Militantes do Partido da Causa Operária (PCO) foram impedidos de se inscrever para falar no 32º Grito dos Excluídos. A organização do ato afirmou que partidos políticos não poderiam usar o microfone e que as falas seriam reservadas aos movimentos que participaram da preparação da manifestação.
O argumento, porém, continuou sendo usado mesmo quando os militantes explicaram que não pretendiam falar em nome do partido. Eles pediram a inscrição do coletivo de mulheres Rosa Luxemburgo, da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR) e da Corrente Sindical Nacional Causa Operária (CSNCO).
Segundo relato de um militante ao Diário Causa Operária, uma das organizadoras, identificada como Miriam, pediu que eles aguardassem enquanto anotava os nomes das entidades que poderiam falar. Na lista apareciam organizações como a Central de Movimentos Populares (CMP) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Quando os militantes voltaram a cobrar uma resposta, a organizadora disse que poderia anotar os nomes, mas não garantia a fala. “Vai falar quem construiu o movimento”, afirmou.
Outro integrante da organização foi ainda mais claro quando ouviu o nome da corrente sindical do PCO: “isso aí não vai falar, não”. Os militantes insistiram que se tratava de uma corrente sindical que fazia parte, inclusive, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), mas receberam novamente a resposta de que somente os movimentos escolhidos pela organização teriam espaço.
Nem mesmo todos os movimentos presentes foram aceitos. Uma militante da luta antimanicomial também tentava conseguir uma fala e foi impedida de usar o microfone.
O episódio desmente a alegação de que a restrição serviria apenas para impedir que partidos utilizassem o ato eleitoralmente. Quando coletivos, uma corrente sindical e até uma militante de outro movimento pediram para falar, a resposta foi a mesma: só fala quem a organização autorizar.
Apartidarismo para alguns
A política adotada no Grito dos Excluídos é conhecida. Os partidos são apresentados como um problema, enquanto determinadas organizações, escolhidas pela direção do ato, recebem o direito de falar em nome de todos.
Esse apartidarismo não acaba com a política. Ao contrário, entrega o controle político da manifestação a um grupo que não foi eleito por ninguém e que decide quem terá ou não acesso ao microfone.
A contradição é ainda maior em um ato chamado Grito dos Excluídos. Os militantes do PCO puderam participar da manifestação, mas foram impedidos de defender suas posições diante do público. Até uma militante da luta antimanicomial ficou de fora.
O Grito dos Excluídos acabou, assim, submetido ao método característico dos setores identitários: seleciona-se previamente quem está autorizado a falar e exclui-se quem não pertence ao círculo das organizações que controlam o ato. O resultado é o contrário do que anuncia o próprio nome da manifestação: um Grito dos Exclusivos.




