Coluna

A farsa chamada seleção argentina — Parte 1

A primeira taça argentina, em 1978, veio sob a ditadura militar, depois de um suspeitíssimo 6 a 0 sobre o Peru que eliminou o Brasil

O mundo inteiro comenta a patifaria que favorece a Argentina na Copa do Mundo de 2026. A seleção de Lionel Messi chegou à final cercada por decisões arbitrais escandalosas, adversários prejudicados e uma tolerância que nenhuma outra equipe recebeu durante o torneio.

Na semifinal contra a Inglaterra, os argentinos bateram à vontade, provocaram confusões e contaram com a passividade do árbitro. Foi mais uma partida na qual a violência argentina recebeu tratamento diferente daquele reservado aos seus adversários. A seleção argentina tornou-se, sem qualquer disfarce, o time da FIFA.

O favorecimento, porém, não começou em 2026. A história das conquistas argentinas em Copas do Mundo é marcada por partidas suspeitas, interferência política, erros de arbitragem e episódios que envergonham o futebol.

Esta é a primeira parte de uma série sobre cada um dos títulos mundiais da Argentina. O primeiro deles foi conquistado em 1978, dentro de casa, durante uma das ditaduras mais sanguinárias da América Latina e depois de uma goleada sobre o Peru que permanece como um dos maiores escândalos da história das Copas.

A Copa da ditadura

A Argentina recebeu a Copa do Mundo de 1978 pouco mais de dois anos depois do golpe militar que derrubou Isabel Perón. O país era governado pela junta formada por Jorge Rafael Videla, Emilio Massera e Orlando Agosti.

Milhares de pessoas eram sequestradas, torturadas e assassinadas pelas Forças Armadas. A Escola de Mecânica da Armada, um dos principais centros de tortura do regime, funcionava a poucos quilômetros do Estádio Monumental de Núñez, onde foram disputados vários jogos e a final do torneio.

A ditadura utilizou a Copa para apresentar ao exterior uma imagem falsa do país. O campeonato recebeu investimentos gigantescos, enquanto a repressão militar se espalhava por todo o território argentino.

A FIFA manteve a competição no país e colaborou diretamente com a operação de propaganda dos militares. João Havelange, então presidente da entidade, elogiou os preparativos argentinos e recusou qualquer possibilidade de transferência do torneio.

A seleção argentina passou a representar não apenas o país-sede, mas também o principal instrumento de propaganda esportiva da junta militar. Uma eliminação precoce seria uma derrota política para Videla e os demais generais.

Expulsões e pressão desde o primeiro jogo

A Argentina estreou contra a Hungria e venceu por 2 a 1. Os húngaros abriram o placar, mas a equipe da casa conseguiu a virada. Nos minutos finais, quando a partida já estava decidida, dois jogadores da Hungria foram expulsos.

Na segunda rodada, os argentinos venceram a França por 2 a 1. Depois, perderam por 1 a 0 para a Itália e terminaram a primeira fase na segunda posição do grupo.

O resultado impediu que a Argentina disputasse a segunda fase em Buenos Aires. A seleção teve de jogar em Rosário, mas continuou contando com todo o aparato organizado pela ditadura.

Naquele período, a Copa não possuía semifinais. As oito seleções classificadas eram divididas em dois grupos. Os vencedores avançavam diretamente à final.

A Argentina caiu no mesmo grupo de Brasil, Polônia e Peru. Na primeira rodada, derrotou os poloneses por 2 a 0. Depois, empatou por 0 a 0 com o Brasil numa partida dura e equilibrada.

A classificação seria decidida na última rodada.

A conta estava pronta

O Brasil enfrentou a Polônia antes da partida entre Argentina e Peru. A seleção brasileira venceu por 3 a 1 e chegou a cinco pontos, com saldo positivo de cinco gols.

Quando entraram em campo, os argentinos já sabiam exatamente o resultado necessário. Precisavam derrotar o Peru por pelo menos quatro gols de diferença.

