Os governos que durante décadas apresentaram a Internet livre como uma conquista das chamadas democracias liberais estão montando um aparelho cada vez maior para controlar aquilo que pode circular nas redes.
Um artigo publicado no Poder 360 por Sara Clem e Jacob Mchamgama sobre o fim da Internet aberta reúne medidas adotadas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil contra a liberdade de expressão.
O pretexto é conhecido. Governos e tribunais dizem combater o “discurso de ódio”, a desinformação, o crime, a interferência estrangeira e os chamados movimentos populistas. Por trás dessas justificativas, porém, avança uma política de vigilância, identificação de usuários e retirada de conteúdos considerados inconvenientes pelas autoridades.
A própria União Europeia passou a tratar o controle da Internet como parte da chamada “soberania digital”. O conceito, que antes aparecia ligado à disputa econômica com as grandes empresas norte-americanas de tecnologia, passou a incluir diretamente o controle político das redes sociais.
Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz defende que os usuários sejam obrigados a se identificar. Entre 2023 e 2025, as investigações por ofensas contra políticos cresceram 85% no país. Na França, Emmanuel Macron quer ampliar o poder do Estado contra conteúdos classificados como falsos. Áustria, Dinamarca e Espanha também endureceram suas leis sobre o chamado “discurso de ódio”.
A Lei de Serviços Digitais da União Europeia completa esse mecanismo ao responsabilizar as plataformas pelo conteúdo publicado. Diante da ameaça de multas e outras punições, as empresas são pressionadas a retirar previamente tudo aquilo que possa criar problemas com os governos.
Internet só serve ao imperialismo para cercar rivais
Há pouco mais de uma década, a política oficial era oposta. Em 2012, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução em defesa da extensão da liberdade de expressão para a Internet. Naquele período, os governos imperialistas apresentavam o livre fluxo de informações como parte da luta mundial pela “democracia”.
A posição estava diretamente ligada às necessidades políticas do imperialismo. Durante a chamada Primavera Árabe e em inúmeras operações posteriores, as redes sociais foram utilizadas para estimular movimentos contra governos que os Estados Unidos e a Europa pretendiam derrubar.
Enquanto a Internet servia para desestabilizar outros países, sua abertura era tratada como um princípio democrático. O problema começou quando esse mesmo instrumento passou a favorecer uma crescente contestação aos regimes políticos dos próprios países imperialistas, na medida em que entravam em crise.
Partidos tradicionais perderam apoio, movimentos contrários ao establishment cresceram e milhões de pessoas passaram a utilizar as redes para contornar os grandes monopólios de imprensa. A resposta das “democracias liberais” foi abandonar progressivamente aquilo que haviam apresentado como princípio universal.
A liberdade vale enquanto não ameaça quem controla o regime.
O negócio da “sociedade aberta”
Essa mudança ajuda a revelar o conteúdo da expressão “sociedade aberta”, adotada pelos regimes neoliberais que se desenvolveram a partir da década de 1970.
O neoliberalismo tornou-se a forma geral assumida pelo imperialismo europeu e norte-americano. Sua política consiste em abrir os países à penetração dos bancos, fundos financeiros e grandes monopólios capitalistas, removendo obstáculos econômicos e políticos aos seus negócios.
A chamada “democracia liberal” aparece como complemento desse sistema. O Estado deve interferir o mínimo possível para limitar o movimento do grande capital, que esmaga o pequeno, enquanto as instituições políticas garantem a estabilidade necessária ao funcionamento dessa ordem.
É esse o verdadeiro sentido da abertura. Os países devem permanecer abertos ao capital imperialista.
George Soros fornece uma ilustração particularmente clara. Sua principal rede internacional de organizações recebeu justamente o nome Open Society. O financista, conhecido pelas operações especulativas que fizeram sua fortuna, passou a destinar grandes quantias a organizações e movimentos que promovem o discurso da democracia liberal, da “sociedade civil” e da abertura política.
Essas organizações atuam particularmente em países que o imperialismo procura submeter politicamente. Sob a bandeira da democratização, financiam movimentos utilizados em operações de mudança de regime, abrindo caminho para governos mais favoráveis à penetração do capital estrangeiro.
A expressão “sociedade aberta”, portanto, não nasceu das necessidades democráticas da população. É um programa dos banqueiros, especuladores financeiros e grandes monopólios.
O pluralismo termina onde começa a oposição
A atual política de censura mostra que a defesa do pluralismo sempre foi uma farsa. Ela esteve subordinada à estabilidade do regime neoliberal.
Enquanto os principais partidos, a grande imprensa e as instituições conseguiam determinar os limites do debate público, havia espaço para exaltar a “livre circulação de ideias”. Quando aumentou a rejeição ao regime, essa liberdade transformou-se rapidamente em um problema de segurança.
Por isso, praticamente toda manifestação política contrária ao establishment passa a ser tratada como consequência da desinformação, dos algoritmos ou de alguma interferência estrangeira. Os problemas reais que alimentam esse descontentamento — crise econômica, empobrecimento da população e desgaste das instituições — são colocados de lado.
Em seu lugar, aparece a tese conveniente de que a população está sendo manipulada pela Internet.
A consequência dessa política é entregar aos próprios defensores do regime o poder de determinar quais críticas são legítimas e quais representam uma ameaça à “democracia”. A palavra democracia passa, assim, a significar a defesa das instituições e dos partidos que já controlam o Estado.
STF colocou o Brasil no mesmo caminho
O fenômeno também está presente no Brasil. A diferença está principalmente no instrumento utilizado.
O Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, estabelecia uma proteção importante contra a censura preventiva. Em regra, uma plataforma só responderia por uma publicação depois de descumprir uma ordem judicial específica para sua retirada.
O STF modificou esse sistema em 2025 ao ampliar a responsabilidade das empresas sobre conteúdos de terceiros. Com isso, as próprias redes passaram a ter um incentivo muito maior para retirar antecipadamente publicações que possam ser consideradas problemáticas pelos tribunais.
O bloqueio nacional do X, determinado por Alexandre de Moraes em 2024, já havia mostrado a extensão desse poder. Uma decisão judicial conseguiu impedir o acesso de toda a população brasileira a uma das maiores redes sociais do mundo.
O chamado PL das Fake News segue a mesma direção. Conceitos pouco precisos permitem ampliar progressivamente aquilo que pode ser enquadrado como conteúdo ilegal ou passível de retirada.
Na Europa, essa política avança principalmente através de leis. Nos Estados Unidos, também aparece na pressão do Executivo sobre empresas e usuários. No Brasil, o STF transformou-se em uma das principais instituições de controle da expressão política na Internet.
A sociedade só é “aberta” para os monopólios
A crescente censura nas chamadas democracias liberais não representa uma contradição acidental. Ela mostra para que serve esse regime.
A “sociedade aberta” permanece aberta enquanto os bancos e monopólios têm liberdade para penetrar nos países, movimentar capitais e controlar setores inteiros da economia. A abertura política existe dentro dos limites necessários para conservar esse sistema.
Agora, diante da crise do neoliberalismo e do crescimento da oposição aos partidos tradicionais, esses limites estão ficando mais estreitos.
Os mesmos setores que apresentavam a liberdade de expressão como prova da superioridade das “democracias liberais” passam a defender identificação compulsória, censura preventiva, remoção de conteúdos e bloqueio de redes sociais.
Nunca se tratou de entregar à população o controle do debate político. Tratou-se de controlar o jogo. E, quando uma parcela crescente da população deixou de aceitar as regras estabelecidas pelos bancos, monopólios, tribunais e partidos do regime, a “sociedade aberta” começou a fechar suas portas.




