História

A farsa chamada seleção argentina – Parte 2

O segundo título argentino passou pelo gol de mão que eliminou a Inglaterra e pelo impedimento que retirou a União Soviética do caminho da semifinal

A patifaria armada para favorecer a Argentina na Copa do Mundo de 2026 não é uma novidade. O chamado “time da FIFA” chegou novamente à final entre erros de arbitragem, violência tolerada e decisões que sempre penderam para o mesmo lado.

Os primeiros títulos argentinos também foram cercados por escândalos. Na primeira parte desta série, o Diário Causa Operária mostrou como a seleção conquistou a Copa de 1978 sob a proteção da ditadura militar. Para eliminar o Brasil, precisava derrotar o Peru por pelo menos quatro gols de diferença. Venceu por 6 a 0.

A farsa chamada seleção argentina — Parte 1

Em 1986, no México, a Argentina não precisou repetir a goleada de Rosário. Contou com um gol de mão nas quartas de final e recebeu na semifinal uma seleção belga que só permanecia no campeonato graças a um impedimento escandaloso contra a União Soviética.

A Copa consagrou Diego Maradona. Também consagrou como folclore uma fraude que decidiu a partida contra a Inglaterra.

Classificação arrancada no fim

A Argentina quase não chegou ao Mundial. Nas eliminatórias sul-americanas, disputou uma vaga contra Peru, Colômbia e Venezuela.

Na penúltima rodada, perdeu por 1 a 0 para os peruanos, em Lima. Entrou na última partida, em Buenos Aires, precisando empatar com o mesmo adversário para assegurar a classificação direta.

O Peru abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo. Pedro Pasculli diminuiu antes do intervalo, mas a Argentina continuava ameaçada de disputar a repescagem.

O empate saiu somente aos 36 minutos do segundo tempo. Daniel Passarella acertou a trave e Ricardo Gareca marcou no rebote. O resultado de 2 a 2 classificou os argentinos por um ponto de diferença.

Carlos Bilardo chegou ao Mundial sob forte contestação. Assumira a seleção depois da campanha de 1982, quando a Argentina perdeu para Itália e Brasil e foi eliminada na segunda fase.

O treinador rompeu com vários jogadores ligados a César Luis Menotti, campeão em 1978, e entregou a braçadeira de capitão a Maradona. A preparação teve disputas internas, críticas públicas e maus resultados em amistosos.

Uma campanha sem brilho

Na estreia, a Argentina venceu a Coreia do Sul por 3 a 1. Maradona sofreu uma série de faltas, mas o jogo também mostrou as características da equipe de Bilardo: marcação dura, provocações e pressão constante sobre os árbitros.

Na segunda rodada, empatou por 1 a 1 com a Itália. Alessandro Altobelli abriu o placar numa cobrança de pênalti e Maradona empatou ainda no primeiro tempo.

A vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária garantiu o primeiro lugar do grupo. A Argentina avançou com duas vitórias e um empate, sem demonstrar a superioridade que depois lhe seria atribuída.

Nas oitavas de final, enfrentou o Uruguai, em Puebla. A partida foi marcada por faltas, discussões e entradas violentas.

Pedro Pasculli marcou o único gol ainda no primeiro tempo. A Argentina venceu por 1 a 0.

Os uruguaios deixaram o México reclamando de perseguição e má arbitragem. Não apontaram um lance tão evidente quanto aquele que decidiria a partida seguinte, mas já denunciavam o tratamento recebido pela seleção de Bilardo.

Um roubo tira os soviéticos do caminho

No dia anterior à vitória argentina sobre o Uruguai, União Soviética e Bélgica disputaram outra partida das oitavas de final.

Os soviéticos tinham feito uma das melhores campanhas da primeira fase. Terminaram invictos, com nove gols marcados e apenas um sofrido. Na estreia, golearam a Hungria por 6 a 0.

A seleção dirigida por Valeri Lobanovski tinha como base o Dínamo de Quieve, campeão da Recopa Europeia poucos meses antes. Era favorita contra a Bélgica.

Os belgas perderam a estreia para o México, empataram com o Paraguai e venceram o Iraque por apertados 2 a 1. Passaram de fase como um dos melhores terceiros colocados.

O jogo ocorreu em 15 de junho, no estádio Nou Camp, em León. Igor Belanov abriu o placar para a União Soviética. Depois do empate belga, o atacante marcou novamente e fez 2 a 1.

Aos 32 minutos do segundo tempo, Jan Ceulemans recebeu a bola em impedimento evidente e empatou. O árbitro sueco Erik Fredriksson confirmou o gol.

A União Soviética estava a poucos minutos da classificação. O gol ilegal levou a partida à prorrogação.

A Bélgica marcou duas vezes no tempo adicional. Belanov completou seus três gols, mas os soviéticos perderam por 4 a 3. A atuação do atacante ajudou a lhe render o prêmio de Melhor Jogador da Europa naquele ano.

Fredriksson passou a ser tratado como persona non grata em Moscou. Quatro anos depois, voltou a prejudicar a União Soviética numa partida contra a Argentina. Na Copa de 1990, Maradona tirou com a mão, sobre a linha do gol, uma bola que entraria. O árbitro sueco não marcou o pênalti. A Argentina venceu por 2 a 0 e se classificou, enquanto os soviéticos foram eliminados.

Fredriksson também trabalhou como auxiliar na final de 1986, entre Argentina e Alemanha Ocidental.

