Frente com Bolsonaro

Não é papel da esquerda reivindicar “paternidade” da esmola de R$ 600

Setores da esquerda aproveitam a crise para forçar Bolsonaro a aceitá-los no governo e fazer demagogia como o povo.

Após à aprovação do projeto de lei, pela câmara de deputados federal, que cria o auxílio emergencial por conta da pandemia da Covid-19, na última sexta (27/03) partidos da esquerda e lideranças sindicais não só comemoram o tal auxílio, como disputam a “paternidade” do projeto, que dará uma esmola aos trabalhadores mais pobres.

O projeto, aprovado no Senado nesta segunda (30/03), prevê um auxílio de 600 a 1.200 reais, não cumulativo com outros benefícios. Apesar de ser correta a proposta de conceder um auxílio à população que está sem rendimento por conta das crises de saúde e econômica e, ser um valor superior à indescritível proposta anterior de Bolsonaro e Paulo Guedes e seus 200 reais, na verdade, a proposta aprovada não passa de uma esmola, pois nem os 600 reais, nem os 1200 – para o caso de mãe que cria os filhos sem o pai – garantem o sustento das famílias. Principalmente, num cenário em que quase metade da força de trabalho do país não possui emprego formal, dependendo de trabalhos precários, que com a paralização da economia por conta da quarentena, ficam imediatamente sem qualquer rendimento.

Outro ponto essencial que denuncia o engodo é que, o auxílio para milhões de trabalhadores soma 45 bilhões, já o auxílio a banqueiros ultrapassa os 1,2 trilhão de reais, um montante gigantesco a um grupo de 6 famílias de banqueiros que controlam o oligopólio local. Um verdadeiro escárnio.

Não enxergando essa realidade que se põe para a maioria da classe trabalhadora, a esquerda está “soltanto fogos” e disputando, inclusive com a direita e com Bolsonaro, quem foi criador do projeto. O presidente da CUT, por exemplo, Sérgio Nobre, declarou em Nota que “Foi uma importante vitória da CUT e do fórum das centrais sindicais” e ainda “…no dia 17 de março, entregamos o documento com a nossa proposta nas mãos do deputado federal Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que garantiu seu apoio. Fizemos um trabalho importante de conversar com parlamentares de todas as bancadas. Fomos ouvidos”.

A narrativa do trâmite citado por S. Nobre vai de encontro à narrativa do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro que declarou em vídeo no Facebook a seus seguidores “Aquela ajuda inicial para os informais, de R$ 200, que é muito pouco, conversei com Paulo Guedes, e ele resolveu triplicar esse valor”.

Outros deputados da esquerda seguem na briga pela paternidade como a bancada do PCdoB. A dep. federal Marcivânia Flexa afirmou que “a aprovação representa derrota do governo Bolsonaro que queria uma renda mínima de apenas R$200”. O deputado Enio Verri afirmou que o projeto foi uma iniciativa conjunta do PT, PCdoB, PSOL, PDT, PSB e Rede. O próprio deputado, em vídeo nas redes sociais, declara que o projeto do grupo era garantir 1 salário mínimo.

A ridícula disputa entre partidos da esquerda e da direita, busca esconder o cenário real para a população. A auxílio foi resultado de uma ampla negociação entre o congresso, comandado pela direita golpista, e o governo Bolsonaro. A proposta inicial de Bolsonaro e Guedes, de 200 reais, foi superada por uma proposta encabeçada por Rodrigo Maia de 500 reais, que já quer se colocar na “corrida” presidencial para 2022. Após negociação com Bolsonaro e a equipe econômica, houve o recuo dos congressistas com uma decisão anterior, de 11/03, que aumentou o limite para acesso ao BPC de ¼ do salário mínimo para metade do salário mínimo em renda per capita por família, jogando o novo limite para o próximo ano em acordo com o governo. Assim, abriu-se o caminho para Bolsonaro fazer demagogia com a população elevando a proposta da câmara para 600 reais.

A negociação expõe o fato mais grave, o que é denunciado por este diário há tempos. Amplos setores da esquerda trabalham não para por fim ao governo Bolsonaro, o qual no início da mesma semana quis deixar milhões de trabalhadores sem salário por até 4 meses com a MP 927, que pede quase que diariamente que os trabalhadores saiam da quarentena e não se preocupem com a exposição ao coronavírus, essa esquerda se dispõe a trabalhar em conjunto com ele, para fazer parte do governo Bolsonaro, como se fosse possível realizar algum benefício real para o povo com Guedes, Weintraub, Rodrigo Maia e Bolsonaro. Essa é aplicação final da proposta da Frente Ampla tão propalada na esquerda, forçar Bolsonaro a aceitá-los no seu governo.

Não só, não é papel da esquerda fazer uma disputa demagógica, de claros fins eleitorais, sobre ações do governo, como seu papel deveria ser realizar uma oposição de fato ao governo, impedindo que este continue atacando os trabalhadores, destruindo as ferramentas do Estado que servem à população, não só propondo medidas que realmente resolvam o problemas dos trabalhadores, mas também fazer a integração dessa população na política nacional organizando-a, mobilizando e motivando-a lutar contra um governo de características fascistas.

Assim com é dito e repetido diariamente pela população, a esquerda precisa se aproximar, sair dos gabinetes e ouvir os anseios do povo. Não sendo possível negar, por exemplo, que a palavra de ordem mais reivindicada e bradada pela população é o Fora Bolsonaro.

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