/O Partido da Causa Operária (PCO) realizou nesta quinta-feira (4) o ato de abertura de seu XII Congresso Nacional. O evento, sediado no Auditório Paraíso, reuniu dirigentes partidários, delegações de diversos estados do país e representantes de partidos políticos e de movimentos populares e sindicais. Batizado oficialmente como “Congresso Natália Pimenta”, em homenagem à destacada dirigente falecida no ano passado, o encontro transformou-se em uma contundente tribuna de defesa das liberdades democráticas, de crítica contundente à censura judicial no Brasil e de solidariedade irrestrita à resistência dos povos.
Entre os pronunciamentos, destacaram-se a profunda denúncia feita pelo presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal), Ahmed Shehada, e o prefácio programático feito pelo presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, que alertou para os riscos de capitulação da esquerda tradicional diante do grande capital.
A coordenação dos trabalhos ficou a cargo do dirigente nacional Antônio Carlos Silva, que iniciou o ato convocando os presentes a ocupar as dependências do plenário e saudando a militância que acompanhava a transmissão ao vivo pela Causa Operária TV. De imediato, Antônio Carlos ressaltou o caráter internacionalista da mesa e justificou a escolha do nome do congresso.
“Queremos, neste momento de abertura, prestar a nossa homenagem a essa companheira destacada, dirigente e construtora do partido nas últimas décadas”, declarou, referindo-se a Natália Pimenta.
Antônio Carlos registrou ainda as saudações enviadas por lideranças que não puderam comparecer devido a compromissos prementes ou imprevistos de saúde, como a deputada estadual Professora Bebel (PT-SP), presidenta licenciada da Apeoesp — representada no ato por Roberto Guido —, e o jornalista Breno Altman, que enviou votos de pleno êxito ao fórum de debates.
O primeiro orador da noite foi José Reinaldo, representando a direção do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz). Em leitura oficial do manifesto do coletivo, ele destacou que o XII Congresso se reúne “sob o signo da resistência e da esperança, em um momento decisivo para os rumos do Brasil e da geopolítica internacional”.
José Reinaldo teceu loas ao legado internacionalista de Natália Pimenta, afirmando que ela “compreendia que a libertação do povo brasileiro está umbilicalmente ligada à libertação de todos os povos explorados e oprimidos do mundo”. No plano externo, o dirigente do Cebrapaz elogiou a postura do PCO ao enfrentar as potências imperialistas.
“Destacamos a postura do partido ao erguer a voz em defesa dos povos palestino e libanês, vítimas da política de extermínio, ocupação ilegal e terrorismo de Estado promovida pelo sionismo israelense”, asseverou, estendendo a solidariedade à República Islâmica do Irã, a Cuba e à Venezuela.
Izadora Dias, coordenadora nacional do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo e dirigente do PCO, focou sua intervenção nos aspectos teóricos e humanos da homenageada do dia. Ela sublinhou que a classe operária perdeu “uma mente organizadora, teórica, que infelizmente partiu muito cedo”. Ela relembrou o período em que foi coordenada por Natália na Secretaria de Organização do partido, destacando sua “tenacidade para enfrentar os problemas”.
De acordo com Izadora, mesmo nos momentos mais difíceis da internação hospitalar, Natália demonstrava uma confiança inabalável.
“A gente chegava no hospital para acompanhá-la e era ela que nos dava força”, relatou.
Ao encerrar, Izadora apontou Natália Pimenta como um espelho para as mulheres trabalhadoras, lembrando que iniciou sua trajetória militante ainda na adolescência, aos 13 ou anos, conciliando posteriormente a maternidade de dois filhos com a dedicação integral à construção partidária.
“As mulheres que têm inúmeras dificuldades para serem militantes devem olhar para uma figura como a Natália e se espelhar nela”, conclamou.
