O artigo A derrota de Orbán e suas consequências, de Rui Martins, publicado no sítio Observatório da Imprensa nesta quinta-feira (16), faz uma espécie de compilado do que se publicou na imprensam, inclusive neste Diário, sobre a derrota de Victor Orbán, na Hungria.
Começando pelo final, temos os dois seguintes parágrafos:
“O Esquerda Online, órgão do PSol, num texto publicado antes das eleições húngaras, com foto mostrando juntos Orbán e Bolsonaro, tem por título Hungria: Trump e Putin unidos em defesa do fascismo.”
“Esse texto é duramente criticado pela extrema esquerda do PCO, Partido da Causa Operária, talvez o único, no Brasil, a apoiar Orbán, criticando Esquerda Online como ‘falência da esquerda pequeno-burguesa, que passa de armas e bagagem para o lado da democracia liberal, mais conhecida como imperialismo’.”
Tanto o DCO quanto o PCO não apoiam Orbán, a interpretação acima está equivocada. A matéria que publicamos, PSOL assume apoio ao imperialismo ‘democrático’ (leia na íntegra), trata de desmascarar que a única divergência entre a “democrática” União Europeia e o direitista Orbán está no fato deste ter se tornando um entrave na guerra por procuração da OTAN contra a Rússia. Se o mandatário húngaro fosse a favor da guerra na Ucrânia, e tivesse cortado relações com os russos, poderia ficar no poder o quanto quisesse e não seria incomodado.
Dúvidas
Martins inicia seu texto fazendo um jogo de perguntas e respostas como “o que mudou no tabuleiro europeu e internacional com a derrota de Victor Orbán? Quem saiu perdendo foi a Rússia de Putin, quem saiu ganhando foi a Otan e por tabela o presidente Zelensky da Ucrânia”. “Seria um primeiro recado para Trump, antes das eleições de novembro, nas quais os democratas poderão recuperar a maioria na Câmara e no Senado?”
Para Martins, “o autocrata Trump jogou no conservador anti-europeu pró-Rússia e perdeu. Para a Rússia, ficou a mensagem de que os húngaros se reconhecem dentro da União Europeia”, uma adjetivação curiosa, pois o presidente americano foi eleito pelo voto popular. – grifo nosso.
Vale lembrar que o “autocrata” foi apoiado pela UE em sua guerra de agressão contra o Irã.
“Até onde irão as vagas da maré alta contra o extremista de direita, homofóbico, racista e antissemita Orbán, fragorosamente derrotado?”, pergunta Martins. A resposta é simples: se forem homofóbicos monarcas da Arábia Saudita, ou de alguma monarquia petroleira, a maré vai continuar favorável, como sempre.
Com relação às marés, Martins responde que “até a Paris já chegaram, encharcando o partido da extrema direita de Marine Le Pen e levantando uma dúvida – chegou ao fim o crescimento e a expansão da extrema-direita?”. Le Pen foi acuada porque o imperialismo utilizou de sua truculência habitual. O crescimento da extrema direita vai bem, obrigado, basta ver o que vem acontecendo na Alemanha com a AfD.
O jornalista quer saber se “vai sobrar também para Milei na Argentina? Chegará também com força no Brasil, diminuindo a força e expansão do populismo religioso de extrema-direita ou aqui serão só marolas?”. Tudo indica que a polarização social vai continuar crescendo, conforme aumenta a crise do imperialismo. Trata-se de um fenômeno social, concreto. Medidas judiciais, como as que estão sendo utilizadas nos EUA, Brasil e França, têm um alcance limitado e não vão funcionar no longo prazo como dique de contenção.
Os “vencedores”
Rui Martins afirma que “ainda é cedo para avaliações corretas, mas a Europa do francês Macron, do alemão Merz e da presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen saiu reforçada. Orbán mantinha uma duvidosa aproximação com a Rússia e sua derrota depois de 16 anos de governo, significa, como disse Van der Leyen, que ‘a Hungria escolheu ou optou pela Europa’”.
Macron é o sujeito que deu um golpe na esquerda, que ganhou a eleição e não levou. Merz é homem é funcionário da BlackRock. A senhora Van der Leyen é aquela que negociou 35 bilhões de euros para a compra de 1,8 bilhão de doses da vacina da Pfizer/BioNTech em 2021 – para ficarmos em um exemplo.
A Hungria não optou exatamente pela Europa, essas eleições sofreram todo tipo de ingerências. Já estava até engatilhada uma revolução colorida, caso as urnas não confirmassem Péter Magyar, o candidato da oposição.
O Brasil nesse jogo
Segundo Martins, “a derrota fragorosa do temido Orbán deixou claro não ser tão importante o risco de uma intervenção norte-americana nas eleições brasileiras de outubro. De nada adiantou o apoio declarado de Trump nem a presença do vice-presidente Vance às vésperas das eleições.”
Duas coisas: 1) ninguém, tirando este Diário, entende que tanto Trump quanto Orbán estão em contradição com o imperialismo, nenhum deles é um candidato natural do grande capital, daí a proximidade. 2) as eleições brasileiras já estão sob intervenção do imperialismo, que tratou de colocar Jair Bolsonaro na cadeia. O ex-presidente, não por acaso, é próximo de Trump e Orbán.
“Não se pode esquecer que houve a tentativa indireta russa de influir no voto do eleitorado húngaro”, assinala Martins. Para ele, “Putin, assim como Trump e certamente por outros motivos, preferia a vitória de Orbán. Por sua vez, Orbán mantinha contatos com o Kremlin, e foram divulgadas conversas de seus ministros com o ministro russo Sergei Lavrov.”. O jornalista, para manter a imparcialidade, tão cara à imprensa, pelo menos em tese, poderia ter verificado a influência da UE nas eleições. Ou devemos acreditar que o imperialismo ficou de braços cruzados?
Após descrever a proximidade de Orbán com Bolsonaro, Martins afirma que “ambos têm um ponto comum, são próximos de Israel e Netanyahu, com uma diferença: Orban é antissemita”.
Orbán é um defensor ferrenho do Estado de “Israel”, proibiu no país manifestações em apoio à Palestina, é próximo do genocida Netaniahu. Se isso aí for antissemitismo, fica difícil entender o significado da palavra.





