Esta é a primeira matéria de uma série sobre a política da esquerda brasileira diante do Supremo Tribunal Federal (STF). Durante anos, a esquerda institucional e pequeno-burguesa transformou o tribunal em objeto de devoção porque seus ministros perseguiam a extrema direita. Agora que a podridão do Supremo está vindo à tona, essa política começa a se voltar contra seus próprios defensores.
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) é um dos exemplos mais claros. Apresentada como integrante da “esquerda radical” e como socialista, apoiou algumas das maiores arbitrariedades cometidas pelo Estado burguês nos últimos anos. Fez isso justamente em nome da “democracia”, do combate à extrema direita e da repressão a manifestações consideradas machistas, racistas ou ofensivas contra diferentes setores da população.
Por trás da defesa desses princípios existe um problema político muito mais simples. O bolsonarismo tornou-se um concorrente eleitoral da esquerda pequeno-burguesa. Passou a disputar os mesmos cargos públicos e uma parcela importante do eleitorado. Diante disso, essa esquerda resolveu apoiar praticamente qualquer arbitrariedade que pudesse enfraquecê-lo.
Foi assim que passou a dar cobertura política à ditadura judicial erguida pelo STF.
Moraes como arma política
O 8 de Janeiro expôs essa política com particular clareza. A esquerda pequeno-burguesa apoiou a gigantesca caçada promovida pelo Estado contra os bolsonaristas e tratou a repressão como uma vitória democrática simplesmente porque os atingidos pertenciam à extrema direita.
O princípio adotado foi simples: se a vítima é bolsonarista, vale tudo.
O problema é que liberdade de expressão, direito de defesa e demais liberdades democráticas não existem apenas para quem tem posições políticas consideradas aceitáveis pela esquerda. Defender que o Estado possa suprimi-las contra a direita significa entregar ao próprio Estado os instrumentos que serão usados contra a esquerda e contra os trabalhadores.
Sâmia não apenas apoiou politicamente esse processo. Ela própria recorreu ao STF para atingir um adversário. Em novembro de 2024, enviou um ofício ao gabinete de Alexandre de Moraes pedindo a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Esse episódio resume a política de todo um setor da esquerda. Incapaz de derrotar politicamente a extrema direita, passou a pedir que um ministro não eleito do Supremo prendesse seu principal dirigente.
Sâmia também reafirmou diversas vezes a necessidade de o STF agir contra aquilo que chama de investidas golpistas da extrema direita. O tribunal passou, portanto, a cumprir para essa esquerda uma função política: investigar, censurar e punir os adversários que ela própria não conseguia afastar por meio da luta política.
A defesa das arbitrariedades não ficou restrita ao bolsonarismo. O mesmo setor da esquerda pede continuamente maior intervenção da Justiça e do aparato repressivo para punir opiniões em nome do combate ao machismo, ao racismo, a ofensas contra homossexuais e até à chamada “gordofobia”.
É exatamente isso que Sâmia faz. Ela comemorou recentemente a vitória judicial contra o humorista Danilo Gentili, após a Justiça inventar o crime de “gordofobia” e condenar o apresentador a indenizá-la. Sâmia urrou e aplaudiu o Judiciário no mesmo momento em que ele comprova ser o poder mais podre da República, além de ser tradicionalmente a instituição mais conservadora e servil à burguesia e ao imperialismo para oprimir o povo.
O resultado dessa política foi fortalecer extraordinariamente o aparelho repressivo do regime. Em nome da luta contra a direita, deu-se apoio a ministros que acumulam poderes para determinar censura, investigação e prisão.
E agora, Sâmia?
O problema apareceu quando a crise deixou de atingir apenas os inimigos dessa esquerda e chegou aos próprios ministros.
As relações entre integrantes do STF e os grandes banqueiros, agravadas pelo escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, destruíram a imagem cuidadosamente fabricada de um tribunal formado por guardiões desinteressados da democracia.
Agora Sâmia não sabe o que fazer. Faz meias críticas e meias propostas sobre o STF, que no final das contas não significam nada.
Em entrevista ao MyNews, classificou a situação como uma “crise natural” do Judiciário. Diante dos negócios envolvendo Vorcaro, passou a defender investigação e responsabilização dos envolvidos, propondo, em essência, “separar o joio do trigo”.
É justamente aí que os poodles do STF começam a morder o próprio rabo.
Depois de anos apresentando o Supremo como trincheira da democracia, Sâmia não pode reconhecer que o problema é o próprio tribunal. Se fizesse isso, teria de explicar por que apoiou durante tanto tempo a concentração de poderes nas mãos de seus ministros e por que recorreu a Alexandre de Moraes para mandar prender um adversário político.
Por isso, precisa transformar a crise do STF numa soma de problemas individuais. Haveria alguns ministros envolvidos em negócios espúrios e outros que poderiam continuar cumprindo normalmente seu papel. Bastaria “separar o joio do trigo”.
A formulação procura preservar o essencial: o STF e os poderes que ele acumulou.
O escândalo Vorcaro deixou essa esquerda sem política. Seus heróis, apresentados durante anos como defensores da democracia contra o bolsonarismo, aparecem agora envolvidos numa crise que expõe suas relações com banqueiros e grandes interesses privados. E aqueles que apoiaram suas arbitrariedades precisam explicar como os paladinos da democracia chegaram a essa situação.
Não chegaram agora. O problema sempre esteve diante de todos. O STF é um órgão composto por ministros não eleitos, com poderes gigantescos e sem controle da população. A esquerda pequeno-burguesa aceitou e ajudou a fortalecer esse poder porque ele estava sendo usado contra seus concorrentes políticos.
Agora, quando a podridão do tribunal não pode mais ser escondida, tenta salvar seus antigos heróis falando em “apuração” e em “separar o joio do trigo”.
Depois de ajudar a alimentar a ditadura judicial, os poodles do STF descobriram que estavam presos à mesma coleira.