Representando o Campo Progressista Árabe, Reda Sued manifestou o orgulho de sua organização em manter alianças com o PCO no Brasil. Em sua fala, Reda homenageou líderes históricos da resistência árabe-islâmica que tombaram nos últimos anos, citando Ismail Hanié, Iahia Sinuar e Hassan Nasseralá, ressaltando que seus sacrifícios fortaleceram os laços entre as forças anti-imperialistas globalmente.
Reda afirmou que, antes dos eventos de 7 de outubro, o imperialismo preparava uma ofensiva avassaladora para liquidar os focos de resistência. Para ele, a ação da resistência em Gaza demonstrou de forma inequívoca “a fragilidade do Estado sionista e do seu exército”. O orador criticou duramente as tentativas passadas de conciliação, como os acordos de Oslo e de Camp David.
“Hoje está mais do que claro que os caminhos que apostaram em acordos fracassaram e vão fracassar novamente. O campo da resistência nunca foi tão forte, nunca o caminho foi tão claro como hoje. É através da resistência, é através da luta que nós temos que seguir caminhando”, sustentou.
Logo em seguida, subiu à tribuna Gustavo, trazendo a saudação da direção do Partido Operário Revolucionário (POR). Ele traçou paralelos com a situação “pré-insurrecional” na Bolívia, defendendo a constituição de uma frente única anti-imperialista.
Roberto Guido, presidente em exercício da Apeoesp, iniciou seu discurso celebrando a escolha de Natália Pimenta para dar nome ao congresso, assinalando que “todo militante que se vai acaba revivendo na luta daqueles que ficam“. Guido enfatizou que, para os professores paulistas, a luta pela educação pública é, indissociavelmente, uma luta de classes, o que exige a presença da categoria em todas as frentes de contestação social.
O líder sindical estabeleceu um paralelo histórico contundente entre os argumentos da direita contemporânea contra o fim da jornada de trabalho na escala 6×1 e os discursos dos escravocratas do século XIX.
“Como é que os empresários serão reembolsados com o fim da escala 6×1? Era o mesmo argumento que se utilizava para evitar o fim da escravidão. Como é que os barões do café seriam reembolsados pelos prejuízos advindos do fim da escravidão? Os argumentos mudam, mas a luta de classes permanece”, comparou Guido.
A plenária ouviu, então, o contundente relato de Daniel Lemos, liderança Guarani-Caiová do Mato Grosso do Sul e integrante do Coletivo Indígena Terra Vermelha. Lemos comparou diretamente o massacre sofrido pelas comunidades indígenas no Cone Sul do Mato Grosso do Sul à opressão imposta ao povo palestino, denunciando o caráter espoliador do sistema capitalista agrário.
Após Daniel Lemos, Charles Gentil, militante de longa data do Partido dos Trabalhadores e ex-presidente de diretório zonal na capital paulista, discursou sobre o avanço da extrema direita. Ele relembrou de forma dramática a gestão da pandemia sob o governo de Jair Bolsonaro, computando as 700 mil mortes como resultado direto de uma negligência deliberada com a cobertura vacinal.
Um dos momentos culminantes do ato de abertura foi o pronunciamento detalhado de Ahmed Shehada, presidente do Ibraspal. Amigo pessoal de Natália Pimenta — que ocupava a vice-presidência do instituto —, Shehada iniciou sua fala em tom de profundo luto.
Shehada elogiou publicamente o PCO, definindo-o como a organização mais corajosa do país na denúncia dos crimes do imperialismo. Ele fez questão de desmistificar a campanha que sionista que visa comparar a oposição política ao Estado de Israel com o preconceito religioso.
“A luta do povo palestino não é uma luta religiosa. Por isso estamos juntos. Tem comunista, tem cristão, tem muçulmano, progressista… A Palestina sempre foi uma terra de convivência entre diferentes religiões e culturas. A questão central é política, é uma luta contra a ocupação, contra a colonização”, asseverou.
O presidente do Ibraspal elevou o tom ao criticar os expedientes jurídicos utilizados pelo lobby sionista brasileiro para sufocar o debate democrático, perseguir professores, punir estudantes e censurar jornalistas. Ele denunciou a distorção kafkiana onde a própria vítima de um processo de limpeza étnica passa a figurar no banco dos réus.
