Ilusões, ilusões...

“Processo penal já!”: quem disse isso, fascistas ou “comunistas”?

Novamente os "comunistas" caem no conto da carochinha de que as instituições irão salvar os oprimidos

Julgamento! Punição! Prisão! Eis o que gritam aqueles que apelam para as instituições do Estado capitalista, controladas pelos elementos mais reacionários da burocracia burguesa. Tradicionalmente ouvíamos esse tipo de reivindicação vinda da direita. Hoje, porém, a esquerda que se integrou completamente ao regime adotou a mesma política.

Inclusive a esquerda que acha que é comunista e revolucionária. O coletivo “feminista classista” Ana Montenegro, ligado ao PCB, publicou uma nota de repúdio contra as falas de Jair Bolsonaro a respeito das menores venezuelanas, cujo escândalo tomou conta de parte do noticiário nacional nos últimos dias.

Na nota, o coletivo diz que Bolsonaro “precisa ser levado para os tribunais nacionais e internacionais” e “precisa ser julgado por aliciamento de menores”. Exatamente o mesmo discurso, quase idêntico, das ONGs da Open Society e da Fundação Ford, financiadas pelos Estados Unidos.

Quantas vezes não ouvimos as mesmas reivindicações contra figuras africanas, asiáticas, latino-americanas e do leste europeu? As ONGs ligadas ao imperialismo pediam os mesmos julgamentos nacionais e internacionais a Slobodan Milosevic, Saddam Hussein, Muammar Kadafi e pedem hoje a Bashar al-Assad, Vladimir Putin e Daniel Ortega.

Mas esse é o papel dessas ONGs. Utilizar casos, às vezes inventados, às vezes reais, para que haja uma intervenção internacional imperialista nesses países a fim de derrubar seus regimes. Ou, ao menos, para que as instituições “democráticas” desses países ─ embora na maioria das vezes sejam acusadas de estarem controladas pelos mesmos que elas acusam ─ façam alguma coisa pela “justiça”.

O problema é que o pedido em questão vem de uma organização que se reivindica comunista. Assim, é um contrassenso apelar para instâncias institucionais na maioria dos casos ─ como este em questão ─, mesmo que tente fingir que não acredita “que será simplesmente a justiça burguesa que modificará a situação de violações que sofre crianças e mulheres no Brasil e no mundo”. “Porém, acreditamos que é inaceitável que Bolsonaro não responda legalmente por todos os crimes que já cometeu” ─ sim, essa é a parte mais importante de seu raciocínio.

As instituições burguesas, que, particularmente após o golpe de 2016, estão totalmente controladas, senão pelo bolsonarismo, por uma direita ainda mais golpista, fariam alguma coisa contra Bolsonaro no interesse das crianças vítimas de abuso sexual? E ainda mais, fariam isso por causa da exigência de uma organização “comunista”?

O PCB cai, pela enésima vez, na mesma armadilha que a esquerda pequeno-burguesa e parlamentar sempre tem caído: apelar para que seus opressores os salvem do “fascismo”. Vamos, Judiciário, ONU, façam alguma coisa contra a barbárie! Tragam a democracia de volta ao nosso País! Bolsonaro nunca mais!

Eis as ilusões idealistas dos “comunistas”. Abandonaram a independência de classe há muito tempo. Dirão que é sectarismo criticá-los por isso, porque há casos em que é natural uma organização comunista apelar para as instituições burguesas. Mas esses casos são muito específicos, além de necessariamente virem acompanhados de uma mobilização das bases.

A ferramenta da classe trabalhadora e dos oprimidos de um modo geral não são as instituições burguesas, sejam elas as judiciais, nacionais ou internacionais. A ferramenta é a organização e a mobilização dos oprimidos. Tal como foi comprovado inúmeras vezes nos últimos anos, o Judiciário ou a ONU não farão absolutamente nada concreto contra Bolsonaro e a favor dos oprimidos.

Os únicos em que os comunistas e a esquerda em geral podem confiar em sua luta contra a opressão é precisamente nos oprimidos. Nos trabalhadores, em primeiro lugar, e secundariamente nos camponeses, nas mulheres, nos negros etc.

Essa crença nas instituições burguesas é um obstáculo para essa mobilização popular. Por isso mesmo não vemos nada de concreto nas ruas contra Bolsonaro, porque a esmagadora maioria da esquerda tem o mesmo pensamento ilusório do PCB, de que as instituições irão nos salvar.

Além do mais, uma luta separada da luta geral jamais terá qualquer efeito prático. Exigem os “comunistas” uma medida contra o assédio sexual infantil por parte de Bolsonaro e seu governo ─ ou a falta de políticas do governo contra a prática ─ como se, mesmo que isso fosse acatado, representasse alguma vitória popular na luta contra a direita, a burguesia e o fascismo.

As reivindicações parciais devem ser acompanhadas pela luta geral pelo Fora Bolsonaro, o que não pode ser feito através das instituições ─ como sempre acreditou o PCB, quando, por exemplo, assinou manifesto conjunto com os partidos da direita pelo impeachment de Bolsonaro, e no que deu?. O mecanismo dos trabalhadores é sua organização e mobilização independentes da burguesia. Enquanto a esquerda acreditar que alguém que não seja ela mesma e aquelas a quem ela representa salvará a humanidade, e ficar sentada no sofá como um mero espectador das lutas políticas, nada acontecerá de bom.

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