A demissão do ministro da Defesa da Ucrânia, Mikhail Fedorov, provocou manifestações em Quieve e outras cidades e abriu uma nova crise no governo de Volodimir Zelensqui. Fedorov, de 35 anos, ocupava o cargo desde janeiro e era o ministro da Defesa mais jovem da história do país.
Mais de 1.000 pessoas reuniram-se diante da sede do governo ucraniano, segundo relatos divulgados pela imprensa. Houve também protestos em Dnepropetrovsk e outras cidades. Os manifestantes exigiram a volta de Fedorov e parte deles pediu a demissão do comandante-chefe das Forças Armadas, general Oleksandr Sirski.
As manifestações prosseguiram pelo segundo dia consecutivo. Fotografias e vídeos publicados nas redes sociais mostram centenas de pessoas com bandeiras ucranianas e cartazes contra a decisão de Zelensqui. Em Quieve, um grupo permaneceu nas ruas durante a noite e cantou o hino nacional.
Zelensqui atribuiu a demissão ao conflito entre Fedorov e Sirski. Segundo ele, o ministro e o comandante militar não conseguiam trabalhar juntos nem manter comunicação regular sem sua intervenção.
Ao comentar os protestos, Zelensqui declarou: “se eles querem sair às ruas, bom para eles”.
Fedorov respondeu acusando Sirski de “dividir o país” e apoiou os pedidos para que o general fosse afastado. Sirski não respondeu diretamente à acusação. Em uma declaração publicada depois da demissão, agradeceu o trabalho do ex-ministro e afirmou esperar que ele permanecesse no governo.
Medvedchuk acusa Zelensqui
Viktor Medvedchuk, dirigente oposicionista exilado e antigo líder do partido Plataforma de Oposição — Pela Vida, proibido pelo regime ucraniano, afirmou que o conflito principal não é entre Fedorov e Sirski, mas entre o ex-ministro e Zelensqui.
Segundo Medvedchuk, a disputa “não é pelo poder militar, mas pelo poder civil, pela direção geral do país”. Ele acusou Zelensqui de afastar Fedorov para conservar o controle do governo e das verbas movimentadas pelo Ministério da Defesa durante a guerra.
“Para o palhaço sanguinário, recuar agora significa perder definitivamente o poder e entregar a outros os fluxos da corrupção militar”, escreveu Medvedchuk na plataforma Outra Ucrânia.
O oposicionista também declarou que Zelensqui pretende ampliar o controle do Serviço de Segurança da Ucrânia, o SBU, sobre o Ministério da Defesa. Segundo sua versão, o chefe interino do SBU, Evgeni Khmara, substituiria Fedorov.
A indicação ainda não foi confirmada. Outros relatos apontaram o ministro do Interior, Ihor Klimenko, como possível sucessor. O governo ucraniano não havia anunciado oficialmente o novo ministro.
Relações com órgãos apoiados pelo imperialismo
A publicação ucraniana Strana informou que Zelensqui estava descontente com o “jogo político independente” de Fedorov e com suas relações com setores próximos ao Departamento Nacional Anticorrupção da Ucrânia, o NABU, e à Procuradoria Especializada Anticorrupção, a SAPO.
Os dois órgãos contam com o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia e investigaram integrantes do alto escalão do governo ucraniano. Sua atuação permite às potências imperialistas intervir diretamente nas disputas internas do regime.
A revista britânica The Economist tratou Fedorov como um ministro reformista que enfrentava interesses estabelecidos dentro das Forças Armadas e do Ministério da Defesa.
Segundo a publicação, Fedorov determinou uma auditoria que encontrou gastos excessivos de 300 bilhões de grívnias, cerca de US$6,6 bilhões. Ele também submeteu funcionários a detectores de mentira, demitiu os que recusaram ou não passaram pelos testes e transferiu parte das compras militares para licitações abertas.
Fedorov afirmou que as mudanças reduziram em 16% o preço dos projéteis de artilharia. Generais ucranianos, no entanto, acusaram-no de apresentar como próprias medidas que já estavam em preparação antes de sua chegada ao ministério.
Antes de assumir a Defesa, Fedorov comandava o Ministério da Transformação Digital. Nesse cargo, participou da criação do aplicativo estatal Diia e dos programas de produção e compra de drones usados pelas Forças Armadas.
Como ministro da Defesa, aprofundou os vínculos da Ucrânia com a Palantir, empresa norte-americana de coleta e processamento de dados que trabalha para as Forças Armadas e os serviços de espionagem dos Estados Unidos e que é coordenada pelo Mossad.
Conflito com o comando militar
A disputa entre Fedorov e os generais tornou-se pública durante uma reunião realizada no início de julho. Segundo The Economist, o comando militar criticou a compra de mísseis e munições. Fedorov respondeu que suas decisões emergenciais para a aquisição de drones haviam permitido a realização de ataques contra a Crimeia.
O ministro defendia a saída de Sirski, mas não obteve a autorização de Zelensqui. Integrantes do comando militar afirmavam que Fedorov não possuía experiência nas Forças Armadas e tentava aplicar métodos empresariais à condução da guerra.
Pouco antes da demissão, o ministro começou a aplicar um programa que previa elevar para US$7.000 a remuneração mensal da infantaria na linha de frente, criar contratos com prazos definidos e permitir uma desmobilização limitada dos soldados há mais tempo em combate até o final de 2026.
O plano também reservava mais dinheiro para o recrutamento de estrangeiros e concedia um prazo de 100 dias para que cerca de 300 mil soldados registrados como ausentes retornassem às unidades sem punição.
Em 12 de julho, Zelensqui ofereceu a Fedorov o cargo de primeiro-ministro, após anunciar a saída de Iúlia Sviridenko. Fedorov recusou a proposta. O posto foi então oferecido a Serhi Koretski, dirigente ligado ao setor energético.
Caráter das manifestações não está claro
Os vídeos divulgados mostram manifestações contra a demissão de Fedorov em Quieve e outras cidades. Não está claro, porém, qual é a composição política dos atos nem se surgiram espontaneamente ou foram estimulados por setores ligados ao imperialismo.
A cautela é necessária porque o ex-ministro mantinha relações estreitas com organismos apoiados pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Fedorov aprofundou a cooperação militar com a Palantir e recebeu uma cobertura favorável de The Economist, que elogiou suas medidas no Ministério da Defesa.
Assim, embora as manifestações sejam visíveis, ainda não é possível determinar quem as organiza e quais setores políticos estão por trás delas. Também não foi divulgada uma posição oficial dos Estados Unidos, da União Europeia ou da OTAN sobre a demissão.




