O artigo Hungria: Putin e Trump unidos em defesa do fascismo, assinado por Bruno Alves, e publicado no sítio Esquerda Online nesta quinta-feira (9), é um exemplo acabado de uma esquerda liberal, que abandonou completamente a luta pelo socialismo, e que defende a democracia contra um suposto inimigo comum: o fascismo.
No início, o autor escreve que “a Hungria é parte da OTAN e da União Europeia. Tendo sido um Estado Socialista, entre 1945 até 1989. Em 1968 a União Soviética invadiu o país para sufocar as manifestações democráticas contrárias ao stalinismo. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, está no poder desde 2010”.
Existem aí dois problemas: 1) do modo como foi dito, o leitor acaba sendo engando, pois não é informado que a Hungria é um membro rebelde da OTAN e da União Europeia. Ou seja, estava em contradição com o imperialismo.
2) Enfatizar que um governante está no poder por determinado período, revela uma ilusão com a democracia burguesa, e essa crítica serve apenas para determinados governos, pois Angela Merkel, ex-chanceler da Alemanha ficou pelos mesmos 16 anos poder sem nunca ter sido contestada.
É verdade que “tais eleições são extremamente relevantes, nelas movem-se peças importantes do tabuleiro mundial”, por isso o imperialismo jogou tanto peso e promoveu ali um verdadeiro golpe de Estado.
O espantalho
O artigo passa a ligar Orbán à figura de Jair Bolsonaro, sobre quem teria declarado em 2019 que “A definição mais adequada de democracia cristã moderna pode ser encontrada no Brasil, não na Europa”. Além disso, informa que Bolsonaro, ainda na presidência, teria visitado a Hungria em 2022. Bolsonaro, que teria dito que Orbán “seria como se fosse um irmão”, declarando ainda o seguinte: “comungamos a defesa da família com muita ênfase, uma família bem estruturada faz com que a sua respectiva sociedade seja sadia, e não devemos perder esse foco”.
O problema com Orbán é que esta defesa da família se traduziria em “leis homofóbicas”. E, segundo o Esquerda Online, “ao longo dos 16 anos no governo Viktor Orban modificou muito as instituições da Hungria, impondo um regime em vários aspectos bonapartista. Passando a controlar totalmente a mídia. Tendo uma política interna de incentivo à xenofobia, com combate aos imigrantes”.
No artigo está dito que “[Orbán] ao mesmo tempo é muito próximo de Israel, e Benjamin Netanyahu, também é abertamente antissemita”, mas não explora essa contradição. O ex-presidente, ficou famoso por sua briga com o bilionário George Soros, que é judeu, e que costuma financiar revoluções coloridas e a “esquerda” mundial, inclusive no Brasil. Virá daí sua fama de antissemita?
Orbán defende o Estado de “Israel” e proibiu manifestações pró-Palestina no país, mas o Esquerda Online preferiu não tocar no assunto, pois teria que criticar a União Europeia, que faz o mesmo. Nesse ponto, a democrática UE e o fascista têm acordo, ao que tudo indica.
Outra acusação é que Orbán “desde 2011 modificou o Poder Judiciário para ter o controle das instituições”. Mas essa foi uma medida defensiva, uma vez que desde 2009 o Judiciário tem sido utilizado para dar golpes de Estado.
No Brasil, a burguesia tem utilizado o golpista Supremo Tribunal Federal (STF) para usurpar as atribuições do Congresso e do Executivo. Isso com apoio da esquerda pequeno-burguesa, que em setembro de 2025 participou de uma manifestação chamada pela Rede Globo para emparedar o Legislativo.
Alinhamento
O artigo afirma que “Orban acusa a oposição de ser controlada pela União Europeia. Faz um alarde que caso não seja reeleito vai ocorrer a 3ª Guerra Mundial. De fato, a oposição tem um alinhamento com o imperialismo Europeu. Sequer se poderia dizer que seria uma oposição de centro. O perfil da oposição é o liberalismo burguês, de direita, contra um governo fascista, de extrema direita. Neste contexto, a derrota de Orbán é uma vitória da democracia. Não por qualquer ilusão em sua oposição”. – grifos nossos.
É inacreditável o que o Esquerda Online acaba de afirmar; diz que a oposição é imperialista, liberal, e que, ainda assim, sua eleição seria uma vitória da democracia porque, supostamente estaria contra um governo fascista.
A União Europeia, que apoia a Ucrânia fascista; que apoiou e participou do massacre na Faixa de Gaza, na agressão ao Irã, é democrática. O que seria, então, o fascismo. Qualquer pessoa de esquerda deveria saber que não existe contradição entre as democracias burguesas e o fascismo.
Vitória da “democracia”
Como escreveu este Diário (leia na íntegra), a vitória da oposição foi imediatamente saudada pelos principais dirigentes do bloco imperialista europeu. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que “a Hungria escolheu a Europa”. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que “o lugar da Hungria é no coração da Europa”. Emmanuel Macron disse receber o resultado como uma vitória do apego do povo húngaro aos “valores da União Europeia”. O chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o premiê polonês Donald Tusk e outros chefes de governo também comemoraram a derrota de Orbán. É do lado dessa gente que o Esquerda Online está.
A reação foi reveladora do que estava em jogo. Orbán havia se transformado em um dos principais obstáculos internos à política de guerra da União Europeia. O governo húngaro vinha bloqueando ou atrasando medidas de apoio ao regime ucraniano, opunha-se ao aprofundamento do confronto com a Rússia e resistia à integração plena da Ucrânia aos organismos imperialistas. Também vetou um pacote europeu de cerca de 90 bilhões de euros para a Ucrânia e manteve a cooperação energética com a Rússia, em especial por meio do oleoduto Druzhb.
Estes são os motivos da oposição europeia contra Orbán, não tem nada de luta “antifascista”.
O artigo do Esquerda Online também está comprometido ideologicamente com o imperialismo, pois repete a propaganda que acusa Vladimir Putin de ter “delírios czaristas”.
Eis a falência da esquerda pequeno-burguesa, que passa de armas e bagagem para o lado da democracia liberal, mais conhecida como imperialismo.