“Criticar o sionismo não é atacar os judeus. Essa arma suja que o lobby sionista usa no Brasil… coíbe a perseguição aos progressistas e defensores da humanidade. Até a vítima, como eu, fica acusada de racismo se criticar ou se gritar contra o opressor”, desabafou.
Inquirido frequentemente sobre seu posicionamento em relação à legitimidade internacional do Estado de Israel, Shehada foi taxativo e elogiou o direito histórico à insurgência:
“’Ah, você nega a existência de Israel?’ Eu nego. Eu sempre vou negar. O Israel pode existir em qualquer lugar, mas não na minha conta. Não nego a existência de nenhuma religião, de nenhum povo, de nenhuma etnia. Mas quero que termine esse projeto para sempre, o projeto sionista. Não tem esperança de que eu possa voltar para a minha casa enquanto existir esse projeto criminoso, genocida, sionista. Eles querem um Estado judaico; então o cristão, o muçulmano tem que ficar apagado. Eles mesmos falam disso.”
O ponto mais contundente da intervenção de Shehada residiu na denúncia formal de decisões recentes tomadas pelo Poder Judiciário e pelo Ministério Público do Brasil no caso envolvendo ativistas políticos, como o dirigente Zé Maria. O presidente do Ibraspal expressou sua indignação com o fato de magistrados de um Estado oficialmente laico recorrerem a critérios teológicos para fundamentar sentenças criminais e endossar a expropriação territorial.
“O que é mais absurdo… O Ministério Público e o juiz, na sentença do companheiro Zé Maria, num país laico, usam o termo de um mito bíblico: de que ‘essa terra palestina ocupada é a terra ancestral do povo judeu’. Eu não sei onde um juiz, um promotor, achou na lei internacional, ou na lei brasileira, ou na história, essa realidade. Como pode usar esse termo bíblico num país laico? Legaliza a ocupação e a expulsão e condena alguém na base dessas alegações que são um mito, não têm fundamento nenhum”, fustigou.
Shehada concluiu recordando que a própria Assembleia Geral da ONU, através da Resolução 3379 em 1975, capitulou o sionismo como uma forma de racismo e discriminação racial. Embora tal resolução tenha sido revogada em 1991 sob severa chantagem diplomática no contexto do fim da Guerra Fria, ele argumentou que a natureza prática do regime de apartheid israelense apenas se intensificou nas décadas seguintes, o que valida a legitimidade do lema “do rio ao mar, a Palestina livre”.
Encerrando as intervenções políticas, o presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, proferiu um extenso discurso que funcionou como um balanço dos anos recentes de atuação partidária. Rui começou justificando o longo hiato entre o XI e o XII Congresso por razões estritamente políticas, classificando o intervalo como uma “etapa bastante desafiadora para a existência do nosso partido”.
Rui Pimenta enumerou as frentes de ataque institucional que o PCO precisou enfrentar devido às suas posições programáticas radicais. Revelou que o partido responde atualmente a mais de 12 processos judiciais movidos por organizações sionistas em virtude de sua campanha em defesa da Palestina. Relembrou ainda a inclusão da agremiação no inquérito das fake news presidido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fato que resultou no bloqueio integral de todas as redes sociais do partido por mais de um ano.
A parte mais densa de sua análise foi direcionada à capitulação teórica e política da maioria da esquerda brasileira. O dirigente criticou asperamente a tática que levou partidos progressistas a formarem uma coalizão com setores do grande capital e aparatos burocráticos de Estado sob o pretexto de combater o fascismo.
“Nós tivemos que enfrentar a política de aliança da esquerda com o grande capital, que nós podemos personificar em entidades como a Rede Globo ou como o STF, em nome de uma suposta luta contra o fascismo. Nós, obviamente, criticamos esse tipo de aliança política e criticamos mais ainda as consequências dela, que foi o abuso pelo judiciário em particular, mas com apoio do Executivo do governo Lula, contra uma série de direitos democráticos da população”, disparou.