A organização dos horários entregou à equipe da casa uma vantagem evidente. Em vez de disputar as partidas simultaneamente, como ocorre atualmente nas rodadas decisivas, a Argentina pôde jogar conhecendo a conta completa.

O Brasil havia cumprido sua parte. A Argentina precisava de uma goleada. E foi exatamente isso que aconteceu.

O escândalo de Rosário

Antes da partida, Videla e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger visitaram o vestiário peruano. O ditador argentino discursou aos jogadores sobre a suposta fraternidade entre os povos da América Latina.

A presença de Videla no vestiário adversário, minutos antes de uma partida decisiva para o regime militar, já seria suficiente para tornar o episódio escandaloso. Não era uma visita de cortesia. Era o chefe de uma ditadura entrando no vestiário de uma seleção que precisava perder por ampla diferença para garantir a classificação argentina.

O Peru ainda acertou a trave no início do jogo. Pouco depois, a resistência peruana simplesmente desapareceu.

A Argentina marcou duas vezes no primeiro tempo e outros quatro gols depois do intervalo. O resultado final foi 6 a 0, dois gols além do necessário.

O goleiro peruano Ramón Quiroga havia nascido justamente em Rosário, cidade onde a partida foi realizada. Sua origem, por si só, não prova qualquer acerto, mas tornou ainda mais suspeita uma atuação na qual a defesa peruana ofereceu uma facilidade difícil de explicar.

As suspeitas cresceram com as denúncias surgidas posteriormente. Investigações relacionaram a goleada à concessão de um crédito de US$50 milhões e ao envio de 35 mil toneladas de grãos da Argentina ao Peru.

José Velásquez, integrante da seleção peruana, declarou décadas depois que a partida foi vendida e acusou dirigentes e jogadores de participação no acordo.

Em 2012, o ex-senador peruano Genaro Ledesma afirmou que o ditador Francisco Morales Bermúdez negociou o resultado com Videla. Segundo seu depoimento, o acordo também envolveu a entrega de 13 presos políticos peruanos à ditadura argentina, dentro das operações de perseguição coordenadas pelas ditaduras sul-americanas.

Não existe um contrato com as assinaturas dos dois governos estabelecendo que o Peru deveria perder por seis gols. Acertos desse tipo não são registrados em ata. O que existe é uma sequência de fatos: a necessidade argentina de uma goleada, a vantagem de jogar depois do Brasil, a visita de Videla ao vestiário peruano, as relações entre as duas ditaduras, as operações financeiras e os depoimentos posteriores sobre a venda da partida.

A Argentina venceu por 6 a 0 e eliminou o Brasil

A seleção brasileira terminou a Copa invicta. Não perdeu uma única partida, enquanto a Argentina havia sido derrotada pela Itália ainda na primeira fase. Mesmo assim, os argentinos avançaram à final graças ao saldo obtido contra o Peru.

O técnico Cláudio Coutinho chamou o Brasil de “campeão moral” do torneio. A expressão não entregou a taça aos brasileiros, mas resumiu o campeonato: o único time invicto foi eliminado por uma goleada cercada de denúncias e favorecida pela organização dos horários.

Na final, a Argentina enfrentou os Países Baixos no Estádio Monumental. Antes do início, os argentinos criaram uma confusão por causa de uma proteção utilizada por René van de Kerkhof no braço. A discussão atrasou a partida e aumentou a pressão sobre os holandeses.

Mario Kempes abriu o placar, mas Dick Nanninga empatou no segundo tempo. Nos últimos instantes, Rob Rensenbrink acertou a trave argentina. A bola poderia ter encerrado a Copa com uma vitória holandesa.

Na prorrogação, Kempes marcou novamente e Daniel Bertoni fez o terceiro. A Argentina venceu por 3 a 1 e conquistou seu primeiro título mundial.

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