As manifestações de 7 de Setembro mostraram uma diferença expressiva entre a capacidade de mobilização do bolsonarismo e a da esquerda que sustenta o governo Lula. Na Avenida Paulista, o ato de Flávio Bolsonaro reuniu 28,5 mil pessoas. Na Praça da Sé, o Grito dos Excluídos não chegou a 400 participantes.
A estimativa do ato bolsonarista foi produzida pelo Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Cebrap e a More in Common. Fotografias feitas por drones foram analisadas por um programa de contagem de pessoas.
No momento de maior concentração, às 16h32, havia aproximadamente 28.500 manifestantes. Com margem de erro de 12%, o número pode variar entre 25.100 e 32 mil.
A manifestação foi convocada por Flávio Bolsonaro e por dirigentes de seu campo político. Não era uma solenidade estatal nem uma atividade em que servidores, militares ou estudantes compareciam como parte de uma programação oficial. As pessoas foram à Paulista para participar de uma mobilização política da direita.
No mesmo dia, o Grito dos Excluídos reuniu sindicatos, movimentos populares, organizações religiosas e partidos de esquerda na Praça da Sé.
A manifestação defendia reivindicações como o fim da escala 6×1, moradia, reforma agrária e direitos sociais. Apesar do envolvimento de organizações nacionais, sindicatos e movimentos com décadas de atividade, menos de 400 pessoas participaram do ato em São Paulo.
A desproporção é enorme. O bolsonarismo reuniu dezenas de milhares de pessoas. A esquerda organizada, na maior cidade do País, não conseguiu reunir quatro centenas.
O Grito dos Excluídos também promoveu atos em outras capitais. No Rio de Janeiro, sindicatos e movimentos sociais marcharam pela Avenida Presidente Vargas. As informações disponíveis não apresentam uma contagem independente que permita estabelecer a mesma comparação numérica feita em São Paulo.
O desfile de 7 de Setembro em Brasília não serve para esconder essa diferença.
A Secretaria de Comunicação Social do governo federal divulgou uma estimativa de 70 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. Lula, porém, não estava diante de uma manifestação convocada por sua campanha. Participava do desfile cívico-militar oficial na condição de presidente da República.
Forças Armadas, órgãos públicos e estudantes de escolas do Distrito Federal participaram da programação. A organização dependia diretamente do aparato estatal.
Não se pode transformar esse público em 70 mil apoiadores mobilizados politicamente por Lula.
Uma manifestação partidária depende de pessoas que decidem atender a uma convocação política. Um desfile oficial existe porque o Estado o organiza. A distinção é elementar.
A medida da força demonstrada nas ruas deve ser procurada, portanto, nas manifestações convocadas pelos próprios campos políticos.
Nesse terreno, o 7 de Setembro favoreceu claramente a direita.
O resultado merece atenção especial porque a esquerda dispõe de uma estrutura muito maior do que o público do Grito dos Excluídos poderia sugerir. Há centrais sindicais, sindicatos, movimentos de moradia, organizações estudantis, partidos e entidades presentes em todo o País.
Além disso, as reivindicações apresentadas na Praça da Sé interessam diretamente a milhões de trabalhadores. O fim da escala 6×1, por exemplo, tornou-se uma das principais reivindicações populares dos últimos anos.
Mesmo assim, praticamente ninguém foi às ruas.
A dificuldade não pode ser explicada dizendo que a população trabalhadora perdeu interesse pela política. No mesmo dia, dezenas de milhares foram à Paulista participar de uma manifestação da direita.
O bolsonarismo conserva uma base mobilizada porque trava uma disputa política aberta. Seus dirigentes apresentam seus apoiadores como perseguidos pelo STF, atacam Alexandre de Moraes, denunciam prisões e usam esses conflitos para convocar sua base.
A esquerda governista seguiu outro caminho. Nos últimos anos, colocou no centro de sua política a defesa do STF, das instituições do regime e da frente ampla formada com setores tradicionais da direita.
É muito mais difícil colocar trabalhadores nas ruas para defender ministros do Supremo, acordos parlamentares e instituições profundamente apodrecidas do que para lutar por salário, emprego, redução da jornada e melhores condições de vida.
O Grito dos Excluídos possui reivindicações capazes de mobilizar os trabalhadores. O contraste entre seu programa e seu público mostra que essas bandeiras não estão sendo transformadas numa campanha política de massas pela direção governista da esquerda.
A campanha de Lula pode aparecer à frente em pesquisas e contar com uma gigantesca máquina eleitoral. Nada disso elimina a importância da mobilização.
Uma eleição disputada não é decidida somente pela propaganda, pelo tempo de televisão ou pelos acordos entre dirigentes. É necessário organizar militantes, conquistar trabalhadores e colocar gente nas ruas.
Em 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro mostrou que possui uma base capaz de responder a uma convocação. A esquerda ligada ao governo não mostrou nada parecido.
O desfile de Brasília pode produzir fotografias de uma Esplanada cheia. Não substitui uma manifestação popular.
Se a relação vista no 7 de Setembro se repetir durante a campanha, Lula chegará à eleição com uma desvantagem grave: seu principal adversário consegue mobilizar nas ruas uma força que os partidos e movimentos ligados ao governo não estão conseguindo reunir.





