A polícia britânica prendeu 77 pessoas nesta quinta-feira (30), durante um ato em defesa da organização Ação Palestina diante do Tribunal de Magistrados de Westminster, no centro de Londres. A repressão ocorreu poucas semanas depois de Andy Burnham assumir o cargo de primeiro-ministro, substituindo Keir Starmer no comando do governo trabalhista.
A manifestação foi convocada pelo grupo Defend Our Juries no primeiro dia de audiências contra militantes processados por apoiar publicamente a Ação Palestina. A organização foi proibida pelo governo Starmer em 2025 e incluída na lista britânica de organizações consideradas “terroristas”.
“Expressar apoio à Ação Palestina é crime nos termos da Lei de Terrorismo. Os agentes começaram a efetuar prisões”, informou a Polícia Metropolitana de Londres.
Centenas de manifestantes compareceram ao tribunal com bandeiras palestinas e cartazes contra a proibição. O Defend Our Juries afirmou que o objetivo do ato era denunciar que a solidariedade à Palestina estava sendo tratada como terrorismo pelo Estado britânico.
Uma idosa em cadeira de rodas esteve entre as pessoas retiradas do local pela polícia. Segundo os organizadores, ela pode ser condenada a até 14 anos de prisão por declarar: “eu apoio a Ação Palestina e encorajo vocês a se juntarem a ela”.
Burnham mantém política de Starmer
Durante a disputa pelo cargo de primeiro-ministro, Burnham procurou se distanciar do desgaste provocado pela política de Starmer diante do genocídio na Faixa de Gaza. Admitiu que o Partido Trabalhista “não agiu corretamente” e pediu desculpas pela posição adotada.
As declarações não foram acompanhadas por nenhuma mudança efetiva. Burnham manteve a proibição da Ação Palestina e permitiu que a polícia prendesse dezenas de pessoas por manifestarem apoio ao grupo.
O novo governo também autorizou os Estados Unidos a utilizar bases militares britânicas em ataques apresentados como “defensivos” contra o Irã. A medida mantém o Reino Unido diretamente ligado às guerras promovidas pelo imperialismo no Oriente Próximo.
Durante o programa Análise Internacional, transmitido nessa quinta-feira pelo canal do Diário Causa Operária no YouTube, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou que a substituição de Starmer procurou apenas conter a crise do Partido Trabalhista.
“O governo Starmer estava liquidado, e eles decidiram colocar uma cara nova para a mesma política. Não vai mudar absolutamente nada. É uma tentativa de distrair o eleitor britânico. Como todo mundo estava profundamente insatisfeito com Starmer, troca-se a cara que encabeça o governo para manter a mesma política”, declarou Pimenta.
Segundo o dirigente, a repressão aos defensores da Palestina não é um fato isolado, mas parte da política do próprio Partido Trabalhista.
“A política do Partido Trabalhista britânico é sionista e altamente repressiva. Muita gente foi presa simplesmente por fazer publicações na Internet. É uma política antidemocrática e também uma política econômica contrária aos interesses dos trabalhadores”, afirmou.
Bilhões para a guerra
Enquanto a polícia prendia manifestantes em Londres, o governo Burnham anunciava um investimento de 8,4 bilhões de libras — cerca de US$11,2 bilhões — na próxima etapa do programa britânico de submarinos nucleares da classe Dreadnought.
A fabricante de armas BAE Systems receberá 5,9 bilhões de libras. O restante será destinado às empresas que participam da construção dos quatro submarinos previstos pelo programa.
Os recursos deverão financiar os testes do HMS Dreadnought, que o governo pretende incorporar à Marinha no início da década de 2030, e fazer avançar a construção do HMS Valiant e das outras duas embarcações.
O governo britânico reservou mais de 63 bilhões de libras para seu programa nuclear nos próximos quatro anos. O montante também inclui submarinos de ataque desenvolvidos por meio da AUKUS, aliança militar formada pelo Reino Unido, pelos Estados Unidos e pela Austrália.
Burnham procura apresentar o programa como uma política de geração de empregos. Segundo o primeiro-ministro, a construção das embarcações manterá 47 mil postos de trabalho e vagas de aprendizagem.
O argumento utiliza o desemprego entre os jovens para justificar a transferência de dezenas de bilhões de libras para a indústria armamentista. Em vez de ampliar os serviços públicos, o governo subordina o emprego e a formação profissional à preparação militar do imperialismo britânico.
“Esse negócio da compra de armas: o país está caindo aos pedaços e ele vai investir uma fortuna em armamentos. Estão preparando uma guerra contra os países que procuram ter o mínimo de independência política diante do imperialismo, como Rússia, China e Irã”, afirmou Rui Costa Pimenta.
Jeremy Corbyn, deputado e dirigente do partido This Is Your Party, condenou o investimento poucos dias antes do aniversário do bombardeio atômico de Hiroxima.
“Na próxima semana, será o aniversário de Hiroxima. Hoje, o primeiro-ministro anunciou mais investimentos em armas de destruição em massa”, declarou.
Corbyn acrescentou que o Reino Unido gasta 12 mil libras por minuto com armas nucleares e defendeu que os recursos fossem aplicados na assistência social, nas escolas e no Serviço Nacional de Saúde.
Proibição chega à Suprema Corte
No mesmo dia das prisões, a Suprema Corte britânica informou que julgará um novo recurso contra a inclusão da Ação Palestina na lista de organizações “terroristas”.
Em fevereiro, a Alta Corte havia decidido que a proibição interferia ilegalmente na liberdade de expressão. Em junho, outra decisão considerou a medida legal sob a justificativa de que o grupo apoiaria ações violentas.
Huda Ammori, uma das fundadoras da Ação Palestina, recebeu autorização para recorrer. Ela afirmou que levará o caso ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos, caso a proibição seja mantida pela Suprema Corte.
“Continuaremos lutando contra esta proibição até a Suprema Corte e, se necessário, até o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, para derrubar o que se tornou um dos ataques mais extremos à liberdade de expressão e ao direito de protesto da história britânica moderna”, declarou.
Zack Polanski, dirigente do Partido Verde, também exigiu que Burnham retire a Ação Palestina da lista. Segundo ele, o primeiro-ministro tem autoridade para revogar imediatamente a decisão tomada pelo governo anterior.
Crise do trabalhismo
A continuidade da política de Starmer aprofunda a crise do Partido Trabalhista e abre espaço para uma alternativa à sua esquerda. Esse processo, porém, ainda é marcado pelas disputas internas do novo partido formado em torno de Jeremy Corbyn.
Rui Costa Pimenta afirmou que a situação britânica oferece uma oportunidade para a esquerda, mas advertiu que a organização pode ser destruída pelas disputas de aparelho e pela influência da política identitária.
“Eu acho que existe uma oportunidade, mas a esquerda britânica está meio confusa. Eles montaram um partido e, antes mesmo de organizá-lo, começaram a brigar pelo controle. Também já existe a infiltração dos identitários, que, se não for contida, levará à destruição desse partido como alternativa. Partido identitário é partido do regime político”, declarou.
Nas primeiras semanas do novo governo, Burnham autorizou o uso de bases britânicas contra o Irã, anunciou 8,4 bilhões de libras para submarinos nucleares e manteve uma lei que permite condenar a até 14 anos de prisão quem declarar apoio à Ação Palestina. A mudança no comando do governo não alterou a política de Starmer: apenas colocou outro dirigente imperialista à frente dela.





