. Com o avanço da guerra entre o Irã e a coalizão EUA-“Israel”, a “neutralidade” do Iraque tornou-se politicamente inviável. O governo Al-Sudani viu-se diante da escolha entre enfrentar uma guerra civil interna contra as milícias ou liderar o processo de expulsão das tropas estrangeiras.

O isolamento estratégico no norte do Iraque compromete a capacidade dos Estados Unidos de controlar a fronteira com a Síria e de monitorar as atividades iranianas na região. A base de Harir, que funciona como um entreposto vital para as operações remanescentes no leste sírio, enfrenta agora dificuldades de reabastecimento por terra, uma vez que as rotas que ligam o Curdistão ao resto do Iraque são monitoradas por brigadas da PMF.

A permanência dos EUA apenas no Curdistão é politicamente precária. A liderança curda em Erbil sofre pressão direta do governo central e ameaças de retaliação econômica e militar caso continue a hospedar tropas que o governo central agora define como alvos legítimos de “autodefesa”. O recuo para o Curdistão é, provavelmente, a etapa final de uma retirada desastrosa como a que se viu no Afeganistão.

A agressão direta das forças dos Estados Unidos e de “Israel” contra o território iraniano, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, funcionou como o determinante final para a unificação das frentes de resistência no Iraque. O bombardeio de instalações estratégicas em solo iraniano eliminou as ambiguidades políticas que ainda dividiam os grupos iraquianos em relação à presença da coalizão internacional. A partir desse marco, a Resistência Islâmica no Iraque passou a operar sob uma doutrina de “unidade de frentes”, onde qualquer ataque ao Irã é respondido com uma escalada automática contra as bases norte-americanas remanescentes na Mesopotâmia.

A integração operacional entre o exército iraquiano e as milícias revolucionárias permitiu o compartilhamento de inteligência e infraestrutura logística para ataques de longo alcance. O uso de mísseis balísticos disparados de províncias como Anbar e Nínive em direção a alvos em “Israel” e bases na Jordânia demonstrou que a resistência iraquiana possui agora uma capacidade de projeção que excede o âmbito doméstico. A retaliação iraniana à agressão sionista e norte-americana, denominada Operação Promessa Cumprida 4, removeu os últimos obstáculos políticos para a transformação do Iraque em um Estado combatente alinhado ao Eixo da Resistência.

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