Enquanto a crise do coronavírus avança de forma descontrolada pelo país, governos se omitem de aplicar medidas reais para proteger a população, organizações dos trabalhadores também se omitem e se escondem em medidas ainda mais inócuas, como pedir a parlamentares para salvarem os trabalhadores, a crise econômica se aprofunda refletindo processo de demissões em massa diariamente.
Frente a este cenário, a burguesia age para manter seus privilégios, sendo a arma do momento a “ideologia” da união da sociedade contra a pandemia. A campanha se traduz no seguinte slogan “não podemos politizar a crise da Covid-19”. Uma mera peça de propaganda política que a esquerda nacional, faz questão, de avalizar.
A campanha surgiu desde o início da crise, ainda fora do país, pois essa é uma jogada velha e muito utilizada pela burguesia internacional. Ainda no começo de fevereiro, quando a China ainda era o pico da pandemia, diversas vozes pelo mundo reagiram aos ataques do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, acompanhados pelo seu chefe D. Trump, ao povo chinês – dizia ser “o vírus chinês”, acusando o governo de ocultação de informações, entre outras ignomínias – afirmando que não se deveria politizar a discussão, pois o momento é de união e cooperação mundial entre os povos e governos, como autoridades diplomáticas chinesas afirmaram em resposta.
Na mesma linha segue o diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Thedros Adhanom que, no último dia 09/04, afirmou: “Minha mensagem curta é: por favor, adotem a quarentena na politização da COVID. Devemos trabalhar acima de todos os partidos políticos, de todas as linhas religiosas. Não devemos perder tempo apontando dedos.” Declarando ainda ser a Covid-19 o “inimigo número um” e que EUA, China e outros países deveriam se unir para enfrentar esse inimigo perigoso.
A campanha para despolitizar o debate em torno da crise do coronavírus e “unir o mundo” se espalhou, chegando, é claro, também ao Brasil. Aqui temos destacados propagandistas dessa política, como o senador David Alcolumbre que disse “não é momento para ataques à imprensa e a outros gestores públicos…”. Já Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, afirmou “não é hora de politizar ou polemizar” sobre discurso de Bolsonaro em cadeia nacional no dia 24/03. Há ainda as figuras de João Dória, do PSDB, governador de São Paulo, que diz “o Brasil precisa de união e não ódio” e ainda “enquanto alguns preferem desprezar vidas, não é racional fazer política com saúde, com a vida das pessoas…”. E, incrivelmente a “grande solução” contra o coronavírus chegou a ninguém menos que Jair Messias Bolsonaro, que em pronunciamento no dia 31/03 disse “união de todos em um grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”. Além de seu ministro da saúde, Luís Henrique Mandetta, que atacou Dória por “politizar” o uso do medicamento cloroquina.
Na esquerda, também não poderia faltar posições pela dita “união nacional”, como a nota pública assinada por Fernando Haddad, Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Flávio Dino, Juliano Medeiros e outros, em que afirmam: “…Precisamos de união e entendimento para enfrentar a pandemia, não de um presidente que contraria as autoridades de Saúde Pública e submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários. Basta!”.
Qual seria, então, a relação entre o “chamado à união nacional” e a pedido à despolitização sobre a crise. As duas proposições são irmãs siamesas da mesma política, um falso consenso sobre as crises de saúde e econômica para permitir que a burguesia atravesse a crise ilesa, sendo necessário para isso intensificar os ataques aos trabalhadores, implantando regimes cada vez mais ditatoriais, se necessário.
Essa campanha vem sendo tocada pela burguesia internacional imperialista, que se antecipa aos impactos da grave crise econômica que está escalando, colocando a economia mundial em recessão, e cai como uma luva para a política capituladora da esquerda pequeno burguesa, que no momento de aprofundamento da crise, ao invés de buscar se apoiar nas massas oprimidas e organizar o levante da classe operária, busca “refúgio nos braços” da direita. A mesma direita golpista, que jogou o país nas mãos da extrema direita carniceira e dos militares entreguistas, se agarrando a um regime político decadente, buscando preservar a qualquer custo as migalhas do regime que lhes sobraram.
Assim, é fundamental deixar claro que, a campanha lamuriosa de “é preciso despolitizar” a crise do coronavírus, é uma jogada da burguesia e visa impedir o debate político, as reivindicações da população, os protestos contra o descaso, falta de medidas reais de combate à proliferação do vírus, à crise econômica e ao aumento da repressão dos governos. A campanha pela despolitização, que dá como contra proposta a “união nacional”, na prática, tem a finalidade de fazer o povo “comer calado” todos os ataques que a burguesia vem aprofundando e, inclusive, aumentando a violência policial e supressão de direitos democráticos.
A população não tem que abrir mão de seus direitos, muito menos os direitos políticos. É exatamente no momento de crise, em que vemos pacotes de trilhões de reais sendo aprovados, jogando dinheiro do povo nas mãos da grande burguesia, que a luta política se mostra mais que necessária, se torna, na verdade, a única forma de conseguir algo que não seja, abaixar a cabeça e morrer de trabalhar ou, para aqueles que podem, se isolar em casa e esperar a hora da morte chegar.
Assim, é preciso sim lutar por uma solução real para a crise sanitária, com distribuição de EPIs, garantia de leitos para os doentes, proteção integral aos trabalhadores da saúde e demais categorias de atividades essenciais, garantir o rendimento integral das famílias etc. E isso só se faz por uma luta política e organizada, atacando o programa da direita golpista e fascista.
Conheça aqui as propostas do PCO para a crise da Covid-19.




