Fracasso garantido

Aldo Fornazieri oferece a receita Corbyn para a esquerda brasileira

É preciso uma política independente da esquerda, que efetivamente lute contra os golpistas

O cientista político e professor, Aldo Fornazieri, publicou artigo nessa quarta-feira (18) com o título de “Os rumos das esquerdas e problemas de hegemonia” em que procura apresentar uma receita para o sucesso eleitoral da esquerda no próximo período.

No fundamental, o autor atribui os problemas da esquerda e o possível fracasso nas eleições a uma estratégia errada, que segundo ele deveria ser ajustada pelos partidos que compõem e esquerda eleitoral (PT-PCdoB-Psol) e até mesmo o que ele chamada de centro-esquerda (PDT e PSB) que na realidade são partidos burgueses a essa altura muito comprometidos com a direita golpista.

Para mostrar um possível fracasso eleitoral da esquerda, Fornazieri aponta algumas pesquisas recentes com a de que a operação Lava Jato teria, segundo o DataFolha, 81% de aprovação. O autor levanta também a aprovação de Sérgio Moro, que teria, de acordo com o mesmo instituto, 53% de avaliação positiva.

A conclusão do artigo é a de que a esquerda – “as esquerdas”, segundo o seu termo – estaria errando na estratégia de se colocar contra o que ele chama de “valores” morais e crenças alastrados entre a população.

Antes de entrar em tal argumento, no entanto, é necessário fazer a ressalva sobre os próprios resultados da pesquisa. Acreditar que a Lava Jato e Moro têm tanta popularidade é uma ingenuidade muito grande. O próprio Fornazieri nos fornece argumento contra isso ao afirmar, mas ignorar na sua argumentação, que a maior parte do povo está a favor da liberdade de Lula, segundo esses mesmos órgãos de pesquisa. Como seria possível tamanha contradição, se Lula foi preso pela Lava Jato? A resposta é simples: o resultado da pesquisa é falso, ou na melhor das hipóteses, são direcionados para que apareça um resultado do interesse da burguesia golpista.

Mas se não quisermos ficar apenas nas pesquisas, é preciso levar em consideração a impopularidade candente da direita golpista, que a cada dia tem mais dificuldade em mobilizar suas bases. Em contrapartida, a demonstração de apoio a Lula e a repulsa a Bolsonaro e ao golpe é contagiante. É preciso levar em consideração isso muito mais do que pesquisas dos órgãos golpistas.

Porém, a título de argumentação, levaremos em consideração a preocupação eleitoral de Fornazieri. Nesse sentido específico, não pelos mesmos motivos que ele, concordamos que a esquerda tende a um fracasso retumbante em 2020 e 2022, caso a situação política no País não encontre uma reviravolta nas ruas.

Segundo o autor, a receita para se evitar tal fracasso seria se aproximar dos valores morais e crenças ideológicas que estariam alastradas na população, uma delas o problema da corrupção. Diz o professor: “A repulsa à corrupção é hoje um valor alastrado nas sociedades em geral e no Brasil em particular. As esquerdas perderam a batalha em torno deste valor e parece que se recusam em tentar recuperar esta bandeira na luta contra a direita. A rigor, as esquerdas estão perdendo a luta pela hegemonia porque não promovem uma eficiente luta em torno de valores, crenças, visão de mundo e ideologia.”

Fica claro que a receita seria a adoção, que nós preferimos chamar de adaptação, pela esquerda à política da direita. Foram justamente esses “valores” que ele coloca como se fossem universais que fizeram a esquerda chegar onde está e a direita ser bem sucedida no golpe e no atual estágio bolsonarista. O que Fornazieri propõe é que a esquerda reforce a ideologia da direita como forma de “ganhar hegemonia”  como ele afirma.

Essa ideologia não é universal tampouco se trata de um valor impregnado na sociedade. Afirmar isso é ignorar a propaganda política, a campanha de calúnias, o bombardeio ideológico feito pela direita em torno dessas ideias cujo objetivo era derrubar o governo do PT e atacar os direito do povo.

A adoção desses valores e ideologia só pode resultar no fortalecimento da direita. É o que faz Rui Costa na Bahia ao defender a privatização e aprovar a reforma da Previdência estadual e o que fez a maior parte dos deputados da esquerda (PT-Psol e PCdoB) ao aprovarem o pacote anti-crime de Moro.

O professor continua: “Se as esquerdas quiserem recuperar terreno até 2022 precisam se reposicionar em relação a diversos temas: valores morais, combate à corrupção, ética na política, transparência, segurança pública, crise e emergência ambiental, privilégios no setor público nos três poderes, sonegação fiscal, distribuição da carga tributária etc.” A receita de Fornazieri é que a esquerda adote o programa da direita.

A eleição na Grã Bretanha deveria servir de exemplo para a esquerda eleitoral brasileira. Corbyn, até pouco tempo atrás favorito, passou a adotar cada vez mais um programa direitista principalmente relacionado ao Brexit. Foi derrotado pelo setor ultradireitista do Partido Conservador que ao contrário dele procurou – sempre com a demagogia típica da direita – apresentar um programa decidido contra a União Europeia. Ao tentar se adaptar à política dos setores mais conservadores de seu partido, adotando um programa conservador, Corbyn foi derrotado.

Esse é o destino da esquerda brasileira que se esforça por adotar a política da direita golpista. A receita de Fornazieri de adoção dos “valores morais” da direita é o caminho para o fracasso. Essa política está representada pelos esforços em estabelecer a chamada Frente Ampla com setores da direita que essa esquerda quer apresentar como sendo mais “democráticos” que o Bolsonarismo.

Outra aspecto importante dessa política, que foi apresentado também por Rui Costa, é a “pacificação” do País e o distanciamento da polarização política. O conteúdo programático disso está claramente representado pelas ideia de Fornazieri e pela política de Rui Costa, Marcelo Freixo e cia.  Enquanto isso, a extrema-direita ocupa cada vez mais espaço.

A única receita possível é a luta contra a direita golpista, nas ruas. É um programa claro, próprio da esquerda, que se contraponha claramente aos “valores e ideologia” da direita e que aponte um caminho não de pacificação mas de derrota do golpe.

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