A maioria da esquerda não entende a contradição, o movimento dialético, que compõe o desenvolvimento das forças produtivas. É a queima de combustíveis fósseis, ou o desenvolvimento industrial e de tecnologias – que poluem –, que permitirão que a humanidade consiga desenvolver fontes cada vez mais limpas de energia.
Em vez disso, o que se vê é um pensamento de cunho religioso que simplesmente demoniza o uso de combustíveis fósseis, como no artigo O amanhecer de um mundo eletrificado, de Kate Mackenzie e Tim Sahay, publicado no sítio Revista Movimento nesta segunda-feira (15).
Os autores iniciam dizendo que “petróleo e gás — a base dos sistemas globais de energia e produção — não estão mais disponíveis de forma confiável onde e quando são necessários a preços suportáveis. Duas guerras em quatro anos desencadearam uma mudança permanente no regime de risco. Não importa o quão desigual e incerta seja a reação imediata dos mercados e governos, a lição do atual choque energético é inevitável: as condições geopolíticas que antes estabilizaram a logística baseada em carbono do mundo moderno não podem mais ser garantidas, e a eletrificação oferece uma saída estrutural da instabilidade.”
A guerra de agressão dos EUA-“Israel”, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde flui cerca de 20% do petróleo mundial, mostrou, além da importância crucial para a produção de energia, esse produto envolve outras cadeias produtivas igualmente essenciais.
O segundo parágrafo é obrigado a reconhecer isso quando diz que “após dois meses de guerra e interrupção na cadeia de suprimentos, a situação está se tornando desesperadora em grande parte da Ásia e da África e se agitando por toda a Europa e as Américas. Muitos países importadores de petróleo e gás agora estão sendo forçados a fazer triagem: quanto GNL vai para geração de energia em comparação com usinas de fertilizantes? Guerras de lances farão com que aqueles sem bolsos fundos paguem com fome aumentada, salários perdidos e economias em retração. Não é apenas o petróleo sendo afetado pela guerra. Do gás de cozinha aos fertilizantes, do enxofre ao hélio, a guerra expôs mais uma vez os fundamentos materiais da economia global e sua teia de interdependência.”
Mais ou menos 80% de cada barril de petróleo vira energia. O restante é utilizado como matéria-prima fundamental para a indústria petroquímica fabricar milhares de produtos utilizados no dia a dia. O petróleo está nas embalagens, nos remédios, nas roupas, nos computadores, nos celulares e também nos carros elétricos.
Apesar de o petróleo ser fundamental para que no futuro se consiga produzir energias “limpas”, existe uma esquerda aloprada, e uma parte remunerada por organizações não governamentais (ONGs) estrangeiras, que não quer que o Brasil prospecte ou explore suas jazidas, o que é um verdadeiro absurdo.
A ‘virada’ energética
Os autores do artigo alegam que “no cenário mais benigno pré-choque, a eletrificação em massa, a geração de energia solar e eólica, e o armazenamento em baterias já estavam se tornando competitivos com os combustíveis fósseis. Veículos elétricos representaram cerca de um quarto de todas as vendas de carros novos. Bombas de calor e placas de indução estavam ganhando popularidade. Essa combinação de energia limpa, armazenamento e eletrificação permite que os países reduzam sua dependência de um fluxo constante de combustíveis importados.”
Essa energia está muito longe de ser limpa. Hectares de solo cobertos com painéis solares criam um tremendo impacto ambiental. Ao contrário do que muitos pensam, as usinas solares mudam a temperatura local. Os painéis absorvem a luz solar para gerar eletricidade, mas também retêm calor. Estudos mostram que grandes usinas em áreas áridas criam um “efeito ilha de calor solar”, elevando a temperatura do ar ao redor das placas em até 3 °C a 4 °C durante a noite.
Abaixo das placas, cria-se uma sombra permanente ou semipermanente. Em desertos ou biomas de caatinga/cerrado, as plantas nativas evoluíram para tolerar e precisar de sol pleno. A mudança drástica na luminosidade mata espécies vegetais rasteiras, o que quebra a base da cadeia alimentar de insetos e pequenos roedores.
A energia eólica, além de ser intermitente, produz barulho e incomoda quem vive em suas imediações além de espantar a vida selvagem. Sem falar das pás de fibra de vidro, que podem durar centenas de anos após o descarte.
Os veículos elétricos, na maioria dos países, se reabastecem em “tomadas sujas”, abastecidas por eletricidade produzida em termelétricas. Essas tecnologias, obviamente, devem continuar a ser pesquisadas, mas estão longe de serem limpas.
O artigo está apostando que o atual cenário de instabilidade selou o destino dos combustíveis fósseis ao destruir sua previsibilidade. A eletrificação e a infraestrutura verde surgem como a única saída estrutural viável para garantir a segurança econômica e a soberania dos países no novo cenário global.
A realidade é que ainda estamos distantes da tal “saída estrutural”. Alternativa mais promissora, na verdade, são os Pequenos Reatores Modulares na Rússia, que hoje integram os modernos navios quebra-gelo, que podem operar durante 7 anos sem precisar reabastecer.
Em vez de se construir uma usina civil gigantesca, os reatores são fabricados de forma compacta em uma linha de montagem industrial e levados prontos (de navio ou trem) até onde irão operar.
Além disso, o design compacto permite sistemas de resfriamento que funcionam por física natural (gravidade e convecção), e independem de energia elétrica externa para evitar um derretimento em caso de falha generalizada.
Mas, é claro que aqueles que só vêm problema no petróleo não vão querer nem ouvir falar em energia nuclear, por mais que o setor esteja se desenvolvendo e ficado cada vez mais seguro.