A Bélgica eliminou a Espanha nos pênaltis nas quartas de final e chegou à semifinal depois de duas prorrogações consecutivas. Foi essa equipe que a Argentina recebeu no lugar da União Soviética, uma das seleções mais fortes daquela Copa.

Maradona abre o placar com a mão

Argentina e Inglaterra se enfrentaram em 22 de junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México. O primeiro tempo terminou em 0 a 0.

Aos seis minutos da etapa final, Maradona tentou uma jogada na entrada da área. O inglês Steve Hodge interceptou o passe e mandou a bola para trás.

Peter Xilton saiu do gol para afastá-la. Maradona também saltou, levantou o braço esquerdo e empurrou a bola com o punho.

Os ingleses protestaram imediatamente. Xilton apontou o toque de mão. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser olhou para o auxiliar búlgaro Bogdan Dochev e correu para o centro do campo.

As imagens mostraram Maradona usando a mão de maneira deliberada. Não houve um toque acidental. O argentino levantou o braço para alcançar uma bola que o goleiro retiraria com facilidade.

Maradona correu para comemorar e chamou os companheiros. Anos depois, admitiu que precisava da comemoração coletiva para convencer o árbitro de que o gol tinha sido regular.

Bin Nasser e Dochev transferiram um para o outro a responsabilidade pelo erro. O árbitro disse que esperou uma indicação do auxiliar. Dochev afirmou que a decisão final cabia ao juiz principal.

Em 2022, Bin Nasser levou a leilão, em Londres, a bola usada na partida. Declarou que não viu o toque porque Maradona e Xilton estavam de costas para ele.

O árbitro, portanto, confirmou um gol sem enxergar como ele foi marcado. Nem os protestos de toda a defesa inglesa o levaram a consultar o auxiliar ou interromper a partida.

A diferença no placar

Quatro minutos depois, Maradona atravessou a defesa inglesa e fez o segundo gol. A Inglaterra diminuiu com Gary Lineker aos 35 minutos e pressionou no fim. Julio Olarticoechea ainda desviou um cruzamento que chegaria ao atacante inglês diante do gol.

A partida terminou em 2 a 1.

A diferença foi o gol marcado com a mão. Sem ele, o gol de Lineker empataria o jogo. A partida poderia seguir para a prorrogação ou terminar de outra maneira. A classificação argentina, tal como ocorreu, dependeu da fraude confirmada pela arbitragem.

Um belo segundo gol não conserta o primeiro. Maradona só atravessou uma defesa obrigada a avançar porque a Argentina já vencia graças à mão ignorada por Bin Nasser.

Fraude transformada em glória

Depois da partida, Maradona declarou que o gol tinha sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”.

A expressão transformou uma infração numa façanha. O fato de a partida ter ocorrido quatro anos depois da Guerra das Malvinas ajudou a apresentar a trapaça como uma vingança argentina contra a Inglaterra.

A Inglaterra é uma potência imperialista e ocupa as Ilhas Malvinas. Isso não muda a regra do futebol nem transforma um gol de mão em gol legítimo.

O episódio passou a ser celebrado como demonstração de esperteza. Enganar o árbitro, longe de provocar vergonha, tornou-se parte da exaltação nacional em torno da seleção.

A FIFA ajudou a promover essa versão. Durante décadas, apresentou o jogo como uma das grandes histórias das Copas e tratou o gol de mão como uma curiosidade ligada à genialidade de Maradona.

O que ocorreu no Estádio Azteca foi mais simples: um jogador usou a mão, o árbitro confirmou o gol e a Argentina venceu por exatamente um gol de diferença — se fosse o Brasil, a FIFA seria capaz de anular o título e banir a Canarinho de todas as Copas.

Da Bélgica à decisão

Na semifinal, a Argentina enfrentou a Bélgica que passara pela União Soviética graças a um gol impedido e eliminara a Espanha nos pênaltis.

Os belgas resistiram no primeiro tempo. Maradona marcou duas vezes depois do intervalo e garantiu a vitória argentina por 2 a 0.

A final foi disputada contra a Alemanha Ocidental. José Luis Brown abriu o placar no primeiro tempo, aproveitando uma saída errada do goleiro Harald Xumáquer.

Jorge Valdano ampliou aos 11 minutos da etapa final. Os alemães empataram com Karl-Heinz Rummenigge e Rudi Völler em duas cobranças de escanteio.

Aos 39 minutos, Maradona lançou Jorge Burruchaga entre os defensores. O atacante avançou e marcou o gol da vitória por 3 a 2.

A Argentina conquistou sua segunda Copa do Mundo.

Os três gols da final foram regulares. A vaga na decisão, porém, só veio depois do gol de mão contra a Inglaterra. O adversário da semifinal também chegou até lá graças ao impedimento não marcado contra os soviéticos.

A campanha de 1986 acabou reduzida à exaltação de Maradona. Ficaram de fora a classificação apertada nas eliminatórias, a violência das partidas, a reclamação uruguaia, o roubo contra a União Soviética e o gol ilegal que decidiu as quartas de final.

Em 1978, a Argentina chegou à decisão depois do suspeito 6 a 0 sobre o Peru. Em 1986, passou pela Inglaterra com a mão de Maradona e recebeu uma Bélgica colocada na semifinal pelo “erro” de Fredriksson.

O primeiro título teve o jogo de Rosário. O segundo teve a mão no Estádio Azteca.

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