Moro é uma peça fundamental do golpe. Desde o impeachment de 2016 até a fraude eleitoral de 2018, a descarada pilantragem jurídica deste indivíduo foi crucial nos momentos mais críticos para os golpistas.
Até mesmo agora, sua presença no poder é crucial para compor o pouco que resta da muito precária aparência de seriedade de um governo de malucos, como bem definiu o ex-presidente Lula.
Aparência aos olhos dos direitistas fanáticos, bem entendido. Fascistas produzidos pela burguesia nestes últimos anos, que insistem ainda hoje em inflar bonecos com a cara do Moro em praças públicas, e que se prestam a dar a residual sustentação popular que Bolsonaro ainda possui.
Mas a questão é que, se Moro é apenas uma peça, a imprensa burguesa representa o próprio motor da máquina golpista. A grande impulsionadora e mobilizadora da extrema-direita brasileira.
Quem não se lembra das capas de Veja condenando Lula e Dilma como protagonistas de macabras histórias de corrupção na Petrobras? Um verdadeiro folhetim semanal desfiando um verdadeiro roteiro de novela, que nem mesmo toda a máquina acusatória da República Fascista de Curitiba foi capaz de levantar uma única prova minimamente convincente?
A mesma revista que vinha às bancas dar um “Tchau Querida” após o impeachment golpista, literalmente “vendendo” a ideia de que a absurda queda da Presidenta abriria ao Brasil uma “chance histórica de fazer uma limpeza inédita na vida pública”.
E a Folha? O esquisito jornal “esquerdista” da burguesia, era mestre em acusar Lula com manchetes dignas de figurarem em peças de uma ação penal.
Na verdade, “denúncias” mais bem feitas do que as do próprio Ministério Público. Com gráficos, esquemas e toda uma história feita sob medida para destruir qualquer opinião pública “bem pensante” de classe média em favor do ex-presidente.
Ótimas matérias de propaganda (burguesa), à parte o fato de serem obras da mais descarada ficção, hoje esquecida, que nem mesmo a inquisição encabeçada pelo Mussolini Moro conseguiu comprovar.
Isto sem esquecer do autor do infame “País dos Petralhas”, Reinaldo Azevedo, que nos idos de 2015, por exemplo, tinha a cara de pau de acusar o PT de querer instituir uma ditadura golpista ao estilo do Vargas de 1937! Vejam só.
A muito bem paga loucura de Reinaldo Azevedo foi capaz de inventar que o PT estava por trás de um novo “Plano Cohen”, aquele em que Vargas denunciava um plano comunista de mentira para instituir o Estado Novo. “Assim como Getúlio tinha propósitos golpistas ao dar curso àquela farsa, os petistas têm propósitos golpistas ao dar curso a esta”.
Existe coisa mais tipicamente direitista do que o cinismo farsesco de acusar as vítimas de cometerem os próprios crimes de que são alvo?
E para quem não se lembra, vai aqui mais um trecho do nosso Reinaldo Azevedo, a verve golpista no seu grau mais puro: “Como? O PT sempre combateu a corrupção? Inclusive nos 12 anos em que a quadrilha operou na Petrobras? A propósito: além do Reinaldo Azevedo, quem mais está querendo privatizar a estatal? Estou enganado, ou os petistas estão tentando arrastar os trabalhadores da Petrobras em sua pantomima?”
Ou seja, nestes poucos exemplos vemos com nitidez todo o intragável discurso direitista que dominou a classe média golpista brasileira no último período.
Toda a propaganda que preparou e alimentou a aventura golpista da burguesia, e que acabou desaguando no esgoto a céu aberto que é essa fraude de Bolsonaro no poder, tudo foi levado avante como um grande empreendimento capitalista da imprensa burguesa.
Veja, Folha, Isto é, Estadão, Globo, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira etc são os grandes responsáveis por moldar nos mínimos detalhes, com todo o lixo golpista que vomitaram por anos a fio, as mentes histéricas da classe média brasileira contra a esquerda.
Este foi o processo que, ao final, deu à luz ao monstrengo abjeto e viscoso que vemos hoje transformar a comitiva presidencial em uma mula de tráfico de cocaína.
A questão central é que não existe absolutamente nada que não se mova motivado por algum tipo de interesse. Nem pessoas comuns nem as grandes empresas, nem mesmo os grandes movimentos do povo oprimido, ninguém age sem ter interesses em vista.
Em resumo, imprensa nunca é imparcial. Pode até ser cínica, mas imparcial jamais.
Se é imprensa burguesa, ela defende o capitalismo, sistema brutal de opressão e exploração de milhões de pessoas. É inevitável: esta imprensa sempre estará “do lado de lá” da luta de classes. É e será sempre território inimigo.
Neste contexto, o que toda a classe trabalhadora tem que ter em mente – militância, movimentos sociais, partidos de esquerda – é que, apesar de todas as inúmeras vantagens para a luta popular das revelações de Gleen Greenwald, que de fato colocam em xeque a operação Lava-Jato, o Intercept em si também é um empreendimento capitalista, ainda que de porte infinitamente menor do que as empresas da imprensa francamente golpista.
Colocar as provas de toda sujeira dos bastidores da Lava Jato nas mãos de golpistas, ainda que indiretamente, por meio de acordos editoriais, pode ser um erro fatal. Gera uma daquelas contradições insolúveis: num mesmo campo estarão os interesses inconciliáveis da classe opressora e da classe oprimida. E nestas condições, normalmente quem perde é o povo.
É Óbvio. Não vamos derrotar o golpe nos aliando com golpistas. Não vamos derrubar uma peça golpista – Sérgio Moro e a Lava Jato – nos utilizando do motor da máquina do golpe, a imprensa burguesa.
Seria de uma inocência criminosa pensar – ainda que por um segundo – que do prelo da Veja, Folha, El País, ou da voz errática e contraditória, mas sempre interesseira e mentirosa de tipos como Reinaldo Azevedo, virão as informações, orientações ou mesmo provas que nos ajudem a derrotar o golpe. Nem mesmo vitórias pontuais seguirão estas vias tortas.
No jogo de interesses que necessariamente forma a sociedade humana, a classe operária tem que ter sua própria voz, sua própria força, sua própria organização. Só a imprensa operária tem condições reais de ser a expressão verdadeira da luta contra o golpe burguês, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.
Aliar-se com golpistas – somente porque hoje eles se mostram fortes – é o caminho certo para o esgoto da história, destino inevitável da burguesia e toda a sua corja de bandidos.