De acordo com Rui, a preservação do partido e seu crescimento numérico e de influência em meio a esse isolamento político decorrem exclusivamente do apego intransigente ao seu programa.
“Um partido revolucionário concentra a sua força política no seu programa. A clareza política é a força do nosso partido. Nós fomos o partido da esquerda que evitou uma série de armadilhas colocadas pela burguesia. Nós combatemos a política do momento, a política de conveniência, a adaptação à mentalidade da classe média e da burguesia. Nós combatemos o identitarismo, defendendo o método de luta da classe trabalhadora, o método de luta revolucionária na defesa dos oprimidos”, explicou.
O presidente do PCO atacou duramente o financiamento internacional de movimentos sociais por meio de organizações não governamentais (ONGs) estrangeiras. Segundo ele, essas estruturas atuam como correias de transmissão do imperialismo com a finalidade de domesticar a esquerda e criminalizar a dissidência.
“Denunciamos a farsa que consiste em você levar adiante um pseudo-movimento baseado no financiamento de ONGs estrangeiras e cujo grande objetivo é censurar as pessoas e colocar a gente na cadeia. Fomos o único a combater essa maré reacionária”, sublinhou, elegendo a liberdade de expressão como a “pedra angular” de todas as prerrogativas democráticas.
Rui Pimenta também não poupou críticas à timidez da esquerda parlamentar diante dos conflitos globais. Reafirmou que, para o PCO, o embate na Faixa de Gaza é uma “luta revolucionária legítima dirigida pelo Hamas” e criticou o apoio “platônico e pela metade” conferido ao Irã pelos partidos da esquerda pequeno-burguesa, que não conseguem enxergar a importância histórica da contraofensiva iraniana, qualificada por ele como “a maior derrota militar e política do imperialismo desde a Guerra do Vietnã”.
O dirigente estendeu sua análise à América Laitna, apontando a existência de um “bloqueio à luta anti-imperialista” na América Latina, fomentado pelas contradições das lideranças reformistas. Ele criticou duramente a postura externa do governo brasileiro na Venezuela, no Irã e, de modo mais recente, na crise boliviana.
“Quando os operários e camponeses bolivianos encurralam o governo direitista, bloqueiam as estradas, enfrentam a polícia e exigem a retirada do governo, o governo brasileiro diz que vai prestar ajuda humanitária ao governo do senhor Luis Arce na Bolívia. Digo isso para que todo mundo perceba claramente o bloqueio que existe da luta revolucionária anti-imperialista no Brasil. Essa luta praticamente não existe fora do nosso próprio esforço”, lamentou.
Ao projetar os desafios organizativos imediatos, Pimenta alertou que o imperialismo mundial está preparando uma severa “reviravolta política” para o Brasil, com o intuito de aplicar no país as mesmas receitas de austeridade econômica e exceção jurídica implementadas na Argentina e no Chile. Ele alertou que tal ofensiva ocorrerá de forma independente dos resultados eleitorais formais, uma vez que “o voto é uma coisa que a burguesia tem condições de distorcer e de manipular”. Ele concluiu conclamando o XII Congresso a armar os militantes para o único terreno capaz de deter tal avanço:
“O que o imperialismo está preparando para o Brasil só poderá ser enfrentado vitoriosamente pela mobilização efetiva dos trabalhadores através das suas organizações, dos sindicatos, dos movimentos populares nas ruas. Esse é o único caminho.”
Após o encerramento do discurso de Rui Costa Pimenta, o coordenador Antônio Carlos retomou a palavra para repassar as diretrizes organizativas para os dias subsequentes do congresso, que se estenderá até domingo.
O ato de abertura foi encerrado formalmente com o plenário de pé. Sob o tremular de dezenas de bandeiras vermelhas, os delegados e convidados entoaram em uníssono os acordos de A Internacional, o hino histórico do proletariado mundial, declarando oficialmente abertos os trabalhos do XII Congresso Nacional do PCO.



