Política internacional

O cinismo da grande imprensa contra os muçulmanos

Desta vez, imprensa utiliza a “empatia” para condenar quem apoia a reação dos povos oprimidos pelo imperialismo

Túmulos para as crinças de Minab, no Irã

A imprensa burguesa é uma fonte inesgotável de cinismo, como bem demonstra o artigo Empatia seletiva leva à radicalização, assinado por Lygia Maria e publicado na Folha de S.Paulo em 2 de agosto.

O próprio título já causa estranheza. A empatia pode ter diversas origens: pode ser apenas um afeto ou possuir uma base racional. Neste último caso, não é a empatia que leva alguém a assumir determinada posição; são suas posições que definem suas empatias. Além disso, a palavra “radical” não deveria assustar ninguém. Karl Marx, na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, diz que “ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem”. Ser radical significa ir à raiz dos problemas, em vez de permanecer em suas manifestações superficiais.

Lygia Maria escreve que “a empatia é uma faculdade que amplia experiências, permite compreender vidas diferentes e favorece a cooperação humana. Mas, como mostram as pesquisas em ciência cognitiva desenvolvidas por Fritz Breithaupt, autor de ‘The Dark Sides of Empathy’, a capacidade de penetrar emocionalmente na experiência alheia não possui, em si, direção moral: pode servir à manipulação, à polarização e até à crueldade”.

A autora primeiro elogia a empatia para, logo em seguida, apresentar seu suposto “perigo”. E, obviamente, seu interesse é atacar a esquerda. Na sequência, afirma que a análise de Breithaupt, segundo acredita, “ajuda a entender como parte da esquerda global tem reagido a ataques perpetrados por extremistas muçulmanos e a infrações violentas a liberdades em teocracias islâmicas”.

Lygia Maria poderia ter escolhido como exemplo a direita que demonstra enorme “empatia” pelo assassinato de dezenas de milhares de crianças e mulheres na Faixa de Gaza pela “democracia israelense”. Preferiu, porém, falar das “teocracias islâmicas”. Afinal, por qual dos lados a autora sente empatia?

Terrorismo

Além da esquerda, o alvo da articulista são os muçulmanos, apresentados sistematicamente como terroristas. Mais adiante, escreve que “no atentado contra a parada LGBT em Berlim, o fato de o terrorista ser um radical islâmico recebeu pouca atenção. Nos protestos das mulheres no Irã, a mesma falta de atenção à violência teocrática. Já no massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo, chegou-se a algo próximo de responsabilização das vítimas, que teriam marginalizado muçulmanos por fazerem caricaturas de Maomé”.

Lygia Maria está preocupada com a “violência teocrática”, mas nada diz sobre a democracia laica que bombardeou a casa do aiatolá Khamenei, um clérigo que, apesar de ser o líder iraniano, não era um combatente e, portanto, não constituía um alvo militar legítimo. Além de Khamenei, os muito civilizados democratas assassinaram no bombardeio sua filha, seu genro, sua nora, sua esposa e sua neta de um ano, além de outras pessoas.

No caso do Charlie Hebdo, houve, sim, quem responsabilizasse os cartunistas. O que mais chama a atenção no episódio, entretanto, é a quantidade de pontas soltas deixadas pela polícia francesa, como o documento de identidade que um dos supostos terroristas teria deixado cair, a morte do comissário de polícia Helric Fredou, considerada suicídio, e a ausência aparente de marcas de sangue na execução de um policial caído no chão.

Para Lygia Maria, “trata-se de uma empatia seletiva que esvazia complexidades. É normal que, num conflito, observadores escolham lados. Mas a identificação excessiva com um tende à demonização do outro”. Mas quem estabeleceu que existe uma “identificação excessiva”?

Segundo a articulista, “é nesse sentido que Breithaupt relaciona a empatia com a radicalização: alguém pode identificar-se tão intensamente com um grupo apresentado como oprimido que passa a relativizar ou considerar legítima a violência contra o suposto opressor”.

Acontece que a própria opressão é violenta. Não se pode esperar que o oprimido responda com flores à violência de quem o oprime. Os palestinos, por acaso, não têm o direito de utilizar a violência contra as forças colonialistas de ocupação de “Israel”? É evidente que a resistência dos palestinos é legítima.

A autora prossegue: “no caso, o inimigo é o imperialismo ocidental. O extremismo religioso é omitido porque países islâmicos são vistos como oprimidos. Criticá-lo é beneficiar o adversário e, assim, vira islamofobia. Causas caras à esquerda, como os direitos das mulheres e dos homossexuais e a liberdade de expressão, ficam em segundo plano diante da empatia seletiva”.

A articulista vem falar em direitos das mulheres enquanto “Israel” não passa um dia sem matar mulheres em Gaza ou submetê-las às condições mais degradantes possíveis nas masmorras sionistas.

E o Irã, apresentado como um país de “extremistas islâmicos”, qual país invadiu nos últimos 200 anos sem ter sido provocado? Nenhum. O imperialismo “civilizado”, por sua vez, promoveu duas guerras mundiais, lançou duas bombas atômicas sobre populações civis e barbarizou na Coreia, no Vietnã, no Afeganistão, na Líbia, na Iugoslávia, na Somália e em inúmeros outros países.

Não se trata de que “países islâmicos são vistos como oprimidos”. Eles são, de fato, oprimidos pelo imperialismo.

“Israel” ataca o Líbano, a Síria e o Irã, sempre sob as bênçãos do imperialismo. O Irã sofre há décadas um bloqueio criminoso. No começo deste ano, foi atacado por uma coalizão de países em uma guerra de agressão que, além de ilegal, foi completamente covarde.

O imperialismo lançou dois ou três mísseis Tomahawk contra uma escola de crianças, assassinando mais de 170. Tratou-se de um ataque de precisão contra um alvo cuidadosamente escolhido. Enquanto isso, na imprensa “civilizada” e “empática”, o Estadão publicava um editorial intitulado Ninguém vai chorar pelo Irã.

Depois de passar praticamente todo o artigo estigmatizando os muçulmanos, Lygia Maria reserva duas linhas para fingir imparcialidade: “mecanismo similar se dá em parte da direita que passa a ver imigrantes e muçulmanos como inimigos de forma generalizada”.

É muito cinismo. O artigo não passa de propaganda para encobrir os crimes cometidos contra os povos muçulmanos e apresentar como “terroristas” e “radicais islâmicos” aqueles que, depois de décadas de opressão, resolvem reagir.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.